Os atentados do Sri Lanka vistos pelos portugueses que conhecem bem o país

Cláudia Pinto passou três meses a viajar pelo território e regressou há pouco tempo. Diz que já se sentia alguma tensão.

No Sri Lanka 7% da população é cristã, 11% da população é muçulmana, 67% é budista e 15% é hindu

O domingo de Páscoa de 2019 começou com uma tragédia. O Sri Lanka acordou com seis explosões em igrejas e hotéis, praticamente em simultâneo, pelas 8h15, no horário local. Três dessas explosões ocorreram em Colombo, a capital, duas mais a norte, em Negombo, e uma em Batticalo, na zona leste do país. A estas somam-se mais duas, totalizando oito explosões. Até ao momento, já foram contabilizadas 207 mortos — incluindo um português, natural de Viseu, hospedado no hotel Kingsbury, um dos locais do ataque — e mais de 450 feridos.

O governo declarou estado de emergência e decretou recolher obrigatório. Bloqueou o acesso às redes sociais e aplicações de comunicação. As escolas e universidades estão fechadas até quarta-feira. O caos instalou-se.

Sobre os responsáveis pelo ataque, ainda não houve quem o tivesse reivindicado, ainda que a suspeita recaia sobre extremistas religiosos, tanto que o ministro da Defesa, Ruwan Wijewardane, avançou que na base dos ataques da manhã estariam bombistas suicidas.

Ana Ramos e o namorado João Monteiro, os dois com 28 anos, ainda estão perplexos com o que aconteceu. Estiveram em junho de 2018 neste país, tendo corrido vários locais: passaram por Colombo, por Sigiriya, Ella ou Kandy. Não sentiram qualquer tipo de tensão: “Vimos templos, mesquitas e a igreja de Negombo que sofreu o ataque. Havia paz”, diz Ana Ramos à MAGG.

Túlio Trindade, 36 anos, visitou o Sri Lanka pela mesma altura que o casal. Passou por Colombo, Kandy, Dambulla, Sigiriya, Pollonuwara, Nuwara, Ella, Unawatuna e Negombo. “Uma das coisas que mais me impressionaram foi, efetivamente, a paz e calma das pessoas”, conta. “Visitámos templos budistas, católicos, sem nos sentirmos olhados de parte”, acrescenta.

Ana Ramos, 28 anos, no Sri Lanka

Cláudia Pinto, 26, já viaja sozinha há alguns anos. Já passou pela Austrália, pela Indonésia e no último ano, passou mais tempo no Sri Lanka, onde, em 2018, passou um mês. “Ainda não havia este boom turístico”, recorda. Em 2019, regressou ao país e por lá ficou três meses. Notou que o destino se tinha tornado mais atrativo, porque o número de estrangeiros tinha crescido exponencialmente. Voltou para Portugal em março de 2019, depois de uma temporada em Angama, no sul da ilha: tinha menos gente, mais calma e boas ondas para a prática do surf.

O Sri Lanka tem, tal como nos mostram as imagens, um lado calmo e paradisíaco, recheado de cultura e preciosidades. Mas, conta Cláudia, apresentadora da Fuel TV, também tem um lado “caótico”, que se tem vindo a agravar pela presença de turistas, num país que ainda está mal preparado (incluindo mentalmente), para receber tantas pessoas. Colombo, refere, tem muitos contrastes: por um lado, é “uma favela gigante”, por outro, tem uma zona muito desenvolvida, onde até estão a construir uma “ilha artificial”. É uma cidade com muita pobreza ali no meio”, diz. “É caótico”, repete.

A segunda maior cidade é Kandy, mais limpa e relativamente mais calma do que Colombo, ainda que seja um dos destinos preferidos dos turistas. “Tem muita cultura, templos. O cenário à volta é incrível, com montanhas e campos de chá. Quem quer praia, num cenário completamente oposto, onde há mar, palmeiras e uma flora diferente daquela que se vê no centro da ilha, ruma a sul, sobretudo a Mirissa ou Weligama.

“Ainda existe algum preconceito entre religiões”

Em Angama, viveu como uma local, tanto que contactou, sobretudo, com as pessoas de lá. Fez muitos amigos, salientando o motorista de Tuk Tuk que a guiava para todo o lado. “Achou piada ao facto de anda a viajar sozinha. Apresentou-me à mulher. Trataram-me sempre como se fosse da família.”

Cláudia Pinto, 26 anos, de comboio, a passar a zona de Ella

Mas, mesmo aí, notou que existia alguma tensão, nomeadamente entre os budistas e muçulmanos. Refere o conflito entre o governo e a guerrilha tâmil, que durou 26 anos, que deixou cerca de 40 mil civis mortos e que só terminou em 2009: “Eles tiveram uma guerra civil que durou imensos anos e que não acabou há tanto tempo quanto isso. Ainda existe algum preconceito entre religiões. O meu amigo era budista, como a maioria das pessoas [67% são budistas]. Quando íamos a uma zona de muçulmanos, mandavam-me ter cuidado. Não é evidente, mas o preconceito ainda está lá.

”Depois de ter vivido lá, não consegue deixar de estranhar o local escolhido para os supostos atentados, sobretudo tendo em conta que a população cristã representa apenas 7%, de acordo com dados avançados pelo “Expresso“. “Eu acho estranho os atentados terem sido em igrejas e em hotéis. É mais direcionado para o turista, para as pessoas que foram para lá celebrar a Páscoa”, pensa. Conta que, por outro lado, os atentados em mesquitas não são assim tão raros. “Em 2018, depois de me vir embora, lembro-me de que houve atentados em mesquitas, mas referentes à tal rivalidade entre os muçulmanos e os pessoas que seguem religão budista.”

Nos últimos meses, as autoridades do Sri Lanka têm estado atentos ao National Thowheeth Jama”ath (NTJ), um novo grupo radical islâmico, sob suspeita de estarem a planear ataques contra igrejas. Já foram detidos sete suspeitos, mas não houve ligações confirmadas a este grupo. O Conselho Muçulmano do Sri Lanka condenou os ataques, sublinhando a perda de “vidas inocentes devido a elementos extremistas e violentos que querem criar divisões entre religiões e grupos étnicos para marcar a sua agenda”.

Mesmo antes de regressar, Cláudia passou por Negombo, uma das zonas das primeiras explosões. “Foi tranquilo. Não vi muitos turistas, não sei se foi da altura em que lá estive. É uma zona de férias, sem muita gente a andar na rua. Não é assim nada de especial — mais do que um destino turístico, é um sítio que dá jeito, porque está perto do aeroporto.

Janaka, o amigo de Cláudia Pinto, que a acompanhou nos três meses de estadia

Sobre a previsibilidade dos acontecimentos, diz que não, que não havia como prever, mas notou que é um país com muitas feridas por sarar, não só pela guerra civil, mas como pelo tsunami. É um país frágil, que está a sofrer um crescimento turístico repentino, para o qual podem não estar preparados, considera a apresentadora.

Turistas demasiado à vontade

Nunca sentiu a sua segurança em risco, mas, admite, sempre fez por isso. Por outro lado, Cláudia nota que há turistas que vão para o país e se esquecem que estão numa cultura completamente diferente.

“Muitos não têm o respeito pelo local. Acho que é assim no mundo inteiro, mas há zonas mais frágeis, como é o caso do Sri Lanka. Assim como têm cuidados aqui e têm a sua maneira de viver a vida aqui, têm de perceber como é que hão de estar noutro país, sobretudo quando são sítios distantes.”

Colombo é uma capital com duas caras: por um lado, o desenvolvimento acelerado, por outro, a pobreza extrema

Levar um contacto de um local, não andar, por exemplo, de biquini na rua, estudar a cultura antes de ir e ter cuidado com as estradas são algumas das dicas que Cláudia Pinto deixa, quer se viaje para o Sri Lanka, quer seja para outro destino, com costumes distintos dos europeus.

“Alugar uma scooter num país em que não se conhece bem a condução não tem mal, mas deve ter-se cuidado. É sempre melhor ter um motorista porque as estradas são perigosas. Os autocarros, que andam na estrada principal, são máquinas de matar: levam tudo à frente. Vi um turista russo que foi literalmente arrastado pelo autocarro. Ultrapassam-se uns aos outros, é caótico. É preciso ter cuidado com a estrada.”

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