Crónica. O Dia da Mãe está a chegar e eu vejo-te em cada montra e esquina por onde passo

A cronista Ana Teresa Santos recorda a mãe e a saudade que sente por já não a ter a seu lado. Escreve semanalmente na MAGG. Leia a crónica.

Não sei se jamais saberei o que é gostar de alguém depois de ter tido uma tamanha perda, sobretudo depois de tudo ter acontecido assim

Jean Gerber/Unsplash

É tão singular…

A saudade que tenho e que nunca mais desapareceu. Desconfio que como esta nenhuma outra conhecerei assim.

Sabes? O Dia da Mãe está a chegar e eu estou neste countdown mental quase como se fosse Natal. Não, de todo, pelo sentido positivo que o Natal traz, mas pela saudade que acarreta. Pelo pesado sentido saudoso e por aquilo que o marketing associa ao dia que me faz ver a tua imagem em cada montra e esquina por onde passo.

É tão singular a habilidade que tinhas de ver a vida com essa tua maneira de ser tão peculiar, tão incomum, tão própria e tão tua de ser.

Foi tão particular a tua presença na minha vida, que foi graças a essa tua essência que eu me tornei no que sou hoje… seja lá isso o que for. Leio-te em cada esquina. Vejo-te em cada memória.

Não me importo de te recordar, mas doí-me de uma forma ríspida ter que te encontrar demasiadas vezes sem te poder ver… é uma dor crespa, que me corrói, que me consome e que ninguém quer saber. É uma data feita para vender e eles não estão preocupados se eu não mais te vou ver, se não mais te vou ouvir a dizer: “Teresinha, meu amor, prepara-te para o que der e vier, mas sempre ciente que eu estou aqui para o que tiver de ser.”

Tenho saudades de te poder encontrar no nosso abraço, sabes? Aquele que sempre nos prendeu entre tantas gargalhadas, ensinamentos e uma educação rigorosa, mas livre, liberal e sem futurologias que nos deixa com as pernas livres e nos impulsionava os movimentos.

Tu poderias ir a qualquer lado, trabalhar horas sem fim, virar o mundo do avesso, mas era (sempre!) connosco que acabarias e sabias que era ali que te esperaríamos a cada fim de dia.

Obrigada. Tive tanta sorte em te ter, minha querida mãe. Não sei se jamais saberei o que é gostar de alguém depois de ter tido uma tamanha perda, sobretudo depois de tudo ter acontecido assim.

Porquê a mim? Porquê? Porquê com alguém que tanto fazia por aqui? Mas resta-me crer que, se assim foi, é porque em algum sítio está escrito que assim teria de ser. Deve ser um lugar escuro, macabro e sombrio, feito de rochas desconfortáveis, frio e sombrio.

Mas sabes? Tudo isto ensinou-me o verdadeiro significado de aqui estar. Aprendi a relativizar, a desfrutar do que realmente importa. A respirar fundo quando tenho de o fazer, a agradecer, a ser feliz com pouco e a ser grata mesmo quando o mundo parece que vai desvanecer. Ensinaste-me a desfrutar de cada entardecer.

Obrigada, foi uma honra contigo crescer, aprender, fazer-me à vida. E é graças a ti, e só a ti, que eu acordo todos os dias com vontade de fazer acontecer.

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