Atenção: o presente texto foi escrito com a plena consciência de que todas as generalizações estão erradas. E, felizmente, também foi escrito com a consciência de que o cenário aqui descrito ainda não se aplica à maioria das pessoas. Mas que o número está a crescer, bem, infelizmente disso não tenho dúvidas.

Somos todos umas bestas. Não sabemos escrever, damos erros ortográficos, escolhemos temas patéticos e cultivamos a estupidez alheia. Temos pouco vocabulário, confiamos em fontes pouco credíveis, difundimos notícias falsas e só queremos números fáceis. Além disso, somos mentirosos, uns vendidos, uns jornaleiros detestáveis, que a escória das nossas mães decidiu pôr no mundo.

O mundo não quer jornalistas. Para que é que precisamos deles hoje em dia? As marcas e empresas têm as bloggers e influenciadoras para divulgarem os seus produtos e serviços — sem correr o risco de receber uma crítica negativa. Os políticos podem transmitir as suas mensagens através das redes sociais ou em espaços de comentário onde não são alvo de escrutínio. E os atores, escritores e músicos? Têm o Instagram. É preciso mais?

Editorial. Maddie, Michael Jackson, CR7 e as diarreias verbais na internet

Não, o mundo não quer jornalistas. E, acima de tudo, não quer que se faça jornalismo. Assistimos a isto todos os dias: se uma marca envia um produto e nós nos atrevemos a testá-lo, se a crítica for boa somos os melhores amigos; se for má, perguntam-nos como é que nos atrevemos. Se pedimos uma entrevista a um músico, um ator ou um escritor, a assessora trata de nos apresentar uma lista de tópicos de conversa proibidos. Se dizemos que não aceitamos aquelas condições — porque, lamento, não aceitamos —, mandam-nos passear. E ficamos a ver nos bastidores que todos os outros aceitaram.

Se há um evento a cobrir, exigem saber o que vamos fazer. Querem ter a certeza de que vamos apenas cobrir o lado bom do evento, e que nem se atrevam a fazer o contrário — nem vale a pena aparecerem.

Sabem o que é que é mais triste? É que os leitores também já não querem jornalismo. Toda a gente tem alguma coisa a apontar, uma crítica destrutiva a fazer. E não são simpáticos na forma como expõem a sua opinião. Afinal, atrás de um computador vale tudo.

Esta semana, a MAGG denunciou a situação preocupante do centro comercial de Vila Franca de Xira. Um fotógrafo de locais abandonados entrou no espaço e descobriu dezenas de lojas roubadas, vandalizadas e ocupadas por pombos — muitos já mortos. Lá dentro ainda há máquinas de exercício, equipamento de oftalmologia, televisões e até um solar — tudo materiais difíceis de transportar ou simplesmente inúteis, que com o tempo perderam o seu valor. Afinal, e sublinho novamente esta parte, o shopping já foi roubado e vandalizado. O que havia de valor, infelizmente, não está lá mais.

O centro comercial de Vila Franca de Xira é um património dos munícipes. É uma obra que resultou de um investimento avultado e que está numa zona privilegiada da cidade. Não devia estar naquele estado. Nem tão pouco deveria poder ser tão fácil entrar lá dentro — embora agora a zona por onde o nosso fotógrafo entrou já tenha sido fechada, existem sempre alternativas. E rapidamente a situação decadente de hoje pode tornar-se verdadeiramente dramática amanhã.

A MAGG denunciou o caso, mas os leitores não gostaram. Não gostaram porque, na opinião deles, estávamos a incentivar a que fossem roubar o que ainda estava lá dentro — novamente, falamos de um espaço que já foi roubado e vandalizado.

— “O autor da notícia devia ser amarrado lá dentro e por cada coisa roubada à conta desta história levar com um martelo nos tubaros.”
— “Parabéns agora não se admirem se aquilo for assaltado nos próximos dias devido á vossa publicidade! 5 estrelas”;
— “E agora graças a vocês.. Alguém sabe que pode ir lá roubar isso tudo…”;
— “Enfim… Agora vão estragar e vandalizar o resto graças a vossa reportagem”;
— “Fazem bem avisar… Podem começar a preparar a notícia do roubo ao mesmo centro comercial graças à vossa publicidade”.

Editorial. Não quero falar de violência doméstica. Mas quero falar de relações tóxicas

Uns dias antes, e a propósito do desastre que aconteceu na Catedral de Notre-Dame, fizemos um artigo sobre os monumentos portugueses mais difíceis de salvar em caso de incêndio. Mais uma vez, o nosso objetivo foi tentar compreender juntos dos especialistas quais seriam os locais mais críticos — e se o País estaria preparado para responder a uma situação destas.

Mais uma vez, fomos claramente uns idiotas.

— “Terroristas a tirar notas…”
— “Façam matéria com este cunho e despertem, aguçem os que querem destruir a civilização ocidental”
— “Convém não fazer publicidade!”
— “Mais um serviço público dos jornaleiros!!!!!”
— “Epá, vocês devem ser completamente inconscientes! Passa pela cabeça de um doido escrever um artigo destes? Querem fazer a papinha toda a potenciais terroristas? Livra, que devia haver limites para a estupidez!”
— “Mais ideias Idiotas? Retirem a notícia seus idiotas”.

Isto não é ocasional, é regular. Quando fazemos artigos sobre os preços absurdos das rendas estamos a promover o capitalismo, ao mesmo tempo que não temos respeito pelos senhorios. Se escrevemos artigos de sexo claramente andamos atrás do clique (ou somos umas putas), se falamos nos mitos do caso de Maddie somos burros porque é claro que foram os pais que mataram a criança.

Eu percebo que as marcas não queiram jornalistas quando podem pagar a influenciadoras. Também consigo perceber que os políticos abominem o escrutínio dos jornalistas, são eles quem consegue (ou conseguia) derrubar um governo. E ainda consigo perceber que os ditos famosos tentem manipular os jornalistas prevenindo-os de que não podem tocar em determinados temas — abomino que os jornalistas aceitem essas condições, mas percebo o lado dos assessores.

O que eu não entendo mesmo é como é que o público não quer jornalismo. Não podemos falar da realidade porque estamos a “incentivá-la”, não podemos apontar para riscos porque estamos a “profetizá-los”. Não podemos cometer um erro porque é óbvio que somos burros — é óbvio que alguém que escreve á não sabe que á não existe; jamais em tempo algum pode ter sido uma gralha ao carregar mal nas teclas por escrever demasiado depressa, que depois não foi detetada porque aquele é apenas o terceiro do quinto artigo daquele dia. Claro que não. É burro, é a única explicação.

Não somos perfeitos. Podem apontar-nos que temos conteúdos leves, damos muitas novidades de produtos como as marcas gostam (e as pessoas também, a diferença é que não dizemos que são incríveis), e sim, temos que responder a números — já aqui falei sobre isso, é a mais pura das realidades. Também há conteúdos de social na MAGG, da mesma forma que há histórias tristes, inspiradoras ou mirabolantes. Não somos uma revista generalista, somos uma revista feminina. E temos muitas coisas que muitos leitores não gostam, e eu consigo compreender isso — não se identificam com o tema, não querem saber das tragédias dos atores de “Morangos com Açúcar”. Aceito. Mas é bem diferente quando falamos de interesse público.

Comecei este texto a dizer que não se aplicava à maioria. Reforço isso. Não se aplica à maioria, mas aplica-se a um número crescente de pessoas. Nós vamos continuar a fazer jornalismo, porque foi isso que nos comprometemos e é isso que amamos fazer. Só temos pena que o sentido de responsabilidade social com que fomos educados e formados seja absolutamente inútil numa sociedade que não quer saber disso para nada.

Mas se ainda houver desse lado alguém que queira, esta semana a jornalista Inês Ribeiro conta-nos a história de Ângela e Joana, duas mulheres que lutam contra a bulimia desde os 13 anos. Ana Luísa Bernardino explica-nos porque é que as sopas de supermercado não são saudáveis e mostra-nos como se apaixonou pelo Tremor, um festival que não tem nada que ver com os outros.

Com o regresso de “A Guerra dos Tronos”, pedimos a Sofia Afonso Ferreira, fundadora do Democracia21, que analisasse o primeiro episódio. Mostramos-lhe ainda quais são os sinais de alerta que os fotógrafos detetam durante os casamentos e trazemos-lhe 6 sugestões para o fim de semana da Páscoa. Ah, e temos uma nova rubrica — todas as semanas, pedimos aos leitores que coloquem perguntas para depois uma psicóloga responder. No primeiro texto, Sara Ferreira diz-nos como é que podemos ultrapassar um bloqueio mental quando temos um trabalho importante entre mãos.