Quando as chamas começaram a consumir a Catedral de Notre-Dame em Paris, França, foram vários os olhos curiosos e desolados que acompanharam os avanços do fogo. A cada hora que passava, perdia-se mais uma parte do monumento que conta grande parte da nossa história e que sobreviveu a várias invasões e guerras.

Chegou a temer-se não ser possível salvar Notre-Dame e houve quem se mostrasse solidário, nas ruas ou nas redes sociais, com todos os envolvidos no combate às chamas. Cerca de 12 horas depois, os bombeiros de Paris anunciaram que o incêndio estava extinto.

Embora não tenham existido vítimas mortais, a cidade prepara agora um longo e conturbado período de luto e reconstrução. Mas e se o mesmo tivesse acontecido em Portugal? Quais seriam os monumentos mais voláteis e difíceis de evacuar?

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Segundo a escritora e historiadora Irene Pimentel, Portugal tem muito presente na memória a realidade e a possibilidade de incêndios devastadores.

“Muitos teatros já arderam, como é o caso do Dona Maria II, e por isso é um dos que vai estar sempre em perigo. Mas quando falamos da hipótese de uma tragédia semelhante à de Paris acontecer em Portugal, pensamos imediatamente em monumentos como o Mosteiro dos Jerónimos, a Sé de Lisboa ou a Sé de Braga”, revela.

Quanto aos que são mais difíceis de evacuar, a historiadora não tem dúvidas: “As igrejas de Alfama ou as do Bairro Alto, por exemplo, são muito críticas. É que quanto mais medieval forem os nossos bairros, mais difíceis serão as tentativas de os salvar.”

Em causa está não só a forma como foram construídos e os materiais utilizados, mas também a maneira como estão dispostos e a facilidade ou não dos seus acessos.

Joana (nome fictício) preferiu manter o anonimato por trabalhar na área do turismo. É também licenciada em História de Arte e refere que o Palácio da Pena, em Sintra, pode ser outro dos casos mais críticos — especialmente porque é um mosteiro, tem um claustro, apresenta um espaço muito fechado e o acesso é tudo menos fácil em caso de emergência.

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“Está no segundo ponto mais alto da Serra de Sintra o que significa que os bombeiros teriam de combater o fogo por baixo, através da vila. Não sei até que ponto é que não seria um dos casos mais urgentes de se tentar perceber como seria feita a evacuação”, explica. E refere que só as autoridades responsáveis é que são capazes acessar esse risco.

Irene Pimentel não tem dúvidas de que, a ser atingido por um incêndio da mesma dimensão daquele que consumiu parte de Notre-Dame, a perda do Palácio da Pena seria “inacreditável”.

“No fundo, as perdas de patrimónios que nos tocam mais são aquelas que dizem respeito aos mais antigos que, entre outras coisas, nos mostram que não nascemos pessoas — que somos só alguém de passagem que recebe um passado com o intuito de transmitir alguma coisa para o futuro”, continua.

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Mas apesar de Irene recomendar que se retirem algumas lições deste incêndio, a historiadora acredita que Portugal não está preparado para dar resposta a uma situação semelhante.

“Acredito que Notre-Dame estivesse muito mais preparada do que qualquer outro edifício português, e mesmo assim aconteceu. Mas em Portugal temos outro grande problema: um risco sísmico elevado capaz de levar a uma sucessão de eventos catastróficos como terramoto de 1755 que dizimou o Chiado”, adianta.

Segundo Irene, a maior dificuldade no combate às chamas tem que ver com o material presente dentro destes monumentos. “Eu não tinha a noção de que em Notre-Dame havia tanta madeira e que a estrutura principal e mais importante era, também ela, composta por madeira.”

Joana é da mesma opinião e reforça que a história não nos deixa esquecer que vários dos monumentos que arderam no passado, arderam em processo de restauração. “É curioso mas é um trabalho que requer o uso de vários químicos. Além disso, muitas vezes são utilizados panos para cobrir peças e tudo isso é facilmente inflamável.”

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Mas o principal problema é o facto de os tetos serem de madeira, assim como a presença de telas a óleo, conta. “Se as esculturas não forem de pedra, como algumas do período Gótico ou Renascentista, que são em madeira, então tudo desaparece muito facilmente em caso de incêndio.”

Quanto ao que há a fazer, Irene Pimental diz que apesar da forma como estão construídos influenciar o desfecho destes casos, não há muito a fazer a não ser arranjar formas de prevenção.

“Devemos manter o património tal como ele nos chegou até hoje e pôr a tecnologia ao serviço de evitar, prevenir ou pelo menos dar uma resposta rápida e eficiente para se evitar uma maior tragédia”, conclui.