Sérgio Sawaya, 78 anos, passa pela mesa onde decorre a entrevista e cumprimenta. “Boa tarde, Sérgio”, responde Isabel Jonet, da mesmo forma que cumprimenta o João, que está a empilhar caixas lá fora, ou a Ana que faz a ligação entre o Banco Alimentar e as instituições de solidariedade. Todos pelo nome. Assim como, quase como um jogo de quizz, é capaz de atirar todos os números do projeto que gere há 25 anos.

Existem 21 bancos alimentares que distribuem 120 toneladas de comida por dia a 2.600 instituições que, por sua vez, chegam a mais de 400 mil pessoas. “E pensar que quando decidi ser voluntário e me disseram para vir falar com uma pessoa chamada Isabel Jonet, ia encontrar uma velhinha sentada lá fora com um saco de arroz à espera que o mendigo passasse”, brinca Sérgio que há 12 anos dedica o seu tempo a ajudar.

Com 59 anos, entrou para o Banco Alimentar em 1993, mas desde criança que sente que a sua missão é ajudar, valor que passou também aos seus cinco filhos, todos eles voluntários nas mais diversas áreas.

Gostava que Portugal tivesse memória a longo prazo para não cometer os erros do passado, até porque, na sua opinião, continuamos a viver acima das nossas possibilidades. Mas enquanto houver pessoas a precisar de ajuda, por um lado, e desperdício alimentar, por outro, o Banco Alimentar vai continuar e Isabel já nem é capaz de ver esta ocupação como algo que existe para além de si. “Não há ligar ou desligar, é uma realidade que faz parte da minha vida”.

Começou a fazer voluntariado ainda em criança. Acha que essa vontade de ajudar nasce connosco ou pode ser ensinada?
A maior parte das coisas desse tipo estão relacionadas com a educação e com os exemplos em casa.

E como foi a sua educação?
Os meus pais achavam que nós tínhamos que ter um papel ativo no mundo e que devíamos ter uma intervenção cívica. O voluntariado para mim é um exercício de cidadania, não é uma moda nem tem nada que ver com religião.

Mas é religiosa?
Sou católica, mas isto não tem nada que ver com crenças. O Banco Alimentar não tem qualquer dependência da igreja nem eu pergunto a quem cá trabalha se têm opções religiosas. Isso não é critério. Como também não é critério se é homem ou mulher, ou se é do Benfica ou do Sporting.

No dia a dia, o Banco Alimentar tem 700 voluntários e durante as campanhas chegam aos 42 mil

Kimmy Simões

Toda a gente a conhece como presidente do Banco Alimentar. O que fazia antes?
Sou licenciada em Economia e casei-me com 22 anos, quando acabei o curso na Universidade Católica. Trabalhei numa seguradora em Lisboa durante quatro anos, mas entretanto o meu marido foi convidado para ir trabalhar para Bruxelas e eu fui com ele. Trabalhei lá na mesma seguradora mas não gostei nada. Concorri para o Comité Económico Social, no qual trabalhei durante sete anos. Ao mesmo tempo, fiz sempre voluntariado. Distribuía comida.

Nessa altura já tínhamos três filhos, a mais nova com apenas 2 anos, tínhamos saudades da família e decidimos que era uma boa altura para voltar. O meu marido teve um convite para o Banco de Portugal e regressámos. Decidi que ia ficar em casa durante seis meses antes de voltar a trabalhar na seguradora onde ainda tinha o meu lugar, mas procurei uma ocupação enquanto voluntária. O Banco Alimentar tinha apenas dois anos e vim cá oferecer-me para vir duas tardes por semana.

De voluntária a membro da direção foi uma ascensão muito rápida.
Sim, apenas um mês. Quando eu cheguei, o Banco ajudava apenas 16 instituições mas percebi que, com o modelo de gestão adequado, podíamos replicar o que aqui se fazia noutros pontos do País e chegar a mais pessoas.

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Como era o banco Alimentar há 25 anos?
[risos] Não tinha nada a ver com o que é agora. Primeiro, não havia informática e isso veio revolucionar a forma como trabalhamos. Para ter uma noção, quando o Banco Alimentar começou, éramos tão poucos que eu é que guiava o empilhador.

Quais são as mudanças mais significativas?
Criou-se uma equipa que visita as instituições e essa relação ficou ainda mais próxima. Nós confiamos nas instituições e as instituições confiam em nós. Sabemos que fazemos parte de uma rede que dá de comer a quem tem fome.

Chegam a quantas pessoas atualmente?
Em Lisboa ou no País?

Se souber de cor os dois números, tanto melhor.
Sei sempre. Em Portugal 400 mil pessoas, em Lisboa 89 mil pessoas. Mas mesmo dentro do Banco Alimentar, o trabalho é de inclusão. A grande maioria das pessoas que trabalham aqui no armazém são deficientes ou estão desempregadas. Tenho 40 pessoas aqui a almoçar todos os dias e metade sei que não terão outra refeição durante o dia.

Queremos que as pessoas recuperem uma dignidade que perderam, muitas vezes, apenas porque ficaram sem emprego ou porque o casamento fracassou”

A maioria das pessoas só vos conhece das campanhas em supermercados. Como é o trabalho do Banco Alimentar fora dessa época?
As duas campanhas anuais em supermercados representam apenas 16% de tudo o que é nos é doado. O trabalho é feito o ano inteiro. Os bancos alimentares são instituições cuja missão é lutar contra o desperdício de produtos alimentares. Fazemos acordos com instituições de solidariedade de cada região e são essas instituições que entregam os produtos diretamente às pessoas. A ajuda pode ser feita sob a forma de alimentação confeccionada e sob a forma de cabaz de alimentos e é cada instituição que decide, de acordo com as necessidades das famílias que apoiam.

Num apoio que vai para além da comida?
Esta ajuda alimentar faz parte de um pacote de ajuda e essa é uma ajuda que se quer tão pontual no tempo quanto possível. Queremos que as pessoas recuperem uma dignidade que perderam, muitas vezes, apenas porque ficaram sem emprego ou porque o casamento fracassou.

Mas sabemos também que há pessoas que vão precisar de ajuda para sempre, é o caso dos mais idosos. Em Portugal, há um milhão de pessoas que vive com menos de 250€ e há dois milhões de pessoas que vive com menos de 420€, é um quinto da população. Há muitos idosos a viver com 180€ e estes idosos vão ter que receber um saco de alimentos sempre para poderem comprar os medicamentos. Mas, muitas, vezes, quando uma instituição de solidariedade leva a comida feita, que deixa para o jantar, não leva só a comida. Leva também uma visita, limpeza da casa, a higiene do idoso, se precisam de uma bica de gás, etc..

Há quem se deixe acomodar pela ajuda?
É inevitável que isso aconteça, principalmente se não for feito um trabalho de acompanhamento por parte das instituições. O que queremos é ter uma ajuda pela positiva, ou seja, termos cada vez mais famílias que deixem de precisar de apoio. As dependências não são sãs.

Quantos voluntários tem o Banco Alimentar atualmente?
Em Lisboa ou no País todo?

No País todo.
Nas campanhas ou no dia a dia?

Só no ano passado o Banco Alimentar recebeu três mil toneladas de fruta que, de outra forma, acabariam desperdiçadas

Kimmy Simões

Os dois.
No dia a dia são à volta de 700 voluntários e durante as campanhas chegam aos 42 mil.

E a Isabel é uma dessas voluntárias.
Sim, há 25 anos. Não há ninguém da direção que receba salário.

Foi sua a opção de ser voluntária e não ser funcionaria?
Para mim essa questão nunca se pôs. Eu vim cá só por seis meses, mas acabei por me apaixonar completamente pelo Banco Alimentar e por tudo o que o Banco Alimentar podia fazer pelo País.

O crédito é um bom instrumento, mas há que ter a noção de que é preciso pagar os créditos que assumimos. O crédito não é dinheiro que cai do céu, não é o Euromilhões. É um dinheiro que pedimos e que temos que pagar, com juros”

Como foi estar à frente do Banco Alimentar durante a crise?
Foi difícil. Em alturas de crise, o Banco Alimentar é um ótimo barómetro. Em 2007 apareceram os novos pobres, uma designação que eu dei na altura e, por causa dessa expressão, toda a gente me caiu em cima. Em 2010, caíram-nos os pedidos dessas pessoas, porque são pessoas que não sabem viver em crise. Quando uma pessoa nasce pobre já sabe viver em crise, o difícil é quando uma pessoa estava habituada a um padrão de vida e, de repente, como ficou desempregada ou está endividada, precisa de ajuda. Temos pedidos de ajuda de pessoas que nunca pensaram vir a precisar de ajuda.

Isso é porque, tal como disse na altura, os portugueses viviam acima das nossas possibilidades?
Viviam não, vivem. E pior, voltou-se a viver assim. As pessoas criaram uma forma de viver que não tem que ver com os rendimentos reais, mas sim na expectativa dos rendimentos que se pode vir a ter.

No dia a dia, isso vê-se em quê?
No uso do cartão de crédito, por exemplo. O crédito é um bom instrumento, mas há que ter a noção de que é preciso pagar os créditos que assumimos. O crédito não é dinheiro que cai do céu, não é o Euromilhões. É um dinheiro que pedimos e que temos que pagar, com juros.

Não aprendemos com a crise, portanto.
Houve pessoas a sofrer imenso, famílias a passar dificuldades terríveis. Houve avós a receber os netos em casa, partilhando não só a casa como também as suas magras reformas. O pior é ver que estamos outra vez a entrar numa espiral de consumo.

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Esse fenómeno é cíclico?
Sim. A expectativa de viver melhor é boa. Eu só espero que os meus filhos vivam melhor do que eu vivo e tenho a certeza que os meus pais pensavam o mesmo para mim. Mas é importante viver de acordo com as nossas possibilidades e devemos é lutar para que essas possibilidades sejam melhores.

Na altura falava de coisas como a diminuição do consumo de carne ou do hábito de lavar os dentes com um copo de água e, mais uma vez, toda a gente lhe caiu em cima.
Isso foi uma metáfora.

Mas mesmo que não fosse, agora são hábitos mais comuns.
Eu não vivo de modas. A minha realidade do dia a dia é uma realidade é muito cruel. Todos os dias me deparo com pessoas que não têm suficiente para comer, não é para viver, é para comer.

Numa altura que se fala tanto de redução do desperdício, vocês foram uma espécie de pioneiros?
Não tenho uma única dúvida. Só aqui em Lisboa recebemos 75 instituições por dia e temos visitadores que vão conhecer as instituições e foi com esse trabalho que percebi que podia fazer ainda mais. Em 2004, criei a Entrajuda, que ajuda na organização e gestão das instituições para que o pão seja mais bem distribuído. Para isso temos desde advogados, juristas, contabilistas, todos a ajudar de forma voluntária.

No âmbito desse projeto nasceu outro, um banco não alimentar — o Banco de Bens Doados —, um armazém com quatro mil metros quadrados onde todos os dias recuperamos centenas de computadores. Quando saiu de Carnaxide, a SIC deu-nos todo o equipamento, desde mesas, cadeiras, armários, e tudo foi distribuído pelas instituições. Não há na Europa nenhum modelo como o nosso.

Só no ano passado recebemos três mil toneladas de fruta. São três milhões de quilos. Os nossos números são admiráveis e assustadores”

As pessoas a quem chegam agora são as mesmas de há 25 anos?
Há dois tipos de pobreza. A estrutural, da qual fazem parte pessoas mais velhas, pessoas sem qualificações para o mercado de trabalho, pessoas com deficiência, e essa é igualzinha há de 25 anos. Depois há a pobreza conjuntural e que depende da economia. Se há mais desemprego há mais pedidos de ajuda, se os postos de trabalho aumentam, há menos pedidos.

Assiste-se agora é à realidade na qual não existem pessoas qualificadas para o mercado de trabalho, maioritariamente digital. Nesse caso, ou há outro tipo de propostas ou outro tipo de ajudas porque essas pessoas têm que viver.

O Banco Alimentar é agora tão necessário como era há 25 anos?
Infelizmente acho que somos mais precisos agora no que diz respeito ao combate ao desperdício alimentar. Quando começámos, havia muitas empresas que preferiam destruir os alimentos a doá-los. Agora, só no ano passado recebemos três mil toneladas de fruta. São três milhões de quilos. Os nossos números são admiráveis e assustadores.

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Os portugueses são especialmente solidários?
São solidários como todos os povos, principalmente em alturas de crise. Basta ver o que aconteceu agora com Moçambique.

E têm facilidade em pedir ajuda?
Depende das idades. Os mais velhos não pedem ajuda, porque foram educados a não pedir ajuda. Os mais novos pedem mais até porque acham que ajuda é um direito.

E é?
Se encararmos a solidariedade como algo que nos induz à ação sim, a ajuda é quase uma obrigação. E, por isso, sim, têm o direito a ser ajudados.

Tendo em conta tudo isso, acha que alguma vez o Banco Alimentar vai deixar de ser necessário?
Enquanto houver excedentes alimentares, o Banco Alimentar vai existir. O que eu gostaria era que não houvesse pessoas a precisar de ajuda para comer.

Uma vez, tive uma pessoa vegetariana a queixar-se do facto de distribuirmos salsichas, que é um alimento péssimo. Mas há muitas famílias que abrem a lata de salsichas, põem no pão e têm ali uma dose de proteína. Além disso, a lata de salsichas não precisa de fogão para ser cozinhada e há muitos idosos que nem dinheiro para o gás têm”

A MAGG publicou um artigo sobre as escolhas de um cabaz distribuído a uma família que se queixava, por exemplo, que lhe tinham sido entregues papas quando não tinham bebés ou molho para fazer frango com cerveja quando não recebe nem frango nem cerveja.
Não acredito nisso. Têm que falar com a instituição em causa, provavelmente essa pessoa mentiu e disse que tinha crianças.

Mas não pode haver um erro da instituição?
Não é erro. Não digo que não possa acontecer, mas o Banco Alimentar distribui aquilo que tem para distribuir. Alguns alimentos podem parecer estúpidos, mas são os que nos chegam. Nós não compramos alimentos.

Uma vez, tive uma pessoa vegetariana a queixar-se do facto de distribuirmos salsichas, que é um alimento péssimo. Mas há muitas famílias que abrem a lata de salsichas, põem no pão e têm ali uma dose de proteína. Além disso, a lata de salsichas não precisa de fogão para ser cozinhada e há muitos idosos que nem dinheiro para o gás têm. Uma lata de atum, uma lata de feijão, uma lata de salsichas podem parecer refeições pouco equilibradas mas são aquelas que podem cumprir o objetivo de alimentar pessoas que não têm fogão.

Ainda assim, acha que as pessoas confundem a doação com o despachar o que não querem?
As pessoas às vezes aproveitam estas campanhas para darem lixo. Na comida não se vê tanto, mas na roupa vê-se muito. Uma vez, eu e os meus filhos fomos ajudar numa campanha para o Kosovo. Estávamos a separar roupa e calçado e encontramos uma caixa com 40 sapatos sem par. Há falta de amor quando se dá. Quando uma pessoa quer dar, tem que dar aquilo que a pessoa precisa. Dar com amor é ir ao encontro do que a pessoa precisa, mais do que aquilo que queremos dar.

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Os seus filhos foram desde logo contagiados por essa vontade de ajudar?
Tive dois filhos já aqui no Banco Alimentar e como amamentei até tarde, costumo dizer que eles foram voluntários forçados desde pequenos. Se queriam comer, tinham que vir comigo. São todos voluntários, nem todos do banco Alimentar, mas todos têm este bichinho do voluntariado.

Na sua vida pessoal, tem cuidado com o desperdício?
Quando se vive nesta realidade, é inevitável. O meu filho até diz que eu converto tudo em pacotes de leite, mas a verdade é que me irrita ter gastos excessivos quando sei que com 50 cêntimos, que é o que custa um pacote de leite, se pode levar o pequeno-almoço a uma família.

Consegue separar o banco Alimentar da sua vida?
Eu não preciso separar, quero é integrar. Não há ligar ou desligar, é uma realidade que faz parte da minha vida.