Dina conseguiu pôr na cesta a pera francesa, a romã, framboesa e kiwi. Meteu fruta, meteu camisas com folhos, meteu o cabelo curto que poucas ousavam ter naquela altura e meteu músicas que ficam para sempre.

A cantora morreu esta sexta-feira, 12 de abril, no Hospital Pulido Valente, em Lisboa. Tinha 62 anos e lutava desde 2006 contra uma fibrose pulmonar. 

Foram 40 anos de carreira com canções que toda a gente sabe de cor. Mas foram 40 anos de muito mais. Recordamos a cantora em 4 momentos-chave.

1. Peguei, trinquei e meti-te na cesta

Não vale a pena fugir. Dina é aquela figura que todos imaginamos atrás de uma viola e a debitar nomes de frutas como poucos conseguiriam fazer. A mestria inicial é de Rosa Lobato Faria que conseguiu escrever uma história de amor em forma de salada de fruta. Ele teria olhos de ameixa, uma boca de amora silvestre e o amor entre os dois era de morango e caju.

Rosa deu a letra, Dina deu a música e juntas levaram a canção ao Festival da Canção, ao qual Dina tinha decidido não voltar depois das participações anteriores não terem tido o resultado esperado. Mas desta vez, com “Amor d’Água Fresca”, vence o Festival RTP da Canção de 1992 e ainda que tenha ficado apenas em 17.º lugar na Eurovisão, ganhou um primeiro lugar eterno na lista de músicas que todos sabemos de cor.

2. Fez o hino do CDS

Nasceu numa família de esquerda na qual nunca ninguém a imaginava a dar voz a outras cores. Mas para Dina, as pessoas importavam mais do que os partidos e foi por isso que, ainda que se mantivesse fiel a outros ideais, no dia em que viu Manuel Monteiro a discursar na televisão, pegou no telefone e ligou para o Largo do Caldas a dar os parabéns ao então líder do CDS.

Não tardou até que a chamassem para fazer o hino do partido, também em dupla com Rosa Lobato Faria, e foi também em dupla que acabaram por ser convidadas por Manuel Monteiro para continuarem na equipa quando decidiu lançar o partido Nova Democracia. Novo partido, novo hino. E, políticas à parte, até estas músicas ficam no ouvido.

3. Assume a sua bisexualidade

Nunca foi público mas, ao mesmo, tempo, já todos sabiam. Mais não seja pelos famosos concertos que dava no Memorial, um antigo bar em Lisboa frequentado principalmente por lésbicas. Mas foi numa entrevista à revista “Sábado” que Dina falou publicamente sobre a sua homossexualidade. Ou melhor, bissexualidade. “Tive os meus namorados. Acho os homens lindos, um homem bem formado é o melhor companheiro que se pode ter”, admite, “Então se calhar sou bissexual e não homossexual”.

Disse ainda que “as mulheres são lindas, cheiram bem, têm doçura”, mas acrescenta: “Cada vez vejo as mulheres mais agressivas e os homens mais doces”. Em jeito de conclusão sobre o tema, admite: “Se calhar não descobri o meu príncipe encantado”.

Na mesma entrevista fala de Rita, a filha, “fruto de um projeto com outra pessoa”. “Uma boa menina, é a mulher da minha vida”.

4. A festa de fim de carreira

Ainda que a fibrose pulmonar tivesse sido diagnosticada em 2006, só a partir de 2009 percebeu as limitações da doença. Tornou-se cada vez mais difícil projetar a voz, mas houve quem quisesse projetar por ela.

Um grupo de músicos reuniu-se para celebrar a vida e dizer um adeus às músicas da cantora. Em dois espetáculos, um em Lisboa e outro no Porto, a que deram o nome de “Dinamite”, Ana Bacalhau, Da Chick, Mitó Mendes, Samuel Úria, Márcia e B Fachada, entre outros, cantaram temas icónicos como “Há Sempre Música Entre Nós”, “Em Segredo” ou “Amor de Água Fresca” e “Aguarela de Junho”. E Dina também subiu ao palco. E cantou. Nesse dia e para sempre.