Escândalo no ISCTE. “Tivemos pessoas de quase todas as etnias a bater no boneco”

Um dos proprietários da Smash it Room, responsável pelo boneco colocado no ISCTE, nega as acusações de racismo e de incentivo à violência.

Foi esta a imagem que fez surgir a polémica nas redes sociais

Facebook de Miguel Vale de Almeida

Na terça-feira, 9 de abril, uma publicação no Facebook de Miguel Vale de Almeida, professor universitário, deu a conhecer uma alegada situação de racismo: no átrio do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, foi colocado um boneco preto com a mensagem “hit me now” (bate-me agora, em tradução livre), com bastões de basebol ao lado, para que os alunos pudessem bater no mesmo.

O boneco, colocado neste local pelo NAMI —Núcleo de Alunos de Marketing do ISCTE no decorrer de um evento organizado no instituto, tinha como propósito aliviar o stresse dos alunos e dos participantes do evento, e era uma animação da empresa Smash it Room, especialista em espaços de descompressão de stresse.

Mas a polémica não se fez tardar: Miguel Vale de Almeida considerou a ação “pura e simplesmente inaceitável”, tal como escreveu na sua publicação no Facebook, e acrescentou que fez seguir uma “denúncia para as autoridades universitárias”.

No mesmo texto publicado nas redes sociais, acompanhado por uma fotografia do boneco em questão, o professor universitário demonstrou o seu desagrado em relação à iniciativa: “Tanto os organizadores do evento, quanto a empresa (“Smash it Room”) que lhes forneceu objetos para alívio do stress (ou lá o que é) demonstram uma escolha ou ignorância inadmissíveis”.

De acordo com o “Diário de Notícias”, o boneco acabaria por ser retirado do átrio do ISCTE pela própria instituição de ensino, por “representar algo com que uma universidade não se pode identificar — seja a violência física seja por ter qualquer relação com o racismo”.

No entanto, César Lemos, sócio proprietário da Smash it Room, discorda fortemente das acusações de racismo e ainda explica que a fotografia que causou toda a polémica (a publicada no post original de Miguel Vale de Almeida) não corresponde à verdade.

Em declarações à MAGG, César Lemos explica que a cor escurecida da figura foi causada por marcas de uso.

“Ao perto, vê-se que o boneco está assim de uso, tal como mostra a fotografia que tirámos ainda no ISCTE e que publicámos na nossa página de Facebook. O boneco é feito de silicone e a cor original é um rosa pálido. Com o uso ficou assim, porque os bastões são negros, e com o bater das impressoras utilizadas na Smash it Room, e com a transferência da cor, fica assim, com essa tonalidade”.

À esquerda, a imagem publicada por Miguel Vale de Almeida; à direita, a imagem do mesmo boneco publicada na página da Smash it Room

César Lemos vai mais longe, evidencia as diferenças nas duas imagens e desconfia que a original possa ter sido manipulada. “Não posso dar a certeza, porque cada telemóvel tira fotografias de forma diferente, mas o que é certo é que a imagem não corresponde à verdade. O boneco não é preto, no fundo é isso que interessa”.

O sócio da Smash it Room explica que o objetivo da empresa é proporcionar às pessoas uma “forma de descompressão, para libertar o stresse” e que não têm “qualquer tipo de crença racista, clubista, o que for, não estamos ligados a nada e esforçamo-nos para nos distanciar dessas questões”.

Nos dois dias em que a figura permaneceu no átrio do ISCTE, César Lemos garante que o stand no local não recebeu críticas e partilhou que a animação teve bastante adesão por parte dos estudantes. “Tivemos pessoas de quase todas as etnias a bater no boneco”, conta o sócio da empresa.

Um boneco com a mensagem “bate-me” não será um incentivo à violência?

Mesmo depois de a cor do boneco estar esclarecida, existe outra questão pertinente: afinal, não será uma figura a “pedir” para lhe baterem um incentivo à violência em pleno átrio de uma universidade?

“Toda a gente consegue diferenciar um boneco de uma pessoa, esse é o nosso primeiro ponto, nem sequer é por aí”, diz à MAGG César Lemos. “É um boneco de artes marciais como qualquer outro, não é incentivar à violência de maneira nenhuma. Pelo contrário, quando as pessoas estão a bater no boneco, não estão a bater em mais nada, nem em outras pessoas”.

O sócio da Smash it Room explicou ainda que a animação era uma forma de descarregar o stresse, tal como lhe foi pedido pelo núcleo de estudantes de marketing responsável pelo evento do ISCTE.

“Nós não fomos contratados, não cobrámos nada para ter lá o nosso stand, foi uma parceria com o núcleo”, conta César Lemos, que também explica que o boneco foi um plano B. “A ideia inicial no evento era nós criarmos uma tenda de destruição na parte exterior do ISCTE, mas tal não foi possível por causa do vento, vimos que a tenda não estava minimamente segura”.

Como forma de dar alguma experiência da Smash it Room aos alunos, dado que no interior da faculdade não se podia partir nada, a organização da animação optou pela vertente do boneco.

Quanto à mensagem polémica “bate-me” colocada na figura , César Lemos explica que surgiu de uma necessidade: “Foi posta lá porque as pessoas vinham-nos perguntar ao stand se podiam bater, que era mesmo o propósito do boneco. Para não estarmos constantemente a explicar, colocámos lá a mensagem”.

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