Entrevista a Miguel Arriaga: “As vacinas salvam vidas”

Informação fidedigna, urgências cheias e vacinação. Entrevistámos o chefe de divisão de Literacia, Saúde e Bem-Estar da DGS.

Miguel Arriaga acredita que os portugueses têm um "potencial de crescimento enorme" no que diz respeito à literacia em saúde

Gonçalo Borges Dias

Uma dor de cabeça pode ser sintomática de uma grande variedade de coisas. Pode ser cansaço, o primeiro sinal de uma gripe ou, em circunstâncias mais graves, estar relacionada com uma doença crónica. E quase que apostamos que se colocar as palavras dor de cabeça no Google, as patologias que lhe surgem vão do 8 ao 80 e até lhe podem dizer que tem morte iminente.

Estarmos bem informados no que diz respeito à saúde é útil e importante, não só para nós, como para aqueles que nos rodeiam. Saber onde e como procurar informação fidedigna neste campo é meio caminho andado (o que passa muitas vezes por manter-se bem longe do Dr. Google), bem como estar atento aos sinais que o nosso corpo nos dá e às várias campanhas de saúde pública promovidas anualmente no nosso País.

Foi por isso que, em março deste ano, foi lançado o Plano de Ação para a Literacia em Saúde 2019-2021, uma iniciativa da Direção-Geral da Saúde (DGS), que tem como objetivos dotar as pessoas de mais e melhor informação — e não só.

“Queremos dar às pessoas ferramentas e instrumentos que possam utilizar, queremos estar junto dos profissionais para incrementar essas mesmas ferramentas, queremos estar onde as pessoas estão e ajustar a nossa comunicação à linguagem da população”, conta à MAGG Miguel Telo de Arriaga, Chefe de Divisão de Literacia, Saúde e Bem-Estar da DGS, sobre este plano de ação, que já está em marcha.

Numa entrevista a propósito do novo programa da DGS, falámos com Miguel Telo de Arriaga sobre os níveis de literacia em saúde dos portugueses, mas também da importância vital da vacinação, das urgências nacionais lotadas sem necessidade, das novas tecnologias ao serviço da saúde e dos perigos de não saber escolher bem as fontes das informações.

Os portugueses estão bem informados quanto à saúde?
Nos últimos dados disponíveis em termos de literacia em saúde, digamos que temos um potencial de crescimento interessante: mais de 50% da população ainda pode melhorar os seus níveis de literacia neste tema. Isto diz-nos que temos espaço de crescimento e é justamente isso que queremos aproveitar agora. Queremos estar onde as pessoas estão, para dotá-las de mais e melhor informação.

Consegue-se perceber, por faixas etárias, quais são os grupos de pessoas menos informadas?
Daquilo que temos acesso através dos estudos, diria que são as pessoas com mais idade que têm mais dificuldades, quer a nível da interpretação, quer a nível do acesso à informação em saúde.

O fator tecnologia desempenha aqui um papel? Por vezes, as pessoas mais idosas não estão tão a par das novas tecnologias.
São um fator importante, mas o acesso a informações de saúde não é apenas veiculado através das tecnologias, como é óbvio. Temos vários profissionais, sejam eles da saúde, que têm a responsabilidade de serem promotores de informação, mas também temos muitas outras áreas: basta pensar num profissional de educação, por exemplo, pelo papel importante e relevante que desempenham, e também na sociedade como um todo. E aqui falamos das questões políticas até à questão de base, que são os próprios cidadãos, que podem também informar as pessoas próximas e dotá-las de conhecimento sobre a sua saúde, como se devem comportar e o que devem fazer para melhorar os seus níveis de saúde.

Miguel Arriaga foi um dos convidados de um debate sobre saúde, comunicação e tecnologia organizado pelo NewsMuseum, em Sintra

Gonçalo Borges Dias

Mas as novas tecnologias, como os smartphones e as diferentes aplicações de bem-estar, podem estar ao serviço da saúde?
Com certeza que sim. Tudo o que são aplicações de saúde, que nos permitem ajustar comportamentos e que funcionam como promotores de saúde, são aliados e extremamente importantes. Basta pensar em coisas tão simples quanto isto: se eu tiver uma app que me diga que estou sentado há demasiado tempo, que ainda não consumi água suficiente para o dia, é útil e pertinente, e devemos usar a tecnologia para beneficiar a saúde.

A internet pode ser um aliado da literacia em saúde, desde que a informação seja fidedigna

Grande parte da população recorre ao médico de família. Esses médicos estão dotados de ferramentas para ajudar as pessoas a aumentar os seus níveis de literacia em saúde?
Nós sabemos, através dos dados dos inscritos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), que 93% destes inscritos (qualquer coisa como mais de nove milhões de pessoas) têm médico de família. Sabemos claramente que estes médicos, e os cuidados de saúde primários de uma forma geral, têm um papel extremamente importante no que diz respeito à propagação da informação de saúde. O que nós queremos é otimizar junto destes profissionais tudo aquilo que serão ferramentas que podem utilizar para propagar ainda mais a literacia em saúde. Os profissionais estão, obviamente, dotados de muita literacia em saúde, mas estas ferramentas podem ajudá-los a propagar a informação ao público de uma forma mais simples e mais fácil.

E que ferramentas são essas?
Podemos estar a falar de instrumentos digitais, mas de outras coisas tão simples quanto isto: a evidência diz-nos que se eu utilizar um flyer, um vulgar panfleto informativo, serve para pouco. As pessoas até podem pegar, mas a utilização que lhe dão serve para pouco. Agora se eu tiver um profissional de saúde a entregar em mãos ao paciente este mesmo flyer, explicando o que lá está, o seu efeito nesta situação é extremamente importante, porque passa a ser outro recurso, uma ferramenta, como falámos. E estas ferramentas podem ser digitais ou físicas, mas devem ter em conta as especificidades das pessoas.

A informação deve ser personalizada?
Sem dúvida, aqui não há a história do “one size fits all”. O profissional de saúde pode e deve utilizar estas ferramentas e instrumentos e até ajustá-los em função daquilo que são as características das pessoas. Por exemplo, se tivermos pessoas com níveis de literacia mais baixos ou dificuldades na visão, a acompanhar estas ferramentas, podemos ter um conjunto de símbolos representativos: na toma da medicação, se eu tiver um lua e um sol, consigo identificar o que devo tomar à noite e de dia.

Falando da internet, onde é que as pessoas podem encontrar informação fidedigna na área da saúde?
Existem plataformas desenhadas e feitas quase para todos, para que possam ter informação clara e simples. Temos neste momento uma biblioteca digital do SNS, para dotar as pessoas de informação, que é fácil e intuitiva.

Mas há muita tendência para procurar no Google, o que nem sempre é benéfico.
O desafio aqui é ensinar as pessoas os locais certos para procurar informação, onde esta é fidedigna. Temos o site da Direção Geral da Saúde, o site do SNS, a biblioteca da literacia em saúde que está desenhada por ciclo de vida e é muito intuitiva. Esta é a informação, de sites oficiais, que devemos procurar, e fugir dos motores de busca gerais.

Os media também são um veículo para fazer chegar informação à população?
Sim, e é exatamente por isso que trabalhamos com a comunicação social também, para dotar as pessoas de informação e para estarmos mais próximos delas. Também fazemos campanhas nacionais de prevenção da saúde nas mais diferentes áreas, como a saúde sazonal ou as campanhas de vacinação contra a gripe.

A vacinação continua a ser uma das ferramentas mais importantes na prevenção de doenças?
A vacinação é uma das melhores ferramentas e uma grande conquista da saúde pública. As vacinas salvam vidas e promovermos a vacinação é salvarmos a vida das pessoas, literalmente. E é por isso que a aposta na vacinação é tão importante. Sabemos que o nosso Programa Nacional de Vacinação, sobretudo nas faixas etárias mais jovens, tem percentagens de cobertura vacinal extraordinárias, das melhores do mundo.

Mas nos últimos tempos ouvimos falar muito de correntes anti vacinação, que fizeram voltar doenças que já não existiam há anos, como o sarampo.
Felizmente, em Portugal, os movimentos anti vacinas não têm tido grande expressão e esperamos que assim continue. Não há evidência científica que suporte muitas das informações divulgadas pelos estudos contra as vacinas, que falam de malefícios. Isso, simplesmente, não é verdade. Acho mais importante escolher o lado positivo e continuarmos a explicar às pessoas que as vacinas salvam vidas. Os dado nacionais demonstram, e muito bem, que as pessoas continuam a vacinar-se e a vacinar as suas crianças.

Urgências lotadas: “Se eu tiver uma situação que não é urgente, como uma gripe, devo recorrer ao centro de saúde”

A informação fidedigna pode ajudar as pessoas no processo de toma de decisão, se devem escolher as urgências ou o centro de saúde, por exemplo?
Sim. Queremos ativar as pessoas para que utilizem a informação que já têm nos momentos críticos. Quando chega a hora de tomar uma decisão, quero que a pessoa o faça de uma forma informada e pensando nas várias dimensões que já conhece.

Pode ser uma forma de evitar que as urgências dos hospitais não fiquem lotadas?
Esse é um dos exemplos. Queremos que as pessoas saibam navegar no SNS. E navegar no sistema permite-nos saber que a minha primeira linha de entrada quando tenho uma situação de doença, com a exceção de situações de emergência em que devo recorrer ao 112, deve ser ligar para o centro de contacto do SNS 24, através do 808 24 24 24 (a antiga linha Saúde 24). E esta linha serve para apoio, mas também para marcação de consultas, por exemplo.

É também importante saber quando devo procurar os cuidados de saúde primários. Se eu tiver uma situação que não é urgente, como uma gripe, devo recorrer ao centro de saúde. Se não é uma situação crítica, em que posso esperar por uma consulta no dia seguinte ou mesmo tentar resolver a mesma com algum tipo de auto-cuidados, devo procurar a tal linha SNS 24 numa primeira abordagem e seguir os conselhos do enfermeiro que atende a linha. E depois dessa triagem, vai-me ser dito o que devo fazer: se é para ficar em casa em auto-cuidado ou se devo ir ao centro de saúde ou mesmo às urgências do hospital mais próximo.

E atenção que isto acaba por ter um conjunto de vantagens que muitas vezes são desconhecidas por grande parte das pessoas: se eu ligar para o centro de contacto e for triado como amarelo, por exemplo, à chegada às urgências do hospital que me foi indicado (e que já recebeu as informações da triagem através da linha) vou passar à frente dos amarelos que já lá estão e não vou pagar taxa moderadora.

Considera então que as urgências estão cheias com pessoas que não deviam estar lá?
Temos vários estudos que nos dizem exatamente isso, que há situações em que as pessoas deviam preferir os cuidados e saúde primários e não os hospitais. Mas aqui a responsabilidade também é nossa e devemos dotar as pessoas deste conhecimento de quando devem e não devem escolher as urgências.

Os portugueses são um povo hipocondríaco ou demasiado relaxado no que diz respeito à saúde?
Temos potencial para fazer ainda mais e melhor e é exatamente isso que nos move. Somos um povo preocupado, comparando com outros países da Europa, somos um povo que tem uma literacia em saúde suficiente, mas com potencial de crescimento. Até porque protegermos a nossa saúde pode também mitigar o surgimento de outras doenças. Podemos até falar aqui em concreto das doenças crónicas não transmissíveis, que representam a grande maioria da mortalidade prematura em Portugal, abaixo dos 70 anos, onde os nossos comportamentos, o nosso estilo de vida e aquilo que fazemos no nosso quotidiano podem ter um papel relevante em termos de prevenção do surgimento dessas doenças. Pessoas mais informadas são pessoas mais capazes de lidar com a sua saúde, mas também com a sua doença.

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