Para além de ser um ícone de estilo até hoje, Audrey Hepburn interpretou papéis marcantes que continuam na memória, mesmo décadas depois dos seus lançamentos. De “Sabrina” a Holly Golightly, no famoso “Breakfast at Tiffany’s”, a atriz protagonizou vários filmes de sucesso, apesar de não ter uma carreira cinematográfica extensa — na verdade, Audrey Hepburn só participou em 20 filmes durante o seu percurso profissional enquanto atriz.

No entanto, e mesmo com insistências de peso, a atriz de naturalidade belga nunca conseguiu interpretar um papel de destaque: falamos de Anne Frank, a famosa adolescente judia que escreveu um diário durante os anos que esteve escondida num sótão em Amsterdão, Holanda, para tentar escapar ao regime nazi.

Apesar de Audrey Hepburn e Anne Frank nunca se terem conhecido, tinham bastante em comum. De acordo com o livro “Dutch Girl: Audrey Hepburn and World War II”, escrito por Robert Matzen, as duas tinham a mesma idade, viviam a cerca de 96 quilómetros de distância e passaram pelo drama da ocupação nazi na Holanda, país onde a atriz viveu durante os cinco anos em que esta nação esteve sob o domínio do regime de Adolf Hitler. A única diferença? Anne Frank era judia.

Já pode ler o “Diário de Anne Frank” em banda desenhada

Audrey Hepburn nunca falou muito sobre esse período da sua vida, onde foi obrigada a viver num celeiro devido aos bombardeamentos e em que passou fome por causa do racionamento alimentar. A atriz perdeu também o seu tio, Otto van Limburg Stirum, que foi executado a 15 de agosto de 1942 por se opor ao regime nazi.

Segundo Robert Matzen, a atriz ficou devastada quando leu o famoso livro “O Diário de Anne Frank”. Anos depois, a protagonista de “Sabrina” confessou: “Marquei o momento em que ela escreve ‘foram executados cinco reféns hoje’. Esse foi o dia que o meu tio foi assassinado. E nas palavras desta criança, eu estava a ler o que estava dentro de mim na época, e ainda está. Esta criança, que estava trancada, escreveu um longo testemunho de tudo o que eu passei e senti”.

Quando começaram a surgir planos para transformar a história de Anne Frank num filme, o que aconteceu em 1959, o pai da rapariga, Otto Frank — o único sobrevivente da família —, pediu a Audrey Hepburn para interpretar a filha no grande ecrã. Mas a atriz continuava muito traumatizada e não conseguiu aceitar o convite.

Esta acabaria por referir-se ao sucedido mais tarde, e explicou a recusa: “Estava tão destruída que não consegui lidar. Quase que foi como se tudo aquilo tivesse acontecido à minha irmã. De uma certa forma, acho que ela [Anne Frank] era mesmo minha irmã de alma”. No entanto, a atriz viria a ler publicamente trechos do diário numa série de concertos para angariar dinheiro para a UNICEF.

Anne Frank acabou por ser capturada pelos nazis e morreu em fevereiro de 1945 no campo de concentração de Bergen-Belsen, vítima de febre tifoide.