Manel Cruz. “Nunca me arrependi de deixar os Ornatos”

Dos Ornatos Violeta à crise criativa ou ao desenho que fez da mãe nua, Manel Cruz falou de tudo. Até da vida nova que deu um disco.

"Os Ornatos eram um banda de gajos que são super amigos e que, de repente, têm a oportunidade de revisitar um disco que dá um tacho do caralho tocar", revelou o músico

Pedro Nascimento e Manel Cruz

Manel Cruz, 44 anos, fez parte de uma das bandas mais importantes da música portuguesa que, com apenas dois discos, conquistou fãs e marcou uma geração. Depois de êxitos como “Raquel”, “Ouvi Dizer” ou “Capitão Romance”, os Ornatos Violeta chegariam ao fim em meados de 2002. Mas, na verdade, a carreira de Manel estava apenas a começar.

Juntou-se aos Pluto com um dos antigos companheiros dos Ornatos, Peixe, e mais tarde vieram os SuperNada. Em 2008, surge Foge Foge Bandido, o projeto a solo que gerou apenas um disco com mais de 70 canções e que levou Manel a explorar vários sonoridades e vários caminhos. Tudo isso, em conjunto com um sentimento de culpa gigante por ter contribuído para o fim da banda por que ficou conhecido, conduziu a um bloqueio criativo, como confessou à MAGG.

“O facto de experimentares tanta coisa faz-te perceber que a vida de uma canção não depende da forma como a fazes, mas sim do momento que consegues criar”, explica o músico. Depois de sete anos sem editar música nova, Manel Cruz regressou com “Vida Nova”, lançado esta sexta-feira, 5 de abril.

O novo disco é mais simples, mais maduro e mostra um Manel Cruz diferente — capaz de se expressar simplesmente com a voz e um ukulele.

Em conversa, revelou como é que agora lhe faz sentido voltar aos Ornatos Violeta, mesmo que seja para concertos ao vivo, e fala da falácia que se instaurou socialmente que dita que os músicos têm a sorte de fazer aquilo que gostam, à medida que vão perdendo dinheiro por isso.

Quanto é que o Manel Cruz teve de crescer para se apresentar a solo com o nome Manel Cruz?
Crescer é aquela palavra que dá ideia de ficares maior [risos], mas aqui foi mais uma questão de me adaptar. Este disco representa uma vontade de me adaptar a uma vontade que era a de tocar ao vivo e encarar o ao vivo como um espaço assumidamente diferente da criação de discos. Até aí era sempre uma extensão do trabalho que fazia e era inevitável.

Às vezes apetecia-me tocar ao vivo e isso acabava sempre por ser inevitável, mas agora é uma coisa que quero, que me apetece e que me dá jeito. É um bocado aprenderes a gostar de uma coisa que te interessa gostar.

Mas sempre gostou de tocar ao vivo ou teve de se forçar a aprender a gostar?
Sempre gostei, mas… Quando um gajo diz que gosta de lulas, isso não quer dizer que as queira comer todos os dias. Se calhar gostas mesmo muito de lulas mas se as comeres durante uma semana inteira deixas de gostar tanto. Mas há coisas de que não te importas de comer a semana inteira [risos].

Portanto esta nova abordagem foi uma coisa pensada, é isso?
Sim, podemos dizer que sim.

Quando um gajo é mais novo, tem vida para cair muitas vezes e ter tudo ao contrário e desarrumado

Há uma explicação para não o ter feito mais cedo, como quando criou o Foge Foge Bandido?
As coisas foram sempre pensadas na medida em que, muitas das vezes, ao não haver um plano, o plano era esse: não me comprometer. Neste caso, foi pensado no sentido de me defender daquilo que eu quero e do que não quero para mim. É que assumir-me desta forma, com o meu nome, vai ter uma representação diferente na minha vida. Mas também me vai dar algum conforto já que me permitirá fazer várias outras coisas que, de outro modo, não seriam possíveis.

Mas isso acontece agora numa altura em que fui obrigado, ou que me obriguei a mim mesmo, a ter esse conforto e a perder alguma das angústias. Quando um gajo é mais novo, tem vida para cair muitas vezes e ter tudo ao contrário e desarrumado. E eu quero continuar desarrumado e ao contrário, mas ter isso tudo encaixado numa gaveta.

Este novo disco é muito mais simples na forma como o apresenta. Surgiu assim porque foi totalmente espontâneo no seu processo criativo?
É uma pergunta difícil e não sei se vou fazer uma boa leitura da minha vida. Imagina que tens uma hora de trabalho e essa hora foi quando estiveste em estúdio a mexer, remexer e remoer naquilo.

Chegas ao fim dessa hora e pensas que o processo daquela canção foi todo ele muito artificial. No entanto, houve pequenos momentos pelo meio em que foste completamente espontâneo na decisão. Essa questão da espontaneidade ou não é uma questão muito ambígua porque tanto há alturas em que tens um processo muito artificial e chegas a algo que transpira naturalidade, como há outras em que és totalmente intuitivo e fazes uma borrada forçada como tudo.

Quando estás muito tempo sem mexer nos instrumentos e depois queres forçar um processo que esteve parado há muito tempo, é quase como se eles não pertencessem à tua mão

A cerebralidade da música nunca me fez confusão nenhuma, muito pelo contrário.

"Vida Nova" é o novo disco de originais de Manel Cruz, só com voz e ukulele

Pedro Nascimento e Manel Cruz

O disco do Foge Foge Bandido, editado em 2008, é muito complexo. Tem vários instrumentos, soma mais de 70 canções e apresenta uma grande variedade de sons. Apesar de só ter deixado de editar discos novos em 2012, sente que esteve na origem da crise criativa que viria a sentir mais tarde?
O facto de o Bandido apontar para tantos sítios? Nunca tinha pensado nisso, mas é perfeitamente possível que isso tenha contribuído. E até no próprio sentido de criares uma expectativa de que isso te resulte numa qualquer consequência e te leve a qualquer outro sítio.

Nunca tinha pensado nisso dessa maneira mas se calhar é isso, sim. Acho também que o facto de experimentares tanta coisa te faz perceber que a vida de uma canção não depende da forma como a fazes, mas sim do momento que consegues criar. Se calhar chegou a uma altura em que pensei: se conseguia fazer aquilo com tantos instrumentos no Bandido, também seria capaz de o fazer só com a voz e com um ukulele, como aconteceu neste “Vida Nova”.

Durante o momento da crise criativa, procurava criar e não saía nada ou simplesmente já não havia vontade de tentar?
Acho que tinha mais que ver com o duvidar da vontade de criar que, por sua vez, era uma consequência direta de as coisas não saírem em estúdio. Se fores uma pessoa sem ambições ficas por aí, ainda que lixado com aquilo.

Caso contrário, pensas em provocar essa vontade de criar. E provocar já é começar a fazer alguma coisa. Claro que há alturas em que nem isso resulta e pensas em desistir daquela merda, até que há um dia que consegues qualquer coisa. Também tem a ver com a intimidade que tens com as ferramentas que usas.

Quando estás muito tempo sem mexer nos instrumentos e depois queres forçar um processo que esteve parado há muito tempo, é quase como se eles não pertencessem à tua mão.

Como é se ocupava nessa altura?
Às vezes ia comer um rosbife. Era um momento em que eu tinha para não pensar em nada a não ser no sabor da carne. Havia outros momentos em que estava sempre a pensar no problema e ficava lixado e ia para o estúdio tentar alguma coisa até ficar satisfeito. Depois apareciam trabalhos e eu fazia-os e, no fundo, foi quase como procrastinar. Andei a procrastinar durante muito tempo, até porque tinha obrigações muito concretas às quais tinha de responder e isso legitimava a minha preguiça ou inércia.

Nunca me arrependi de deixar os Ornatos. Foi um alívio para mim porque estava muita coisa em jogo e não era só a música.

Se não sentisse um estímulo emocional, não conseguia fazer nada. A não ser que o trabalho fosse baseado numa valência técnica que implicasse responder a coisas muito precisas. Como, sei lá, alguém me pedir para construir uma parede qualquer com um desenho de um golfinho para um Aquashow [risos]. Aí o objetivo principal não é fazer um golfinho que inquiete as pessoas. É fazer um que seja bonito e que fique bem ali.

Depois de uma rutura com os Ornatos, em 2002, falou num momento em que ficou tudo por resolver e havia ressentimento entre os membros da banda. Entretanto, juntou-se aos Pluto e aos SuperNada. Isso aconteceu numa altura em que as feridas já estavam a sarar ou complicou ainda mais essas relações?
Ainda estávamos nessa relação meio conturbada, mas havia uma vontade de sarar a ligação que tínhamos entre todos e de seguirmos os nossos caminhos sem termos de fazer uma coisa juntos. Mas confesso que havia uma vontade grande de substituir uma coisa pela outra e eu estava naquela de não querer ir para outro projeto mas, ao mesmo tempo, era super tentador.

É como quando acabas com a namorada e dizes que não queres mais nenhuma relação depois disso. Mas quando aparece qualquer coisa que promete substituir a forma de vida que tinhas, enfrentas mais facilmente essa nova realidade.

Quantas vezes é que se arrependeram da decisão que tomaram e quiseram regressar?
Nunca me arrependi de deixar os Ornatos. Foi um alívio para mim porque estava muita coisa em jogo e não era só a música. Foi um alívio em relação às minhas relações pessoais, em relação ao cansaço mental que já tínhamos de estar sempre a discutir.

Essas discussões eram por divergências criativas?
Não, eram por divergências da nossa vida. Estávamos a começar a enfrentar a fase adulta e cada um queria uma coisa. Também éramos muito imaturos e as nossas perspetivas de futuro ainda estavam muito no vazio.

Doeu mais deixar o projeto ou sentir a reação dos fãs?
A parte que mais me custou foi a culpa que, de certa maneira, todos nós sentimos. Sentíamos culpa de estarmos a prejudicar os outros com aquilo que queríamos. Porque quando queres sair de um projeto estás sempre a tirar a oportunidade aos outros de continuarem e de seguirem com o seu plano, pelo menos para aquele projeto. Também houve muito uma sensação generalizada de que nós podíamos ter a vida toda feita se tivéssemos continuado. Ainda hoje me dizem: “Vocês são tão burros. Podiam ter ganho tanto dinheiro, pá”.

Sempre tive a consciência dessa relatividade e do vazio das coisas. Às vezes até sentia tristeza da solidão que é viver muitas vezes.

O dinheiro não é suficiente e a vida é muito curta para pensar assim.

Vê séries?
Vejo.

Está a par de “La Casa de Papel”?
Não vi, mas conheço o fenómeno.

Um dos atores da série disse-me, em entrevista, que se o sucesso da série o tivesse apanhado mais cedo, tê-lo-ia destruído. A fama e o sucesso sempre foram para si uma faca de dois gumes?
Sem dúvida, não é fácil. Não fui eu que inventei isto e é uma coisa do senso comum que, apesar disso, ainda vive muito mistificada. O sucesso tem a ver com a realização pessoal mas é sempre transferido para os outros — até porque precisas deles para te sentires realizado.

Essas medidas foram perdendo a régua porque, de repente, tens essa sensação de que o único sucesso que interessa é aquele que vem com a exposição mediática mas esse não é o sucesso na sua plenitude. Porque à medida que vais sendo levado para cima e te sentes o maior, vais deixando de estar junto com os outros. Estás cá em cima e outros estão lá em baixo a mandar piadas, a divertirem-se e a conviver.

Tu, que estás lá em cima, achas que isso é incrível mas depois vai tudo para casa e todos se estão a cagar. Sempre tive a consciência dessa relatividade e do vazio das coisas. Às vezes até sentia tristeza da solidão que é viver muitas vezes.

Porque é que agora faz sentido voltar aos Ornatos, nem que seja só para concertos, quando há uns anos só fazia sentido não continuar?
Porque as coisas são sentidas assim. Tocarmos juntos agora não representa a mesma coisa que representava há uns anos, simplesmente porque não é o mesmo momento. Mais do que a estética daquilo que fazes, importa que sintas que aquilo que estás a fazer é benigno e correto. No fundo, interessa que saibas que estás a fazer uma coisa direitinha e que te faz sentir alguma coisa.

É à custa dessa falácia, ou desse equívoco, que continuamos a ter uma cultura que representa um conceito e não quem o faz. Continuas a ter toda a gente a ganhar dinheiro menos os músicos. Isso é mato.

Os Ornatos eram um banda de gajos que são super amigos e que, de repente, têm a oportunidade de revisitar um disco que dá um tacho do caralho tocar. São um grupo de amigos que vão ganhar dinheiro com o trabalho que fizeram com toda a vontade e dedicação e pelo qual nunca viram cheta. E vamos nessa.

Há uma ideia que os artistas têm de ser muito fieis a um ideal mais nuclear à sua maneira de ser. Que têm de fazer uma ligação a uma suposta pureza que, no resto das suas vidas, não é possível atingir.

Mas não foi à toa que esta ideia foi criada.
Porque a criação é, de facto, uma conversa contigo próprio mas aí é o artista que decide até onde vai. Tudo o resto é um trabalho como outro qualquer. É à custa dessa falácia, ou desse equívoco, que continuamos a ter uma cultura que representa um conceito e não quem o faz. Continuas a ter toda a gente a ganhar dinheiro menos os músicos. Isso é mato. Porque existe este precedente que se adotou, que dita que os músicos têm a sorte de fazer aquilo de que gostam quando, na verdade, a parte criativa de um músico é muito pequenina. Tudo o resto tem criatividade, claro, mas é uma criatividade comum a tudo o que há na vida. Não é justo que os artistas fiquem com a responsabilidade de mostrar o que é puro.

Até porque a correspondência social que existe da arte à pureza é uma conceção muito parola e tosca porque não é aí que ela está. Podes fazer uma canção totalmente cerebral e mesmo assim…

Ser uma coisa sincera?
Sim, completamente. A sinceridade está nos pequenos momentos.

Lembro-me de um desenho que fiz, com dois anos, para chatear a minha mãe. Era a minha mãe totalmente nua. Estava tudo à frente ou, como eu costumo dizer, estavam os bolos todos na montra [risos].

Apesar de ser diferente, como foi sentir o público a cantar alguns dos êxitos dos Ornatos nos primeiros concertos após o regresso?
Foi muito fixe. Houve várias canções que eu disse: “Não quero voltar a tocar esta merda” porque achava que não me ia sentir na minha pele. Se não arranjasse maneira de sentir aquilo, não ia conseguir.

Depois comecei a tocar, achei graça e pensei que aquela merda já não era minha. Mas se ia dar uma coisa que as pessoas queriam, isso podia ser motivo mais do que suficiente para eu querer também. Foi uma questão de arranjar maneira de querer e que não me violentasse. Quando cheguei ao palco e comecei a cantar, não valia a pena pensar se fazia ou não sentido.

Já disse que não acredita nessa ideia de que é preciso sofrer para criar. Mas acredita que a música que faz é toda muito pessoal?
De uma maneira ou de outra, é sempre pessoal. Seja porque a letra fala de alguma coisa da tua vida, ou porque o som que escolheste te faz lembrar algum momento específico. Acho que é difícil que seja de outra forma porque tu és sempre original. Não há maneira de não o seres.

No single “Ainda Não Acabei” diz que é feito de perda. O que é que perdeu?
À medida que vais crescendo vais perdendo tempo, amigos, ideias. Perdes muita coisa.

Ganhou mais do que aquilo que perdeu?
Acho que sim. Acredito que, enquanto tiveres ânimo, ganhas mais do que aquilo que perdes.

Além da música também é no desenho que se expressa. É uma arte que sempre lhe foi natural?
Sim, se calhar mais natural do que a música porque desde pequenino que desenho. Lembro-me de um desenho que fiz, com dois anos, para chatear a minha mãe. Era a minha mãe totalmente nua. Estava tudo à frente ou, como eu costumo dizer, estavam os bolos todos na montra [risos]. Até o rabo estava à frente.

Ela mandou o desenho fora?
Não, guardou-o. E embora não se tenha rido à minha frente porque, enquanto mãe, não podia, aposto que se riu tal como hoje eu me parto a rir quando encontro um bilhete dos meus filhos a dizer ao irmão: “Vai-te fudir” [risos].

Há alguma coisa que procure no desenho que não encontre na música?
Acima de tudo, há um denominador comum que é a procura de satisfação mas isso é muito vago. Não sei se consigo explicar, mas percebo que a minha relação com a música é muito diferente da minha relação com o desenho. Socialmente, representam coisas diferentes mas é uma sensação difícil de explicar porque ambas me têm satisfeito de várias maneiras.

Encontro mais limitações na música pela parte académica. Há coisas que não posso fazer porque não tenho capacidade para isso, como tocar um piano muito rápido.

Ambas já me serviram para ganhar dinheiro ou para ser uma curte, mas o desenho garantiu-me uma valência técnica enquanto na música me sentia mais perdido. Neste momento, acho que elas se estão a aproximar na questão da dualidade. Ambas servem para tudo o que eu quiser.

Para contar uma história, por exemplo?
Exatamente ou para responder a uma vontade de alguém num determinado trabalho. Tornaram-se ambas um ofício e eu gosto muito de ver as coisas dessa forma.

Há limitações numa que não encontre noutra?
Encontro mais limitações na música pela parte académica. Há coisas que não posso fazer porque não tenho capacidade para isso, como tocar um piano muito rápido. No Bandido, por exemplo, o que fiz foi tocar o piano a metade do tempo e depois aumentava a velocidade através de programas de edição de som. A tocar ao vivo já não podia fazer isso, mas depois obrigava-me a arranjar formas de contornar isso.

Mas isso também foi bom porque construí uma identidade por não ter técnica. No desenho já tenho mais capacidade de conseguir determinadas coisas.

Sente o impacto que os seus projetos deixaram na música portuguesa ou é uma pessoa que vive as coisas à distância como uma forma de defesa?
Sempre vivi muito à distância. Não sei se como uma forma de defesa, provavelmente sim, mas também porque não me interessava muito essa ideia do impacto. A questão do impacto que tens é uma forma de te veres. E como criador…

Até aqui apavorava-me a ideia de morrer pelo vazio e de desaparecer mas, ao mesmo tempo, agora é uma ideia muito estranha.

À partida é sempre uma visão mais crítica?
Sim, exatamente. Mas claro que só se fosse pouco humilde ou lerdinho é que não me apercebia da dimensão que tive e da marca que deixei.

Também já disse que adora envelhecer mas que deteste a ideia da morte. Agora que é pai, esta é uma ideia que o atormenta ainda mais?
Sim, ainda há dias estava a pensar nessa merda. Até aqui apavorava-me a ideia de morrer pelo vazio de desaparecer mas, ao mesmo tempo, agora é uma ideia muito estranha. Às vezes estou numa varanda e quando penso em cair vem-me logo a cara deles à memória.

Como é que se reconcilia com a ideia de que agora tem três miúdos que dependem de si e que, por isso, não pode deixá-los tão cedo?
Tento andar mais devagar de carro [risos]. Evito tudo o que os faça sofrer mas, mais do que isso, é evitar pensar nisto. Há alturas em que tenho de me abanar porque a minha cabeça já está a pensar sozinha.

Há jogos mentais que um gajo faz… Às vezes estou a olhar para umas varandas e a imaginar se seria capaz de saltar de uma para a outra. Quando acordo para a vida real penso: “Mas porque é que estou a pensar nesta merda?”. Já me perguntei se não será um instinto de sobrevivência em que o teu cérebro coloca hipóteses de coisas para te habituares à eventualidade de que vais morrer.

Mas depois acho só que é só a minha cabeça que é completamente estúpida [risos].

O que é que mudou na sua vida com os seus filhos?
Há alturas em que penso que não mudou nada e outras em que acho que mudou muito. Mas acho que ficou mais concreta, mais visível. Tê-los é conhecer-me pelos olhos dele, é reconhecer-me nas suas qualidades e nos seus defeitos.

No fundo, é como se estivesse a ver o mesmo cenário mas por outra lente.

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