Marta Bigail trabalhou 12 anos como administrativa numa clínica que acompanha casais inférteis. Via-os a vir de Bragança e a dormir no carro só para que no dia seguinte pudessem estar à hora marcada para o tratamento. Viu também um casal que, perante a iminência de ter que mandar vir de Denver, nos Estados Unidos, os únicos óvulos compatíveis, até o carro queriam vender. “Só o transporte eram dois mil euros”, conta à MAGG.

Foi quase inevitável que em determinada fase da vida quisesse passar a elo desta corrente que, até aí, só via acontecer do outro lado do seu balcão de atendimento. Em 2012, com 32 anos, decidiu ser dadora, contrariando a opinião da mãe. “Dizia-me para não doar, que aqueles eram os netos dela”, conta. Mas Marta nunca duvidou da decisão. Já era dadora de sangue, já tinha feito também recolha para eventual doação de medula e a doação de óvulos pareceu-lhe ser o passo seguinte. “A partir do momento que dou deixa de ser meu”.

Quando a alimentação determina a possibilidade de se ser mãe

E nem a decisão do Tribunal Constitucional de deixar cair o anonimato dos dadores de gâmetas (óvulos e espermatozoides) a fez pensar duas vezes. “Não tenho curiosidade em conhecer uma eventual criança nem medo que ela um dia saiba quem sou. Tenho sim muita curiosidade em saber se o tratamento resultou para o casal”, explica.

O problema é que nem todos pensam como Marta e, ainda que não haja ainda dados relativos a 2018, Pedro Xavier, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, acredita que esta alteração da lei tenha reduzido em 30% as dádivas femininas e 50% nas masculinas. “Sobretudo devido à falta de informação sobre o tema”, garante. Legalmente, e ainda que já não haja anonimato, os dadores não têm qualquer tipo de direito ou dever sobre as crianças que as suas doações possam gerar. “Não tenho qualquer objeção a que as dádivas sejam feitas sem anonimato, desde que os dadores tenham direito à sua privacidade”, acrescenta o especialista.

Há 300 mil casais portugueses com problemas de infertilidade

Este olhar negativo sobre 2018, caso se confirme, vem quebrar com um crescimento constante no número de dádivas dos últimos anos. Segundo dados fornecidos à MAGG pelo presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, em 2015 aconteceram 1.358 dádivas, número que subiu para 1.541 em 2016 e para 2.349 em 2017.

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Pedro Xavier garante que nos últimos anos têm sido cada vez mais as mulheres a apresentarem-se enquanto dadoras. “Acredito que as mulheres sejam mais sensíveis a estas questões da maternidade e da infertilidade. Há sempre quem conheça uma amiga, uma familiar com dificuldades em engravidar e, por isso, estão mais dispostas a ajudar”.

Ainda assim, as filas de espera são de três a oito meses no privado e podem ultrapassar os três anos no público. No Banco Público de Gâmetas, há mais de 700 casais à espera de doações para terem um filho e a espera é ainda maior caso estejam dependentes de doação de óvulos. “É que ainda que atualmente haja mais mulheres dadoras, o número de mulheres que esperam por uma doação é muito maior”, esclarece.

As estimativas apontam para a existência de cerca de 300 mil casais portugueses com problemas de fertilidade, número que pode na verdade ser ainda maior tendo em conta os casais que não procuram ajuda. Pedro Xavier vai mais longe e indica que cerca de 20% de todos os casais que pretendem ter filhos podem vir a ter que recorrer a ajuda para engravidar. “O pico de fertilidade nas mulheres é aos 23 anos e, hoje em dia, a maternidade é adiada muitas vezes até para lá dos 30. Quando as mulheres decidem ser mães já é mais provável que precisem de ajuda”, explica o médico. Além disso, existem fatores ambientais nocivos ao organismo como a poluição ou uma má alimentação, que diminuem a produção de espermatozpides.

É por isso que a Sociedade de Medicina de Reprodução sentiu necessidade de lançar um alerta em forma de campanha — “Dar vida à esperança” — com a qual lembram a urgência da doação de óvulos e espermatozoides de forma a dar resposta à procura crescente de tratamentos de fertilidade. Com esta campanha pretendem dar a conhecer o processo e ajudar a tirar todas as dúvidas sobre a doação.

O tabu da infertilidade

Pedro Xavier acredita que estão criadas as condições para que a infertilidade deixe de ser um estigma. “Não tem que ser, até porque há cada vez mais pessoas a passar pelo mesmo”, refere.

Carlos Salustiano e Cláudia Abreu são um desses 300 mil casais portugueses com problemas de infertilidade, desta vez com diagnóstico. “Falência ovárica” é o nome da expressão que dita que Cláudia não poderá ser mãe de forma natural.

Enquanto estavam em lista de espera pelo público, fizeram já duas tentativas pelo privado, tendo gasto já perto de dez mil euros em tratamentos.

É por isso que, desde 2015, férias, jantares fora e convívios com amigos são coisas que não acontecem para este casal, que admite viver “uma batalha”.

“Eu estou em menopausa desde os 36 anos, o que, a juntar a toda a pressão dos tratamentos e das tentativas falhadas, me afeta a mim enquanto mulher e a nós enquanto casal”, conta Cláudia. Atualmente com 39 anos, ainda não se dá por derrotada. “Vamos tentar até nos ser possível”, admite Carlos que, entretanto, também já se tornou dador. “Percebi que, tal como eu, havia muito mais gente a precisar de uma ajuda que eu podia dar”.

Como funciona a doação?

Para a doação, Carlos, tal como têm que fazer todos os homens entre os 18 e os 40 anos que queiram dar início ao processo, dirigiu-se a um Banco Público de Gâmetas. É lá que é feita uma entrevista sobre os antecedentes de saúde e é explicado o processo de doação e esclarecidas todas as dúvidas. São feitos também exames físicos e psicológicos e, quando for considerado apto, é feita uma recolha de espermatozoides por masturbação.

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Os dadores de espermatozoides podem ser compensados com um valor máximo de 43€ por cada dádiva. Já as dadoras de óvulos podem receber, pelas despesas efetuadas, ou prejuízos resultante das dádivas, até 870€.

O processo, visto do lado feminino, é mais complexo. O limite de idade termina aos 35 anos e, até à parte dos exames físicos e psicológicos, o despiste é semelhante ao que é feito nos homens. A partir do momento em que a mulher é considerada apta, deixa de tomar a pílula e dá início a um tratamento hormonal injetável durante 10-12 dias que vai fazer com que os ovários produzam mais óvulos, que serão doados a mulheres que precisem deles para conseguirem ter um filho.

O processo dura aproximadamente 45 dias, desde a primeira consulta até à colheita dos óvulos. Marta Bigail, que passou por todo o processo duas vezes — cada mulher pode ser dadora, no máximo, quatro vezes —, garante que a sensação de dever cumprido suplanta qualquer constrangimento que o tratamento possa causar. E ainda que tivesse dúvidas, que não teve, garante que bastava lembrar-se daquele dia em que visitou o arquivo do Centro de Genética de Reprodução Alberto Barros, que fica no Porto e é uma das maiores do País, para nem sequer hesitar. “Estava de tal forma cheio que o meu primeiro pensamento foi: ‘Não deve haver casais no norte a ter filhos naturalmente'”.