Em fevereiro, Tim Shieff, atleta, defensor de um estilo de vida saudável, sustentável e longe de produtos de origem animal, anunciou aos 175 mil subscritores que seguiam a sua conta de YouTube que tinha abandonado o regime vegano. Em março foi a vez da youtuber Yovana Mendoza Ayres, que, no canal inglês com 467 mil seguidores, partilhava receitas que fomentavam este tipo de alimentação.

Nos dois casos, a decisão relacionou-se com problemas de saúde. Shieff sentia-se deprimido, cansado, com problemas digestivos, nos músculos e articulações. Ayres não menstruava há dois anos e desenvolveu um síndrome de supercrescimento bacteriano, que fez com que bactérias dos intestinos crescessem mais do que era suposto.

Tanto Shieff como Ayres associaram a estes estados a ausência no corpo de produtos como carne, peixe, ovos ou leite. Não é a primeira vez que se liga uma saúde mais fraca ao corte dos animais dos planos alimentares. Em 2014, um estudo sugeriu que pessoas que excluíam carne e peixe da alimentação eram menos saudáveis do que aquelas que ingeriam carne, sem também dispensarem os vegetais e frutas.

Ainda assim, há o reverso da medalha, como acontece quase sempre em matéria de investigação nutricional. Nos últimos anos, a comunidade cientifica tem sugerido que viver, sobretudo sem consumo de carne, pode ser benéfico para a saúde, diz a Harvard Medical School. Portanto, em que é que ficamos? Uma dieta que exclui carne, peixe, ovos e lacticínios prejudica a saúde e torna-nos mais fracos? Terá sido esta a razão que levou estes dois youtubers a darem um passo atrás e a re-introduzirem os ingredientes de origem animal nas suas dietas?

Pedro Lôbo do Vale, médico de clínica geral e familiar e presidente da Associação Portuguesa de Alimentação Racional e de Suplementos Alimentares, explica à MAGG que o problema não está em não se consumirem produtos de origem animal, mas antes no facto de não se ingerirem os alimentos — e nutrientes — que colmatem as carências nutricionais que podem nascer dos défices de dietas carnívoras.

Lillian Barros, nutricionista, “concorda por inteiro”, mas destaca ainda a importância de se analisar cada caso, de forma particular, porque nenhum organismo é igual e pessoas diferentes têm necessidades diferentes, independentemente do regime alimentar que escolhem.

“Isto na nutrição, cada caso é um caso. Uma pessoa que transita de forma inteligente, de forma acompanhada e informada, para este tipo dieta, consegue um plano alimentar que lhe fornece tudo, com suplementação e com a combinação correta de alimentos e nutrientes”, diz. Para a autora do livro “A Comida que Vai Mudar a Sua Vida”, onde destaca os benefícios de uma nutrição personalizada, o acompanhamento nutricional “experiente e individualizado” é fundamental para que tudo corra bem.

“Que suplementação é necessária para esta pessoa em concreto? De que alimentos ela precisa mais? Tem de haver um processo de observação, de avaliação e de adaptação de um plano alimentar, de modo a que se tenha atenção ao que é importante para cada pessoa. Isto não tem só a ver com o ser-se vegano, mas com a própria individualização da alimentação.”

Para que as carências não se verifiquem, é necessário que a pessoa seja informada por quem percebe do assunto. Sabendo o que comer para garantir um aporte completo de todos os nutrientes, não haverá, à partida, riscos. Possivelmente, até fica a ganhar, segundo Pedro Lôbo do Vale. “Ser vegano não mata ninguém, nem produz doenças, desde que haja equilíbrio. Quando falamos no corte da carne da alimentação, o que a maior parte dos estudos sugerem é que a saúde beneficia com isto, do ponto de vista global”, diz. “Há uma grande propensão para que não tenham tantas doenças de coração.”

Quem sabe o que comer não terá problemas, pelo menos que se relacionem com esta escolha em específico. “Há muita gente vegana sem carências nutricionais nenhumas”, diz o médico. Para que adeptos do regime isento de produtos de origem animal não experienciem os problemas que os youtubers sentiram — que podem ter nascido de carências ou de especificidades próprias dos seus organismos —, é fundamental que haja um controle eficaz. Reforça: “É preciso ter conhecimento sobre os alimentos, sobre os nutrientes e as suas funções, de modo a que o corpo receba aquilo de que precisa. Além disso, monitorizar tudo, com consultas e análises de rotina”, diz Lôbo do Vale.

A que nutrientes é que um vegano deve estar mais atento?

O primeiro nutriente a destacar é a proteína. Apesar de vários alimentos de origem vegetal conterem este nutriente, é preciso avaliar a qualidade do mesmo. É que este macronutriente — fundamental para a saúde dos músculos e tecidos — tem de ser completo, ou seja, deve conter toda a cadeia de aminoácidos essenciais. O médico de medicina geral e familiar destaca a soja como uma das únicas fontes vegetais com proteína de qualidade.

No entanto, há polémicas em torno desta leguminosa. Em primeiro lugar, há muita soja que é “transgénica”, como diz Lillian Barros, ou seja, que é geneticamente modificada. Mas, depois, também há a particularidade das isoflavonas (compostos presentes na sua composição) mimetizarem o estrogénio — uma hormona sexual feminina — o que significa que poderá passar a existir em excesso no corpo, caso esta leguminosa seja consumida em doses muito elevadas. Isto não será assim tão difícil — basta pensar que há leite de soja, iogurtes de soja, substitutos da carne, como o tofu, com soja.

Pedro Lôbo do Vale destaca, no entanto, que o estrogénio mimetizado pela soja terá “menos dez a mil vezes a potência dos estrogénios normais” e que, se houvesse perigos comprovados, “já teria havido advertências por parte da Agência de Segurança Alimentar Europeia”

Apesar disso, e tal como a nutricionista, por uma questão de prevenção sugere que quem tenha ou tenha sofrido de cancro da mama, mantenha esta leguminosa longe da alimentação, uma vez que já houve associações entre o consumo deste alimento e esta doença.

Mesmo sem provas absolutas, é jogar pelo seguro. E pode nem ser assim tão difícil, uma vez que, segundo Lillan Barros, há mais duas fontes de proteína vegetal muito completa: “Temos a quinoa e ainda as sementes de cânhamo”, diz. “Mas é ainda importante que a pessoa saiba que se misturar uma leguminosa com um cereal — arroz com feijão, ou aveia com lentilhas, por exemplo — consegue a proteína completa, porque, apesar de, individualmente, terem falhas de aminoácidos, juntos, complementam-se, resultando na cadeia completa.

Próximo nutriente: o ferro. A sua carência está ligada “à anemia, porque se dá uma menor produção de glóbulos vermelhos, o que faz com que haja mais fadiga e cansaço”, diz Pedro Lôbo do Vale.

Este mineral está presente sobretudo em carnes vermelhas, mas “também está nos espinafres, beterraba ou agriões”, salienta o médico. No entanto, Lillian Barros explica-nos que a qualidade do ferro presente nos produtos vegetais é diferente: não é hémico, ou seja, não é tão biodisponível — o que significa que o organismo não absorve a totalidade da quantidade do nutriente presente no alimento.

“É frequente que este mineral tenha de ser uma preocupação maior em quem segue um regime vegano e temos de avaliar se a pessoa ingere a quantidade correta”, diz. Não havendo outra forma de obter o ferro com a mesma qualidade que o das fontes animais, é importante que se “trabalhe com a sua biodisponibilidade, conjugando com vitamina C, que ajuda na sua absorção, melhorando o seu aproveitamento.”

Depois, há ainda as vitaminas. Pedro Lôbo do Vale destaca a falta de vitamina B12— também na origem de fraqueza e anemias — mas sobretudo de vitamina D, um micronutriente presente de forma deficiente numa grande fatia da população, vegana ou não vegana, o que compromete a imunidade do corpo, tornando-o mais suscetível a infeções e depressões.

Vitamina D: a exposição ao sol nas horas de maior calor é a melhor solução? E o cancro da pele?

“Mais de 80% dos meus doentes — que comem tudo —, têm baixa de vitamina D. Porque não apanham sol, porque, quando apanham, põem protetores”, explica. “Embora a B12 também tenha de ser monitorizada, temos bactérias no organismo que também a conseguem produzir”, acrescenta.

Lillian Barros chama também a atenção para o iodo e o cálcio. “O iodo está maioritariamente em peixes e moluscos.” A sua ausência no organismo poderá “afetar a função da tiroide”, o que tem “implicações diretas no metabolismo, na energia, na manutenção do peso.” Mas arranjar substitutos para os produtos mais ricos neste micronutriente não será difícil: “Pode encontrar-se no sal iodado, nas algas marinhas, que são cada vez mais fáceis de encontrar.” Com o cálcio, presente sobretudo em produtos lácteos, também não é difícil: “Pode ser suplementado com vegetais, como couve verde, galega ou brócolos.”

Por último, Pedro Lôbo do Vale refere ainda os probióticos, que se obtêm geralmente através dos iogurtes, e que são importantes para a manutenção de uma flora bacteriana intestinal saudável. Para colmatar esta falha, o médico sugere o consumo de sopa miso ou tempeh.

Estará o regimo vegano a deixar-nos mais doentes? Até pode ser que sim, mas a culpa não é da falta de produtos de origem animal. É da carência de alimentos que nos deem os nutrientes que obtínhamos através da carne, do peixe, dos ovos e do leite. O regime vegano não mata ninguém, mas o desequilíbrio nutricional pode estar a deixar-nos mais fracos. Solução? Acompanhamento, informação e — muito importante — “uma dieta variada”, termina o médico.