Histórias de pessoas que tiveram um AVC antes dos 35 anos: “É como uma segunda vida”

O AVC é ainda associado a doentes idosos. No Dia Nacional do Doente com AVC, contamos-lhe duas histórias que mostram que não é bem assim.

Ana Filipa Ramos sofreu um AVC aos 27 anos. Pedro Maia tinha 33 anos

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“Foi num domingo de manhã, estava em casa com meu namorado Tiago. Por volta das 8 horas saí da cama para ir dar comida às minhas gatinhas. Depois fui à casa de banho e quando fiz força senti uma grande tontura. Levantei-me da sanita e senti que algo não estava bem. Voltei mais um pouco para a cama e, quando estava entre a casa de banho e a cama, caí no chão, já sem forças do lado direito do corpo e sem conseguir falar”, começa por contar Ana Filipa Ramos, de 28 anos.

“Lembro-me de ter uma dor de cabeça na noite anterior, mas como estava em família, desvalorizei. Quando estava no chão do meu quarto e quis chamar pela ajuda do Tiago que ainda estava a dormir, entrei em pânico porque percebi que já não conseguia falar. Por sorte não fiquei inconsciente e não sei como consegui fazer barulho para ele acordar.” Ana Filipa Ramos, natural de São Martinho do Porto, estava a ter um acidente vascular cerebral (AVC). Aconteceu em agosto de 2017, quando tinha 27 anos.

Segundo Isabel Lestro Henriques, neurologista no Hospital Lusíadas, em Lisboa, um AVC é “uma doença do cérebro que acontece quando o sangue numa artéria cerebral é interrompido (AVC isquémico), ou quando uma artéria do cérebro se rompe (AVC hemorrágico).”

O dia em que Ana Filipa Ramos conseguiu levantar-se sozinha

Uma vez que o sangue é essencial para o funcionamento cerebral, a interrupção sanguínea para uma zona do cérebro leva a que “as funções de comando que essa zona do cérebro exercia deixem de se fazer”, explica a neurologista Isabel Lestro Henriques. “Se faltar sangue em zonas responsáveis pela fala, o doente deixa de falar; se faltar sangue onde o cérebro comanda a força de um braço ou perna, esses deixarão de funcionar adequadamente.”

Os diferentes fatores de risco AVC:

No que diz respeito ao AVC, existem fatores de risco modificáveis e fatores de risco não modificáveis. Os primeiros são aqueles cujo um controlo e tratamento devidos podem ser minimizados e ter um menor impacto no risco de AVC. Já os segundos não permitem qualquer tipo de intervenção.

Fatores de risco modificáveis: sedentarismo, obesidade, hipertensão arterial, tabagismo, fibrilhação auricular, diabetes, consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
Fatores de risco não modificáveis: fatores genéticos individuais, hereditariedade, idade, raça ou sexo.

Deste modo, os sintomas que os doentes vão sentir serão diferentes consoante a localização das artérias do cérebro que estão entupidas ou que rompem. A diminuição da força num braço, a dificuldade em falar ou a presença de uma assimetria da face são os sinais de alarme para a ocorrência de um AVC.

Na vida de Ana Filipa Ramos, personal trainer e instrutora de pilates, nada fazia prever que estivesse em risco. Manteve sempre um estilo de vida ativo. Foi atleta federada de natação, de ginástica e de futsal. Dos 18 aos 27 anos, foi nadadora-salvadora. Fazia com regularidade exames médicos e físicos.

Nunca teve comportamentos de risco como fumar ou beber álcool, algo que só fazia esporadicamente e com moderação. Tinha cuidados com a alimentação. Clinicamente também aparentava estar tudo bem, uma vez que os níveis de colesterol, diabetes ou tensão arterial estavam sempre dentro dos limites considerados saudáveis. Não existiam antecedentes familiares.

Na altura de recuperação, em Alcoitão, onde esteve durante quatro meses

“Nunca acusei nada que pudesse prever tal episódio. Segundo os médicos, a formação do coágulo que originou o entupimento da veia no cérebro pode ter sido causado pela pílula anticoncecional”, afirma. Depois de realizar vários exames, descobriram como é que o coágulo tinha chegado até ao cérebro: um foramen ovale patente (FOP), que é um canal que permite a comunicação entre as cavidades direitas e esquerdas do coração e que é essencial no desenvolvimento do bebé durante a gestação.

Segundo o Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, normalmente este canal encerra-se após o nascimento. No entanto, em 20-30% dos casos pode persistir até à idade adulta. A permanência do FOP pode também estar relacionada com eventos esquémicos cerebrais, como o AVC. “Mas nenhum exame de rotina conseguiu detetá-lo”, refere Ana Filipa Ramos.

Os tempos que se seguiram tiveram diferentes “fases”. Primeiro veio a revolta. “Os pensamentos eram ‘Porquê a mim?’ , ‘Que vida tão injusta’, ‘Será que vou voltar a andar? A falar? A fazer o tanto gosto? Desporto? Dar aulas?’, ‘Será que vou ter de mudar de área?’. Enfim, estes pensamentos perduraram uns meses.” Depois apostou as energias na sua recuperação. Nesta fase, admite, o apoio da família e amigos é “fundamental”. Ficou 15 dias internada no hospital de Santa Maria, em Lisboa, e durante quatro meses viveu no Centro de Reabilitação de Alcoitão.

Quase dois anos depois de ter sofrido o AVC, Ana Filipa Ramos teve, segundo os médicos, uma recuperação “muito boa e mais rápida” do que o esperado. Um dos fatores que contribuiu para tais resultados pode ter sido o facto de o seu corpo e mente estarem habituados a ser exercitados.

Seis meses depois do AVC, Ana Filipa Ramos fez o cateterismo para encerrar o FOP

Apesar de ter conseguido recuperar os movimentos da perna na totalidade, a personal trainer ficou com algumas sequelas. O braço direito ainda apresenta algumas dormências e fragilidades e, atualmente, ainda faz terapia ocupacional para tentar recuperar a destreza da mão direita, que era a que utilizava com mais frequência.

Perdeu sensibilidade e a motricidade fina ficou afetada, ou seja, a capacidade de usar, por exemplo, uma tesoura ou um lápis. Teve de aprender a escrever, a cortar e a cozinhar utilizando a mão esquerda. O mais difícil foi recuperar a fala que agora se encontra a 80% das capacidades. “Em relação à fala foi com muita persistência minha. Treinava em frente ao espelho para produzir um som de cada vez e ao poucos construir uma frase.” No entanto, conseguiu recuperar na totalidade os movimentos da perna afetada.

Depois de ter estado um ano de baixa e de ter feito o cateterismo para encerrar o FOP, Ana Filipa Ramos começou a trabalhar na mesma área “com algumas reservas”. Hoje, quase dois anos depois, sente-se bem e “funcional” e tem a esperança e a vontade de conseguir recuperar a 100%. “Aprendi a aceitar o meu novo ritmo e a ouvir melhor os sinais do meu corpo. Aprendi a meditar, a ouvir a minha mente, a não ir contra os meus princípios e sentimentos. Mudei alguns hábitos de alimentação e aprendi a desfrutar a vida momento a momento.”

Ana Filipa Ramos a trabalhar já depois do período de baixa

“Sinto-me grata por estar viva e feliz porque tenho a minha família por perto, adoro o meu trabalho. Posso ajudar os meus alunos a acreditarem que a mudança é possível e que só depende da vontade que lhe dão”, conclui.

AVC três dias antes do nascimento do primeiro filho

O que tinha tudo para ser uma fase muito feliz na vida de casal acabou por ter outros contornos. A 25 de julho de 2014, Pedro Maia, na altura com 33 anos, natural de Ponta Delgada, nos Açores, preparava-se para ser pai pela primeira vez, mas um AVC impediu-o de assistir ao nascimento do filho, Guilherme.

Aconteceu três dias antes de o filho nascer, em casa, enquanto estava com a mulher. “Acordei já assim. Acordei e senti que algo não estava bem, primeiro porque não estava a conseguir mexer todo o lado direito do corpo. Lembro-me que ainda fiquei cerca de dez minutos na cama a tentar tirar a T-shirt só com o braço esquerdo porque me sentia apertado”, recorda Pedro Maia, engenheiro de gestão industrial, à MAGG.

“Depois quando me coloquei de pé percebi que também não tinha força do lado direito e quando me vi ao espelho e tentei dizer alguma coisa à minha mulher Liliana, também percebi que não saía nada, nenhum som. Eu pensava no que queria dizer, mas não saía nada, só me lembro de saírem vogais.”

De acordo com a neurologista Isabel Lestro Henriques, depois de os sinais de alarme serem percetíveis deve contactar-se “imediatamente” o 112 e não recorrer ao hospital mais próximo, uma vez que “este pode não ter capacidade para tratar o AVC na fase aguda”. A chamada para o 112 “ativa uma Via Verde que permite a comunicação e transporte dos doentes com suspeita de AVC para o local correto.”

Pedro Maia relembra que, na altura, não conseguiu perceber o que estava a acontecer, mas o pai era médico e diz que o desfecho acabou “por ser feliz”. Levou meia hora entre o acordar e o chegar até ao hospital e considera que este fator poderá ter sido decisivo para a sua recuperação quase total. “Já no hospital pensava em várias coisas como, por exemplo, achar que ia ficar assim ou pior, porque estive sempre consciente apenas não conseguia dizer o que pensava.”

Antes do episódio do AVC, Pedro tinha uma vida “calma”. Admite, no entanto, que a sua alimentação não era a melhor, nomeadamente durante a época em que viveu em Lisboa — de 1998 até ao final de 2012. “A minha alimentação era péssima e acho que isso foi um dos grandes impulsionadores do AVC.” Testes realizados posteriormente para se perceber a causa revelaram que Pedro Maia tinha 2,5 mais probabilidade do que uma pessoa normal de desenvolver trombofilias. A trombofilia é uma condição na qual uma pessoa tem maior facilidade em criar coágulos de sangue o que aumenta o risco de complicações como trombose venosa, AVC ou embolia pulmonar.

AVC em números:

Segundo dados da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral:
— Por hora, 3 portugueses são vítimas de um AVC;
— Por ano, em cada 1000 habitantes, 2 sofrem um AVC;
— Cerca de 85% dos AVC são de natureza isquémica (entupimento de vasos sanguíneos);
— Apenas 15% têm origem num evento hemorrágico (rompimento de vasos sanguíneo).

O filho Guilherme nasceu quando Pedro Maia ainda estava hospitalizado, o que aconteceu durante uma semana. “Só soube que ele tinha nascido umas horas depois porque quando ele nasceu estava eu a fazer uma das três ressonâncias que tive de realizar. Portanto, não presenciei os primeiros três dias de vida dele. Mas quando cheguei a casa a recuperação não podia ter tido um melhor ânimo porque tinha ali um recém-nascido para cuidar, embora condicionado, uma vez que até hoje pego nele e no Vasco, o meu segundo filho, com o braço esquerdo.”

Seguiu-se um período de recuperação. Começou a fazer fisioterapia que era bidiária — duas horas de manhã e duas horas à tarde. “E depois era em casa com o Guilherme”, brinca. “Costumo dizer que o Guilherme teve duas mães porque estive em casa até aos sete meses dele e a Liliana no período normal da licença da maternidade.” Iniciou também a terapia da fala que acabou por ficar “bastante afetada”. “Hoje em dia ainda noto que algumas palavras não me saem logo, que tenho de falar mais devagar.”

Embora tenha feito trabalho específico para tal, todo o lado direito “nunca ficou igual”. Pode não ser percetível visualmente, mas Pedro Maia nota que é “diferente”. Outra sequela com que ficou foi o facto de se cansar “muito facilmente”.

O engenheiro de gestão industrial reconhece que passou a ter “muito mais” confiança no seu lado esquerdo do que no direito, algo que não acontecia até então, dado que o lado direito era “claramente o lado mais forte”.

Voltou a trabalhar oito meses depois, na mesma área em que trabalhava antes do AVC — função de chefia em Imagiologia numa clínica privada. Quase cinco anos depois, sente-se “bem”. “Mudei muita coisa na alimentação, faço medicação diária, deveria fazer mais exercício físico que não faço, mas sinto-me bem. Basicamente é como uma segunda vida, mas considero que fui muito feliz com o que me aconteceu, que foi um susto.”

AVC em adultos jovens (18-50 anos) tem vindo a aumentar

Os doentes idosos são os mais propícios a sofrer de um AVC. Porém, estes podem ocorrer em qualquer idade, nomeadamente em criança e até no período de gestação.

De acordo com a neurologista Isabel Lestro Henriques, “julga-se que os AVC podem ter sido subdiagnosticados” na faixa etária dos adultos jovens (18-50 anos). Assim sendo, atualmente é concedida uma “maior atenção a este grupo etário pois muitas vezes, pelo preconceito de que o AVC é uma doença só de pessoas idosas, a presença de sinais de alarme em doentes jovens é desvalorizada e não associada a possibilidade de ocorrência de um AVC.”

“Os casos de AVC em adultos em idade jovem, isto é, doentes dos 18 aos 50 anos, tem vindo a aumentar nos últimos anos”, afirma João Pedro Marto, membro da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral e interno de neurologia. Uma investigação de 2018 vai no mesmo sentido: a incidência do AVC no adultos jovens (18-50 anos) tem vindo a aumentar na última década.

João Pedro Marto considera que este aumento pode estar relacionado com diversos aspetos. Por um lado, a capacidade de diagnóstico evoluiu com um maior acesso a “exames mais rigorosos”, como a ressonância magnética, o que permite que um AVC seja mais facilmente detetado. “Assim, este aumento que se tem verificado pode não ser um aumento real, mas antes traduzir a nossa maior capacidade de diagnosticar o AVC.”

Todavia, refere que os adultos jovens aparecem cada vez mais com as “ditas causas mais clássicas do AVC”, tais como a obesidade, a diabetes ou a hipertensão arterial, que antes não eram tão frequentes nesta faixa etária. Outra causa possível para estes números poderá ser o consumo de drogas ilícitas.

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