“The Act”. Quem é e onde está o pai de Gypsy Blanchard?

A mãe fingiu que a filha era doente, obrigou-a a viver numa cadeira de rodas e disse que o pai a tinha abandonado. Nada disto era verdade.

A mãe, à direita, sofria do síndrome de Münchhausen — uma perturbação mental que a levava a fingir que a filha tinha várias doenças

Gypsy Rose Blanchard foi uma criança que teve de crescer muito depressa. Tinha leucemia, distrofia muscular, uma mente pouco desenvolvida e várias outras doenças que a impediam de brincar com as outras crianças da sua idade. A mãe, Dee Dee, rapava-lhe o cabelo, alimentava-a por uma sonda e protegia-a do mundo que prometia ser demasiado cruel para uma pessoa como ela.

Afinal de contas, até o pai a tinha abandonado como consequência de uma adição a substâncias pesadas. Gypsy era uma criança frágil que, desde muito cedo, foi obrigada a viver com a noção da sua própria mortalidade. Mas, sabe-se agora, nada disto era verdade.

Dee Dee sofria do síndrome de Münchhausen, uma perturbação mental que a levava a fingir que a filha tinha várias doenças. O objetivo era chamar as atenções para si mesma e mostrar aos outros o sacrifício que ela, enquanto mãe, tinha de fazer para conseguir o bem-estar de Gypsy.

Para isso enganou a filha, os médicos, os vizinhos e até mesmo o pai da criança, Rod. Quando o casal de conheceu, Dee Dee tinha 24 anos e ele 17. Depois de uma gravidez não planeada, o casamento foi quase imediato mas Rod percebeu pouco tempo depois que não amava a mulher, tal como contou ao “BuzzFeed”.

“Na verdade, eu não a amava. Soube perfeitamente que me tinha casado com ela pelas razões erradas.” Apesar de Rod ter terminado a relação, Dee Dee insistiu diversas vezes que ele voltasse. Mas não havia forma de voltar atrás: apesar da filha em comum, era pouco o que os unia.

Desde essa altura, Dee Dee sempre falou de Rod como um pai degenerado que abandonou a filha porque gostava mais do álcool e das drogas. Mas a verdade é que Rod sempre sempre tentou acompanhar o crescimento da filha e pagava, todos os meses, cerca de mil euros para ajudar com todas as despesas da família.

Além disso, oferecia-lhe vários presentes como televisões ou consolas de videojogos, e fazia por visitar a filha durante os dez primeiros anos da sua vida. No entanto, a mãe começaria a limitar o tempo que eles teriam para estar juntos inventando várias desculpas ou até internamentos devido a complicações de saúde que nunca existiram.

Ao jornal “Spingfield News Leader”, Kristy (a mulher atual de Rod) contou como os dois planeavam várias viagens para visitar Gypsy que acabavam por nunca acontecer.

“Ficávamos muito intimidados com todos os problemas de saúde da Gypsy. Mas como a Dee Dee dizia que tinha de estar com ela todos os dias, a toda a hora, nunca tivemos a oportunidade de estabelecer uma relação”, lamentou.

Segundo revelou, Rod não terá insistido sob pena de vir a perder todo e qualquer contacto com a filha — já que era a ex-mulher que detinha a custódia total de Gypsy e, por isso, tinha o poder de cortar a relação da filha com o pai.

Numa entrevista a Phil McGraw, do programa “Dr. Phil”, em 2017, Rod revelou sentir-se culpado por não ter lutado mais pela filha.

“Sinto-me muito culpado. Como fui capaz de deixar as coisas chegarem a este ponto? Porque é que não estive mais presente na vida dela? Se tivesse conseguido criar um laço forte com ela, talvez a Gypsy não tivesse hesitado em ligar-me a dizer: ‘Pai, isto [aquilo por que a mãe a fazia passar] não está certo’.”

Depois de vários anos a viver sob a manipulação da mãe, Gypsy premeditou o seu assassinato com a ajuda do namorado, Nick Godejohn, que tinha conhecido na internet. Nick disse que faria tudo por ela e, em junho de 2015, esfaqueou Dee Dee nas costas. Os dois foram encontrados poucos dias depois e Gypsy foi condenada a dez anos de prisão pelo homicídio da mãe.

Desde então que Rod criou uma petição online, que conta já com mais de 25 mil assinaturas, com o objetivo de reduzir a sentença da filha. Apesar do crime, o pai garantiu à revista “People” que Gypsy terá sempre um lugar onde ficar quando sair em liberdade condicional — que poderá acontecer em meados de 2024.

“O que ela fez é muito errado, sim, e concordo que havia outras opções. Mas a Gypy também tentou várias outras que não resultaram. Apesar de ser errado de se dizer, ela [a mãe de Gypsy] teve o que mereceu. E a minha filha terá sempre uma casa onde ficar”, explicou.

“The Act” está disponível na HBO Portugal e o terceiro episódio estreia já esta quinta-feira, 28 de março.

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