O dia em que o Parlamento Europeu vota a favor da abolição da mudança de hora é o dia de começar a fazer contas de cabeça. De manhã vai ser de noite? À noite ainda vai ser dia? Às 9 da manhã já tenho luz? Às cinco da tarde já é noite? Vou ter que mudar as minhas rotinas? Vou sentir jet lag?

Calma, Portugal não vai teletransportar-se para o hemisfério sul nem vai passar a fazer fronteira com a Tailândia. A mudança é de apenas uma hora, mas não deixa de ser uma mudança com impacto.

Não é preciso começar já a apanhar mais sol, a beber mais água ou a tomar melatonina – uma hormona produzida pelo nosso corpo quando está escuro – para se preparar para o que aí vem. É que ainda que um estudo feito pelo diretor do Observatório Astronómico de Lisboa, Rui Agostinho, a pedido do governo português no âmbito da discussão europeia sobre a mudança, desaconselhe o fim da mudança da hora, a verdade é que são vários os outros estudos que mostram que manter os ponteiros no mesmo sítio durante todo o ano também pode trazer vantagens.

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1. É melhor para a saúde. Um estudo publicado em 2016 sugere que há um aumento de 8% no número de AVC nos dois dias seguintes à mudança de horário para verão e para inverno. Esse risco é ainda maior para doentes com cancro — a probabilidade aumenta 25% — e para idosos, que correm um risco 20% maior de ter um ataque cardíaco. Além disso, um estudo da Universidade do Alabama sugeriu que também os ataques cardíacos aumentam logo após a mudança da hora para o horário de verão, devido à privação de sono, às alterações no sistema imunológico e à mudança no ritmo circadiano, ou seja, o ciclo hormonal de 24 horas pelo qual o sono se guia.

2. Menos acidentes rodoviários e de trabalho. A maior parte das pessoas tendem a dormir menos 40 minutos do que é normal na segunda-feira seguinte à mudança de horário. Esta é a conclusão de um estudo levado a cabo por Christopher M. Barnes que vai mais longe e diz ainda existe uma relação entre essa falta de descanso e o aumento de acidentes rodoviários e de trabalho.

3. Respeitar o ritmo biológico. O presidente da Associação Portuguesa de Cronobiologia e Medicina do Sono, Miguel Meira e Cruz, assina um consenso com outros nove especialistas no qual defendem o fim da mudança da hora para bem do nosso ritmo biológico. “Mudar a hora duas vezes por ano pode ser bastante nocivo sobretudo para alguns grupos populacionais” como, por exemplo, pessoas vulneráveis em relação ao sono, pessoas imunodeprimidas ou pessoas mais velhas. “A agressão maior não é exatamente nós mudarmos a hora, porque adaptar-nos-íamos, uns mais depressa e outros menos depressa. A questão é que duas vezes por ano ora andamos para a frente, ora andamos para trás, e exigimos que os nossos genes, que são coisas que demoram muitos, muitos anos a adaptar, se adaptem imediatamente. E isso não acontece”, explicou o especialista à Agência Lusa.

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4. Cai por terra o mito da poupança de energia. Durante décadas, o argumento daqueles que defendiam a mudança da hora era que, mantendo sempre o mesmo horário, o consumo de energia seria maior e, como consequência, todos íamos pagar mais de eletricidade. No entanto, segundo a Comissão Europeia, a investigação efetuada indica que o efeito é residual. “O impacto sobre a poupança energética é praticamente zero”, explica Rui Agostinho, em declarações ao “Jornal i“. O diretor do Observatório Astronómico de Lisboa, ainda que não seja a favor de que Portugal tenha sempre a mesma hora, refere que nos vários estudos feitos em diferentes pontos do mundo a conclusão é de que a poupança de energia com o horário de verão é cerca de 0,05%, ou seja, não chega sequer a 1%.

5.  Mais gente na rua. Ainda não se sabe se Portugal — e o resto da Europa — vai adotar o horário de verão ou de inverno. Esta é uma decisão que cada país terá de notificar a CE da sua decisão até 1 de abril de 2020. Se forem seguidas as indicações do especialista Rui Agostinho, é o horário de verão — que considera ser “um mal menor” — que prevalece e, com ele, mais horas de luz ao final do dia. O grupo Turism Aliance, criado por várias empresas do turismo britânicas como modo de defesa de que a hora de verão seja a escolhida, garante que o turismo só tem a ganhar com esta alteração. “Haverá mais luz ao fim do dia, altura em que as pessoas saem e o comércio pode até estender o seu horário de trabalho”, defendem.