Falámos com os criadores das palhinhas de massa. “O segredo está em cada um de nós e não na abolição do plástico”

Um casal de portugueses teve uma ideia que pode ajudar (e muito) o ambiente. Os primeiros testes foram feitos com os filhos.

Palhinhas de massa duram mais de uma hora na bebida

Estamos numa altura em que muito se fala sobre a necessidade de acabar com o plástico descartável, nomeadamente os copos e as palhinhas amplamente utilizadas nos espaços de restauração. Com foco na melhoria do ambiente, a empresa Palhinha lançou, em janeiro, um produto substituto do plástico, feito à base de sêmola de trigo: massa comestível.

O projeto nasceu com Luís Barroca Monteiro, gestor de empresas, e Sofia Monteiro, engenheira florestal. Há cinco anos, o casal decidiu que estava na altura de arranjar uma alternativa às palhinhas de plástico. Só que “na altura ainda não se falava tanto da problemática do plástico e ainda não sabíamos qual seria a alternativa”.

As palhinhas de massa foram testadas em casa, com os filhos, até que mais tarde chegaram à restauração. Hoje é muito bem recebido pelo público, e não faltam ideias para novos produtos. Ainda assim, Luís Barroca Monteiro não tem dúvidas: por mais iniciativas que se façam, a mudança tem de começar com cada um de nós.

Como surgiu a ideia das palhinhas de massa?
Na realidade foi a Sofia que teve a ideia de arranjar uma alternativa às palhinhas de plástico. Há cinco anos, ela referiu mesmo que deveria ser algo literalmente em palha, à semelhança do que se fazia há cinco mil anos. O que acabei por fazer foi perceber um pouco o mercado, as alternativas existentes, impacto ambiental, necessidades dos consumidores e acabei por encontrar um produto com um maior equilíbrio para todos estes pontos.

A quem a apresentaram pela primeira vez e qual foi a reação?
Os primeiros testes foram em casa, com os nossos filhos. Foi muito giro, pois a Madalena, uma das nossas gémeas, começou logo a comer uma palhinha. Quando abordámos alguns amigos com cafés, a reação foi muito positiva. Diria quase de alegria, por aparecer uma alternativa tão simples e tão eficaz, que ao mesmo tempo cumpre com o que se pretende: servir bebidas de forma simples e sem impacto ambiental.

Luís Barroca Monteiro, 41 anos, fundador palhinha de massa

Mas quais são as vantagens da massa, em relação a outros produtos também amigos do ambiente?
As principais vantagens são a sua durabilidade em contacto com os líquidos — duram mais de uma hora —, bem como a sua resistência — por exemplo, quem bebe uma caipirinha costuma “bater” com a palhinha no fundo do copo para misturar e pode perfeitamente fazê-lo com as palhinhas de massa.

Outra grande vantagem é a relação preço/qualidade, sendo que a Palhinha tem um preço muito competitivo. Pela composição do produto, que é vegan, significa que chegam também a estas pessoas.

A massa não vai derretendo?
A palhinha de massa dura mais de uma hora em contacto com as bebidas. Naturalmente que sendo de massa, após esse período vai amolecendo ligeiramente, mas tal não tem impacto na bebida, no seu sabor.

Porquê utilizar massa comestível?
Hoje utilizamos massa comestível, mas amanhã podemos estar a utilizar outra solução. A missão é sensibilizar as pessoas para a existência de produtos e soluções alternativas amigas do ambiente, mas que ao mesmo tempo sejam realmente soluções.

Quero com isto dizer que o fator económico está intrinsecamente ligado a uma maior, ou menor, adesão por parte das pessoas e das empresas, e não podemos achar que isso vai mudar de um dia para o outro. Assim, se amanhã identificarmos um produto ainda melhor do que este, iremos certamente considerá-lo.

Sabor da bebida não fica comprometido

Como é que souberam que ia resultar?
Soube que ia resultar a partir do momento em que os vários testes que fiz em casa, com águas, gasosas, sumos, etc., foram muito satisfatórios. Depois, acabei por constatar que a resposta foi idêntica em pessoas que gerem cafés e restaurantes. Por fim, o ter conseguido um custo/preço perfeitamente aceitável para os potenciais clientes, acabou por levar a que o projeto se tornasse uma realidade.

Como está a ser o feedback dos clientes?
O feedback por parte dos clientes não podia estar a ser melhor. É muito gratificante receber os comentário das pessoas, não só por ser uma solução que está a ajudar num problema real que é o do plástico, mas também na sua utilização, que não compromete em nada o sabor das bebidas.

Têm ideias para mais produtos?
Sim, temos ideias para mais produtos e para ações de sensibilização da população em geral, que muito em breve iremos lançar.

Acha que em Portugal estamos no bom caminho para a eliminação do plásticos? Até 2020 a ideia é acabar, pelo menos, com as palhinhas.
Eu diria que estamos num bom caminho. Não se chegou ao ponto em que estamos, que é mesmo muito preocupante, em 20 ou 30 anos, e também não iremos sair daqui tão rapidamente. Mas, quanto mais cedo começarmos, mais cedo se irá sentir o impacto. Acredito, porém, que “o segredo” para este problema está em cada um de nós e não na abolição do plástico. Aliás, acredito que o plástico é um ótimo produto, mas que acabou por ser demasiado banalizado e cada um de nós passou a dar-lhe uma utilização despreocupada.

Na minha opinião, os plásticos que não recicláveis deveriam sim ser abolidos, e cada um de nós deveria ter uma consciência maior para recusar plástico. Por um lado, reutilizar, sempre que possível, o maior número de vezes, por outro, reciclar o plástico quando o mesmo chega ao fim da sua vida útil, dando lugar a novos produtos.

No entanto, a semana passada uma baleia foi encontrada com 20 quilos de plástico na barriga..
São notícias muito tristes, que vamos vendo cada vez mais, que o que têm de bom é alertar e chamar à atenção da população em geral. Não me surpreenderia, porém, que em breve se fale de situações de doenças em seres humanos, fruto de microplásticos.

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