Há cada vez mais mulheres a decidir não serem mães por razões ambientais

Há mulheres que desistem da ideia de ter filhos para bem do planeta. Exagero para alguns, mas há estudos que dizem ser a solução.

Um estudo de 2017 mostra que reduzir o número de filhos por casal é a forma mais eficiente de reduzir a emissão de dióxido de carbono

AFP/Getty Images

Em nenhum dos casos as alterações climáticas são fator único para a decisão de não ter filhos. Às preocupações ambientais juntam-se a da sobrepopulação, a da falta de tempo de qualidade para estar com os filhos e a falta de fé de ver o mundo começar a girar numa direção mais consciente.

No Reino Unido há até um grupo organizado — o BirthStrike — do qual fazem parte homens e mulheres que decidiram não ter filhos em resposta ao “colapso climático” — como lhe chamam — atual.

Em Portugal, o movimento ainda é discreto mas, ainda assim, encontramos várias mulheres para as quais essa lista de razões para não serem mães é encabeçada por uma só preocupação: o impacto ambiental da maternidade.

“Como poderei ser mãe sabendo que possivelmente não terei alimentos para dar a criança?”, questiona Margarida Ribeiro, mesmo com a noção de que a resposta é um vazio.

Esta terapeuta de spa de 29 anos luta contra um mundo que a quer ver a ser mãe. “Os meus pais criticam a minha decisão e querem netos, os amigos até apoiam mas não deixo de ouvir piadas e comentários a dizer que estou maluca”, conta à MAGG. E nem o namorado, com quem partilha esta preocupação ambiental, deixa de fazer uma certa pressão para que sejam pais. “Eu preferia adotar. Ele concorda mas diz que gostava de ter pelo menos um filho biológico”, explica.

Enquanto a decisão definitiva não é tomada, este casal faz tudo para diminuir a pegada ecológica. São veganos, reciclam todos os resíduos, já alteraram os detergentes para nozes de saponária e evitam ao máximo o uso de plástico.

História semelhante tem Joana Canas, 37 anos, militar da marinha, que nunca sentiu vontade de ser mãe e que, sabe agora, que muita dessa motivação vem da preocupação de trazer uma criança para um mundo muito diferente daquele que considera o ideal. “Os espaços verdes são cada vez mais escassos, as águas estão contaminadas, os alimentos cheios de químicos”, começa a enumerar, concluindo que “seria muito difícil proteger um filho de tudo isso”.

Em casa, faz a sua parte. É vegetariana há dois anos, faz os seus próprios cosméticos e até os detergentes. No entanto, admite que são muitas as vezes em que tem que dar um incentivo extra ao namorado, Carlos, com quem vive há nove anos e que se sente impotente face às mudanças globais. “São muitas as vezes que ele questiona qual a nossa força, sozinhos, face a um mundo que pouco liga às questões ambientais”, conta Joana. É também por isso que Carlos insiste na ideia de serem pais. “Por mim não era mesmo, mas não é uma decisão que possa tomar sozinha”, responde, deixando o futuro em aberto.

A decisão é definitiva

Quando questionámos Débora sobre o porquê de não querer ter filhos, esta portuguesa a viver em Inglaterra responde-nos também em modo pergunta. Ou perguntas. “O que vão comer? Comida contaminada? Onde vão crescer? Que ar vão respirar? Poderão sair a rua sem apanhar nenhum cancro? Terão água potável? Onde vão aprender a nadar?”. E conclui: “Não quero um filho a nadar num mar de plástico”.

Aos 38 anos, garante que a decisão é definitiva e partilhada com o namorado com quem vive há mais de sete anos. E nem a pressão da mãe e da sogra a demove da ideia de não ser mãe, decisão que justifica com as questões ambientais, mas não só. “Outra das coisas que me leva a não querer ter filhos é a falta de tempo. O que vejo é que para que não lhes falte nada é preciso trabalhar muitas horas, acabando por deixar a educação na mão de terceiros e eu não quero isso”.

Inabalável é também a decisão de Inês Crisóstomo que, aos 38 anos, não pensa tanto em como seria o cenário em que o seu filho poderia viver, mas mais no impacto ambiental da própria decisão de ser mãe. “Ainda que haja opções de puericultura cada vez mais ecológicas, para mim não são suficientes para me fazerem mudar de ideias”, explica.

Menos filhos para um planeta mais verde

O movimento de pessoas que decidem levar o ativismo também para a forma como se constrói uma família está a crescer. Em Inglaterra, a organização não governamental Birth Strike junta já mais de cem pessoas que decidiram não ter filhos como resposta às alterações climáticas.

Tudo começou com Blythe Pepino, uma ativista de 33 anos que começou a pôr na balança, de um lado, a sua vontade de ter filhos, do outro, as consequências ambientais dessa vontade. Percebeu, dentro do seu núcleo mais próximo, que esta não era uma preocupação isolada e que eram já várias as pessoas a debater-se com a mesma questão.

Recentemente, a deputada norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez veio dar ainda mais força a este assunto quando, numa publicação no Intagram, questiona: “Ainda é certo ter filhos no mundo de hoje?”, lembrando ainda que “há um consenso científico de que a vida das crianças será muito difícil”.

Não quer dizer com isto que a congressista conhecida pelas suas declarações fora da norma e que têm dado trabalho a Trump e ao partido republicano queira ver as mulheres a deixar de lado a ideia de serem mães. Quer sim, deixar o mundo, ou pelo menos os seus mais de 2,5 milhões de seguidores no Instagram, a pensar no assunto.

Blythe Pepino aproveitou esta onda mais política para divulgar publicamente a sua decisão e anunciar que existe então este grupo, o Birth Strike, que junta pessoas com as mesmas preocupações. Ao fazê-lo, espera, como explica em declarações ao “The Guardian“, canalizar a dor de ter decidido não ter filhos para algo “positivo e regenerador”.

A ativista explica que a organização que criou não é um movimento anti-natalidade e que o seu objetivo não é desencorajar as pessoas de terem filhos. “Apenas queremos dar informação às pessoas e dar a conhecer a urgência em agir face às alterações climáticas”, explica.

Até porque, um estudo divulgado em 2014 na revista oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, explorou vários cenários para a mudança global da população a nível mundial, com ajustes nos números de natalidade e mortalidade. Descobriu-se que mesmo com a imposição de políticas de filho único em todo o mundo e com a eventualidade de catástrofes que aumentem a mortalidade como conflitos ou doenças não reduziria significativamente a população global até 2100, que se manteria entre os cinco e os dez mil milhões de pessoas (atualmente esse número está nos 7,4 mil milhões de pessoas)

Já mais recentemente, em 2017, um outro estudo que se debruça sobre quais as ações mais eficazes para diminuir as emissões de dióxido de carbono, coloca a diminuição do número de filhos em primeiro lugar. Logo a seguir, sugerem a venda do carro, evitar andar de avião e seguir uma dieta vegetariana. Segundo a investigação, estas medidas são mais eficazes do que aquelas mais comuns como reciclar ou usar lâmpadas de poupança de energia.

Hannah Scott, de 23 anos e membro da BirthStrikers acredita que até os ativistas estão em negação face à gravidade da situação e que são as reações negativas à sua decisão de não ter filhos. E é por isso que acredita que associações com esta fazem sentido. “É quase como dizer que é ok tomar a decisão de não ter filhos, mas não é ok o ter que tomar essa decisão”, explica, em declarações ao “The Guardian”, Nunca deveríamos ter chegado ao ponto em que estamos genuinamente assustados com a ideia de trazer uma vida ao mundo”.

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