É assim um cabaz do banco alimentar. “Às vezes pergunto-me porque é que ainda vou buscar este cabaz”

Considerado "muito pouco interessante do ponto de vista nutritivo", o cabaz tinha produtos como massa, arroz, sumos ou aperitivos salgados.

Este é o cabaz que foi entregue no mês de março a uma pessoa

Samuel Costa

Criado em 1991, o Banco Alimentar tem como objetivo recolher alimentos e excedentes de produção e distribuí-los pelas populações mais carenciadas. Com 21 espaços espalhados pelo País, os bens recolhidos vêm através excedentes de produção agrícola, de doações de empresas de produção alimentar, de programas contra fome da União Europeia e de dois peditórios realizados anualmente em várias superfícies comerciais.

Após serem recolhidos, todos os alimentos são analisados e armazenados de forma a manterem-se dentro das normas de qualidade e higiene exigidos. De seguida, são enviados para cerca de 2.600 instituições de solidariedade social, onde são distribuídos por cerca de 400 mil pessoas, seja através de cabazes alimentares ou através de refeições confecionadas, que depois são distribuídas em ATL de crianças, lares de idosos e até a sem abrigos ou em domicílios de pessoas com dificuldades de locomoção.

É através destas instituições de solidariedade social locais que pessoas como Maria (nome fictício), de 56 anos, conseguem ter acesso ao cabaz mensal proveniente do banco alimentar. Atualmente a viver sozinha numa freguesia do concelho de Odivelas, Lisboa, está depende desta ajuda, bem como de terceiros, para conseguir alimentar-se condignamente todos os meses.

Como funciona o cabaz mensal do banco alimentar? 

Maria começou a receber este cabaz há de cerca três ou quatro anos após ter requerido este apoio na segurança social. Prontamente, foi encaminhada para a paróquia local, que tem também uma instituição de solidariedade social, sendo os responsáveis por articular este apoio naquela freguesia. Como não tinha qualquer tipo de rendimentos e estava inscrita como desempregada no IEFP, cumpria assim os requisitos necessários para receber, mensalmente, esta ajuda.

Nesta freguesia, os cabazes são entregues na primeira terça-feira de cada mês e são compostos apenas por produtos alimentares. No entanto, os beneficiários deste apoio podem ainda ter acesso gratuito a medicamentos com receita médica, bem como a um banco de roupas.

O facto de nós necessitarmos de uma ajuda não quer dizer que despejem tudo o que está fora de prazo para dentro dos cabazes que nos facultam, sejam bens de grande necessidade ou não”

Caso desejem, os beneficiários podem ainda optar por receber diariamente as refeições já confecionadas na IPSS da paróquia local. No entanto, como Maria vive longe do local, a cerca de dois quilómetros, e ainda tem capacidade para cozinhar, tem optado por receber o cabaz num local mais perto de onde mora. Neste momento só vai à IPSS da paróquia quando precisa de medicamentos.

De acordo com Maria, os cabazes que são entregues todos os meses têm normalmente um ou dois pacotes arroz, um ou dois pacotes de massa, um litro de leite e uma ou duas latas de atum e/ou salsichas, embora as quantidades possam variar de mês para mês. Por vezes há também pão disponível, mas da única vez que o trouxe estava já quase descongelado. “Eu não sei como o pão chega à mãos deles, mas o que nos é entregue, vem já em processo de descongelação. Quando descongela totalmente é pão duro.” Nunca mais trouxe pão.

Todos os cabazes são entregues nestes sacos

Samuel Costa

No entanto, também sente que não há um cuidado no tipo de alimentos que são distribuídos pelos cabazes, pois muitas vezes vêm também bolos, chocolates, bolachas, refrigerantes, papas para bebés e molhos pré-preparados. Maria considera que estes não são os mais saudáveis para alguém da sua idade. Além disso, não consegue compreender a razão por que recebe papas para bebés, uma vez que não tem crianças em casa. Costuma também receber gomas, que chegam muitas vezes dentro de sacos avulso, elaborados na própria IPSS. Maria refere ainda que muitos destes produtos chegam já fora de prazo, com a validade ultrapassada há já mais de um mês.

“O facto de nós necessitarmos de uma ajuda não quer dizer que despejem tudo o que está fora de prazo para dentro dos cabazes que nos facultam, sejam bens de grande necessidade ou não”. Mas se Maria não vê problema em consumir produtos secos como massas ou arroz caso a validade esteja ultrapassada, o mesmo não acontece com refrigerantes, bolos ou maionese, pois deita logo estes produtos fora, bem como quaisquer outros produtos que tenham cremes no seu interior.

Eu, às vezes, pergunto-me porque é que ainda vou buscar este cabaz porque, atendendo aos bens essenciais, eu penso que com cinco ou seis euros conseguiria comprar os produtos que normalmente aproveito.”

Desta ajuda, Maria reconhece que os pacotes de massa e arroz que recebe mensalmente são mais que suficientes para a sua alimentação. Já as latas de atum e salsichas não dão para mais que um ou dois dias, pois costuma gastar uma lata por cada refeição.

Maria reconhece ainda que, se não fosse a ajuda de terceiros, não teria como comprar carne, peixe, ovos, frutas, legumes, pão e manteiga para compor o resto das refeições. No entanto, ressalva que no Natal há uma especial atenção. Para além do cabaz normal, é ainda entregue um quilo de açúcar, um quilo de farinha, uma garrafa de azeite, duas postas de bacalhau e um bolo rei.

“Às vezes pergunto-me porque é que ainda vou buscar este cabaz porque, atendendo aos bens essenciais, penso que com 5 ou 6€ conseguiria comprar os produtos que normalmente aproveito.” No entanto, reconhece que a comparticipação total dos medicamentos é uma mais valia para si, sendo esta uma das razões pelas quais ainda recolhe o cabaz — Maria sofre de doenças cujos medicamento são caros, como colesterol elevado e depressão crónica. “A medicação que a paróquia dá ajuda muito”.

O que é que traz um cabaz alimentar

Para compreendermos melhor o tipo de alimentos são entregues todos os meses, a MAGG teve acesso ao cabaz alimentar do mês de março com os alimentos disponíveis para uma pessoa. O cabaz foi excecionalmente entregue a 6 de março, pois no dia anterior tinha sido Carnaval.

Azeite

Samuel Costa

O cabaz entregue era composto pelos seguintes produtos.

— 2 embalagens de oito cubos de caldo de carne;
— 1embalagem de papas para bebés;
— 2 pacotes de aperitivos salgados;
— 1 garrafa de azeite;
— 1 frasco de feijão-manteiga;
— 1 litro de leite;
— 1 pacote de 500g de esparguete;
— 1 frasco de maionese;
— 1 lata de atum em óleo;
— 1embalagem de 500g de farinha de preparado de pão de queijo;
— 1pacote de bolachas recheadas com doce de cereja;
— 1 pacote de macarrão;
— 1 embalagem de tempero de frango com cerveja;
— 1 quilo de arroz carolino;
— 2 garrafas de 25cl. de sumo de limão.

“Isto não faz sentido. Dão-me o molho para eu fazer frango com cerveja, mas eu não recebo nem o frango nem a cerveja”, diz Maria, referindo os produtos que não consegue utilizador. O mesmo com a farinha de pão de queijo, que recebeu pela primeira vez. “Acho completamente disparatado, porque para usá-la tenho de usar ovos, que também não nos deram.”

Maria assumiu que iria deitar fora a maionese por estar fora de prazo, bem como a farinha de pão de queijo, pois era um produto que não podia utilizar. No entanto, ficou contente por trazer uma garrafa de azeite em vez de óleo, algo que só acontece de vez em quando.

A MAGG fez as contas e concluiu que em média, este cabaz teria um custo de 24,45€ num supermercado. Se Maria pudesse utilizar este dinheiro para ir às compras, preferia substituir os doces, as papas para bebés, os aperitivos e os refrigerantes por alimentos frescos como uma meia dúzia de ovos, carne, peixe, fruta ou legumes. No entanto, manteria o arroz, a massa, os enlatados e o azeite.

Será que este é um cabaz alimentar saudável?

Para compreendermos qual o valor nutritivo deste cabaz, falámos com a nutricionista Lillian Barros. Esta especialista é de opinião que este cabaz é “muito pouco interessante do ponto de vista nutritivo, especialmente quando se trata do mês alimentar de alguém com carências financeiras.” Lillian Barros explica que “devia ser algo equilibrado, nutricionalmente rico, mas acima de tudo, sem alimentos supérfluos, processados ou light-zero-diet, como é o caso.”

Lillian Barros diz que deste cabaz alimentar apenas manteria massas secas, o atum enlatado, o azeite, o arroz e o leite, embora neste último optasse por uma marca mais barata para poder trazer em maior quantidade. Tudo o resto aboliria, pois refrigerantes, bolachas e aperitivos salgados não são considerados alimentos saudáveis. A nutricionista retirava também os caldos de carne,”pois são alimentos ricos em sal refinado e em gorduras de má qualidade, nomeadamente trans”, recomendado por isso a sua substituição alhos ou louro.

A nutricionista sugere ainda que se substituam as leguminosas em frasco por leguminosas secas em pacote, pois são mais baratas e têm uma maior quantidade. Além disso, como são “ricas em proteína, quando conjugadas com um cereal, como o arroz, oferecem todos os aminoácidos essenciais, da mesma forma que o faz o ovo, a carne ou o peixe.” Outra sugestão apresentada foram os ovos, “pois são ricos em proteína e têm um preço muito competitivo quando comparado com a carne ou o peixe.”

Outra sugestão económica passa pela substituição das papas para bebé por flocos de aveia, um produto “mais barato, equilibrado e mais adequado a uma senhora de 50 anos.” Além disso, os flocos de aveia são ricos em betaglucanos, que ajudam a baixar o colesterol, algo que Maria tem elevado e precisa de medicação para controlar. A aveia tem ainda “um índice glicémico mais baixo, é ainda mais saciante e ajuda a equilibrar o transito intestinal.”

Já o preparado de pão de queijo poderia ser substituído por farinha de trigo ou centeio, duas boas alternativas para fazer pão caseiro. Lillian Barros propõe ainda a inclusão de polpa de tomate sem açúcar e/ou tomate pelado natural no cabaz, bem como batatas ou até batatas doce, pois têm uma grande durabilidade e podem ser ainda utilizadas como acompanhamento ou até como base de sopa.

Desafiámos a nutricionista para que nos sugerisse um novo cabaz alimentar que tivesse um valor monetário semelhante ao do cabaz entregue (24,45€), e que pudesse satisfazer as necessidades alimentares de uma senhora na casa dos 50 anos. Lillian Barros acredita que um cabaz composto por ovos, flocos de aveia, leite meio gordo, leguminosas secas (como grão, feijão, lentilhas), arroz, massa, azeite, alhos, tomate pelado, polpa de tomate, atum em conserva, outras conservas em tomatada, batatas ou batatas doces, farinhas, louro e bolachas integrais simples seriam uma opção igualmente económica, mas muito mais nutritiva.

Como é feito o controlo por parte do Banco Alimentar

“O Banco Alimentar (BA) não entrega nada diretamente a pessoas com necessidades. Tem parcerias com instituições de solidariedade que acompanha e é a estas que entrega os produtos para que os distribuam às pessoas que apoiam regularmente, seja sob a forma de cabazes, seja sob a forma de alimentação confecionada”, explica Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome.

“Todas as instituições são visitadas por voluntários do BA. Conhecemos as instalações e as condições em que os bens são armazenados, acondicionados e distribuídos. Por exemplo, só entregamos congelados às que possuem equipamentos de frio negativo. As instituições beneficiárias (atualmente 380 em Lisboa e 2.600 no País) são muito diversas: há grandes e pequenas, creches, lares, centros de dia, apoio a pessoas sem abrigo, etc.; há as que cozinham e as que entregam cabazes e as que possuem as duas respostas em simultâneo; há Conferencias de S. Vicente de Paulo e associações de apoio à deficiência…”.

Todas as IPSS têm regras a seguir no que diz respeito ao acondicionamento e distribuição dos alimentos. “Deve ser garantida a higiene e segurança dos produtos alimentares em todo o percurso. Todavia a quantidade atribuída a cada família fica ao critério de cada instituição e depende obviamente das características de cada família e respetiva situação particular (se tem filhos, se é um idoso sozinho, se tem forno, qual o rendimento disponível, etc.). São entregues alimentos secos (não perecíveis) e frescos (perecíveis), todos os dias úteis.”

Sobre a existência de produtos alimentares fora de validade, Isabel Jonet explica: “Por vezes são rececionados produtos fora do prazo de validade (consumir de preferência até) que só são distribuídos após controlo de salubridade por uma empresa especializada (que pode envolver análises) e com um certificado de controlo sanitário que atesta a qualidade dos bens. O Banco Alimentar luta contra o desperdício de alimentos, pelo que recupera todos os produtos que estejam em perfeitas condições de consumo.

Existem diversas empresas que optam pela doação ao invés da destruição e há legislação nesta matéria. Se tiver interesse recomendo uma consulta à Direção Geral de Alimentação e Veterinária.”

Os produtos estão fora de prazo. Será que podem ser consumidos?

Como Maria indicou, é comum virem produtos fora de prazo, tal como aconteceu com a maionese, o molho pré-preparado de frango e as bolachas recheadas com doce de cereja. Para saber se efetivamente estes produtos podiam ou não ser consumidos falamos com Catarina Dias, coordenadora técnica e gestora de projetos da FIPA — Federação das Industrias Portuguesas Agro-Alimentares.

Maionese

Samuel Costa

Qual a diferença "entre consumir até" e "consumir de preferência antes de"?

De acordo com Catarina Dias, a frase “consumir até” corresponde à “data limite de consumo” e aplica-se a todos os alimentos perecíveis, pois estes alimentos podem ser perigosos se consumidos após este prazo.

Já “consumir de preferência antes de” ou “consumir de preferência antes do fim de” corresponde à “data de durabilidade mínima” em que o fabricante garante que o produto conserva todas as suas propriedades, sendo  esta referência apenas utilizada em produtos não perecíveis. Estes produtos podem continuar a ser vendidos, mesmo se o prazo presente no rótulo já tiver expirado.

Em declarações à MAGG, a especialista explica que “os produtos mencionados estarão, à partida, em condições de ser consumidos pois tratam-se de produtos não perecíveis”, que não necessitam de ser conservados em ambientes controlados. Estes produtos têm “características que os permitem manter-se aptos para consumo por um período de tempo mais alargado, não necessitando de serem conservados em ambientes controlados para se manterem em condições ao nível da segurança alimentar.”

Catarina Dias referiu ainda que, para garantir que um produto que está fora do prazo de validade ainda se encontra em condições de ser consumido, devemos garantir que este foi preservado na temperatura correta. Além disso, “antes de consumirmos um produto devemos ter em atenção fatores como a cor, sabor ou cheiro se encontram alteradas ou se o produto tem bolor. A degradação alimentar proveniente de fungos pode acontecer apenas superficialmente ou, no caso dos alimentos com alto teor de humidade, abaixo da sua superfície.”

Se em muitos casos se pode remover o bolor e consumir o produto à mesma, a especialista aconselha que não o façamos em produtos como frutas e vegetais moles, produtos de padaria, lacticínios, alimentos cozinhados, geleias, compotas ou em carnes processadas. Se de, uma maneira geral consumir um produto fora do prazo de validade não acarreta nenhum perigo para a saúde, “o consumidor deve estar ainda mais atento às datas de validade dos produtos perecíveis”, como carne, peixe ou lacticínios, pois precisam de estar em ambientes de temperatura controlada e só podem ser consumidos até ao prazo indicado na embalagem.

Texto de Sofia Venâncio, fotografia de Samuel Costa.
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