Stana Katic. “Fui muito feliz em ‘Castle’”

A atriz esteve em Lisboa a apresentar a segunda temporada de "Absentia", a série negra que compara às aventuras de Ulisses em "Odisseia".

"Absentia" conta a história de uma agente do FBI que é dada como morta depois de desaparecer durante as investigações a um serial killer

ABC

É capaz de reconhecer Stana Katic (“For Lovers Only”) no papel de Kate Beckett, uma detetive da polícia que fez par romântico com Nathan Fillion (“Firefly”) em “Castle” — a série da ABC que se manteve em emissão entre 2009 e 2016. Depois de ter sido afastada de forma inesperada do elenco, a atriz lançou-se num novo projeto bem mais negro e pesado do que todas as outras produções em que já tinha estado envolvida.

Chama-se “Absentia”, onde Stana é produtora executiva e protagonista, e conta a história de Emily Byrne, uma agente do FBI que desaparece durante as investigações a um dos assassinos em série mais violentos de Boston, nos Estados Unidos.

O corpo nunca chega a aparecer e Emy é declarada morta, mas a reviravolta na história dá-se quando uma figura anónima telefona à família e avisa que a agente desaparecida está, de facto, viva.

A propósito da estreia da segunda temporada, marcada para a próxima terça-feira, 26 de março, no canal AXN, a MAGG foi conhecer a atriz.

Durante a conversa, que decorreu no Ritz Four Seasons Hotel, em Lisboa, a atriz revelou que nunca foi fascinada pelas histórias de serial killers e compara o percurso de Emily ao de Ulisses na “Odisseia” de Homero — na medida em que ambas as personagens têm de passar por vários testes e dilemas até conseguirem regressar a casa.

Quanto à saída inesperada de “Castle”, Stana Katic diz-se muito feliz por ter criado uma das personagens mais queridas do público mas promete estar mais focada na sua nova série onde quer fazer “diferente mas sempre melhor”.

Quanto desta personagem é baseada em pessoas que conhece ou nas suas experiências?
Grande parte desta personagem resultou de uma acumulação de várias influências. Todos nós [a equipa de produção] começámos a entender a personagem como uma pessoa que estava a passar por situações muito extremas e difíceis.

O principal desafio foi, à medida que idealizávamos todo este contexto, tentar arranjar forma de o espectador se conseguir relacionar ou rever, ainda que parcialmente, no conflito e nos obstáculos por que Emily teria de passar.

Para isso, referimo-nos a alguns momentos trágicos e marcantes da nossa história e que são familiares a todos nós. Fizemos várias referências à Segunda Guerra Mundial, por exemplo, talvez porque é aquele acontecimento com que nos sentimos mais próximos — seja porque os nossos avós viveram o conflito, de forma direta ou indireta, ou porque conhecemos o que aconteceu naquela altura.

No fundo, foi isso que serviu como ponto de partida para começarmos a criar a identidade desta personagem e da história que queríamos contar.

A sua personagem é uma agente do FBI que é dada como morta depois de uma longa investigação a um dos serial killers mais violentos de Boston. Viveu fascinada com histórias de serial killers?
Não, que horror [risos]. Sempre fui uma miúda que gostava de filmes como “A Princesa Prometida”… nada a ver, portanto. Claro que gostava de produções mais arriscadas e independentes, geralmente produzidas na Europa, mas nunca fui muito viciada em thrillers psicológicos que tivessem como base histórias de serial killers.

E nem mesmo o facto de a Emily ter sido uma agente do FBI antes de ter desaparecido é um dos elementos mais importantes da história. Claro que aquilo foi uma parte importante da sua vida, mas a Emily assemelha-se mais a alguém que vive fora da sua cabeça e do seu corpo e que vai analisando com um olhar crítico e analítico tudo o que lhe vai acontecendo.

A Emily é uma renegada, no fundo. No entanto, como tem uma série de habilidades e técnicas especiais, as outras pessoas veem-se obrigadas a trabalhar com ela — porque apesar de tudo, ela é boa naquilo que faz.

A verdade é que “Absentia” é uma série muito mais negra e pesada do que outros projetos seus. Foi-lhe difícil dar vida a esta personagem?
É sempre desafiante contar uma história que, como esta, tem muita influência nas tragédias e nos mitos grego. É como se estivéssemos a contar a história de Ulisses e todos os testes psicológicos por que tem de passar até poder regressar a casa. De alguma forma, a história de “Absentia” reflete muito esta ideia só que, neste caso, a figura de Ulisses está representada por uma mulher que é a Emily.

É um desafio entusiasmante, principalmente quando nos obriga a trabalhar com outros criativos com o objetivo que contar uma história tão complexa num universo quase parecido ao dos livros de banda desenhada.

Há semelhanças entre Emily e Kate Beckett, que interpretou na série “Castle”?
Acho que ambas as personagens são formidáveis, cada uma à sua maneira. Mas também são muito diferentes. “Castle” era um projeto mais romântico e cómico. Claro que tinha os seus momentos dramáticos, mas nunca chegava a atingir a escala de complexidade de “Absentia” — já que esta série é sobre a dualidade constante entre vida e a morte, que não existia no ambiente criado pelos produtores para “Castle”.

Houve algumas produções de crime que a tenham influenciado, já que também é produtora executiva da série?
Alguns thrillers psicológicos marcaram-me muito, porque sempre me senti atraída pela questão de memória e pela procura da nossa identidade. A eterna discussão sobre quem sou e para onde vou sempre foram excelentes fios condutores para uma história e isso tem-se vindo a notar em algumas das séries mais recentes.

Olhámos para filmes como “O Candidato da Verdade”, mas também nos baseamos muito nos trabalhos de David Fincher [realizador de “Se7en” e “Em Parte Incerta”] porque ele tem a capacidade de entrar na cabeça das pessoas. Mas houve muitos outros, como “A Vida Não É Um Sonho”, por exemplo.

Todos eles serviram como inspiração porque, num thriller psicológico, temos sempre de explorar a mente do protagonista — mostrando não só aquilo que está a sentir, mas também a forma como entende o mundo à sua volta. Tem sido uma experiência divertida, nova e diferente.

É-lhe difícil sair da personagem Emily depois das gravações?
É engraçado porque o cabelo dela é muito diferente do meu. Quando se fazem modificações destas no corpo, por muito mínimas que sejam, passa a fazer parte do ator ou da atriz. É muito difícil usar um vestido florido com o cabelo da Emily [risos].

Já cheguei a ter o meu cabelo pintado de loiro platinado e lembro-me que estava a andar pela rua e vi num vidro o reflexo de uma pessoa que tinha um cabelo igual ao meu. Depois é que me apercebi que ela pessoa era eu.

Isto mostrou-me que, naquela altura, não tinha uma identidade formada que combinasse com aquele look.

Deixou de ser Stana Katic e passou a ser outra pessoa que ninguém reconhecia. Isso é algo que se sente diariamente?
Claro que sim, porque essas mudanças fazem como que as pessoas nos julguem com base numa máscara que não é real. Todas as amizades ou os contactos que fui tendo nestes últimos dois anos não teriam acontecido se eu não estivesse na pele de Emily — porque o aspeto que assumi mudava por completo as conversas que tinha ou a forma como as pessoas me abordavam.

Este novo projeto foi uma forma de se reconciliar depois de ter sido afastada de “Castle”?
Não sei, honestamente. Sei que esta série tem sido espetacular e tem sido um prazer, enquanto produtora executiva, trabalhar com todos os criativos talentosos que me acompanham. Fui muito feliz em “Castle” e estou muito grata pela experiência e por ter tido a oportunidade de criar a personagem Kate Beckett — que continua a ser muito especial para mim e para o público.

Agora estou muito focada em “Absentia” e existe um diálogo ativo entre todos os produtores para que possamos criar uma coisa semelhante a um filme independente. O objetivo é fazer tudo de maneira diferente, mas sempre melhor.

Houve vários atores que, depois de terminadas as gravações da segunda temporada, me disseram que esta tinha sido a experiência mais rica e mais criativa de que alguma vez tinham feito parte. No final do dia, vivo para isto. Para ouvir elogios destes e sentir e estamos todos do mesmo lado e fazemos parte de um grande diálogo necessário para criarmos um produto incrível e cativante.

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