Ex-polícia do Facebook português explica porque é que a rede social falhou nos ataques da Nova Zelândia

O vídeo do massacre passou ao lado da equipa que controla a rede social. “Tem de haver mais olhos”, diz à MAGG um ex-polícia do Facebook.

Tarrant terá também escrito um manifesto onde revela as motivações dos ataques, relacionadas com ideias de supremacia branca

A história começa com imagens tremidas, que deixam ver o interior de um carro. Mostram aquilo que parece ser um homem, vestido com roupas camufladas e robustas, acompanhado por várias armas no banco do passageiro. A imagem estabiliza e tudo indica que a câmara já está na testa. Brenton Tarrant, autor do ataque terrorista desta sexta-feira, 15 de março, na Nova Zelândia, vai conduzindo, ao som de um tema de marcha militar. Sai do carro, abre o porta-bagagens, onde tem mais armas. Escolhe uma e dirige-se para a mesquita Al Noor, em Christchurch. Ao longo de seis minutos, dispara indiscriminadamente e são vários os corpos que vão ficando pelo chão. Segue para outra mesquita e continua a matar, somando um total de 49 vítimas mortais.

Durante 17 minutos, aquelas imagens captadas pela câmara de Brenton Terrant estavam a ser transmitidas em direto no Facebook. A rede social só deu conta daquilo que se estava a passar, após o alerta das autoridades neozelandesas.

“A Polícia da Nova Zelândia alertou-nos sobre o vídeo no Facebook, logo após o início da transmissão e rapidamente removemos as contas do Facebook, do Instagram e do vídeo”, disse à “CNN” Mia Garlick, diretora de política do Facebook para Austrália e Nova Zelândia.

Foram 17 minutos de massacre, a que milhares de pessoas assistiram. As imagens — seja em formato de vídeo ou fotografia — estão já espalhadas por várias redes sociais, desde o Whats’ App ao Twitter. O que é que falhou? Como é que o Facebook não deu conta do vídeo? Como é que isto poderia ter sido evitado?

Um ex-polícia do Facebook, que trabalhou junto de uma equipa de 500 pessoas em Lisboa para controlar a segurança da plataforma — que viu coisas horríveis, desde decapitações, a cenas de pedofilia ou de teor sexual — aceitou falar com a MAGG (mantendo o anonimato, sob o risco de processo judicial) e explicou-nos algumas questões de segurança para situações deste género.

“Estamos a falar de um mundo extenso e o Facebook não consegue aperceber-se de tudo o que está a acontecer”, explica. Ou seja, “ao mesmo tempo que está a haver um ataque de 17 minutos na Nova Zelândia”, há milhões e milhões de outros vídeos a serem transmitidos ao mesmo tempo, por todo o mundo: desde tutoriais de maquilhagem virais de adolescentes e miúdas, a mães a dar à luz em direto, a conteúdos com teor sexual ou de pedofilia.

Ao contrário de várias acusações que estão a ser feitas à rede social, na opinião do antigo funcionário do Facebook, não se trata de desvalorizar o terrorismo, até porque é sempre o foco principal no controlo da plataforma, bem como a “pedofilia, prostituição e tráfico de armas”, garante.

Sobre o tempo da transmissão, explica que, “para o Facebook é mais fácil [interromper um vídeo em direto ou apagar qualquer conteúdo] se houver uma denúncia. Se alguém aos quatro minutos tivesse denunciado este vídeo, era mais fácil agir e parar imediatamente a transmissão.”

O australiano Brenton Tarrant, 28 anos, já foi presente a tribunal este sábado, 16 de março, tendo sido acusado de homicídio

AFP/Getty Images

Neste momento, garante, as equipas espalhadas pelo mundo estão a resolver os danos colaterais deste caso. “É a coisa que o Facebook mais faz”, diz. “Entre ontem e hoje o Facebook emitiu, de certeza, uma ordem para que todos os países — e aqui falam com os chefes de cada um  — se concentrem no ataque da Nova Zelândia, para que apaguem todas as imagens, vídeos e até textos, se for necessário”, diz.

O ex-funcionário explica que é possível usar ferramentas de pesquisa, para que haja uma filtragem e surja conteúdo relacionado com esta prioridade. “Entre 20 items que os polícias do Facebook agora estão a ver, dez serão sobre a Nova Zelândia.”

Qual é a solução para isto? O ex-polícia só vê uma: “Tem de haver mais olhos”, diz. Ou seja, é preciso contratar mais pessoas para que o controlo seja maior e mais eficaz. “É o que o Mark Zuckerberg tem estado a fazer: recrutar milhares de pessoas para trabalharem lá. Não estou a ver outra hipótese.”

Poderia esta transmissão longa ter ocorrido em países como Espanha, França ou Estados Unidos, que já foram vítimas de vários ataques terroristas, ao contrário da Nova Zelândia? Sim. No entanto, não se podem ignorar as circunstâncias diferentes: os habitantes de várias cidades europeias e americanas já viveram tragédias do mesmo tipo: “Nestes países, as próprias pessoas estão mais preparadas para agir em conformidade”, diz. “Quando eu digo isto é no sentido da experiência das próprias pessoas, que iam denunciar imediatamente o vídeo. A Nova Zelândia é um país calmo, onde os muçulmanos gostam de viver. Estas coisas não costumam acontecer lá.”

O ex-polícia da rede social põe ainda a hipótese de o Facebook ser uma “ferramenta demasiado democrática”, podendo “perfeitamente, reavaliar as suas políticas.” Ainda assim, garante que, perante o que aconteceu, fez-se o possível para se travar a circulação dos vídeos e imagens. O terrorismo, a divulgação de imagens chocantes ou que não são de caráter meramente informativo, funcionando como aquilo a que se pode chamar de “propaganda”, é onde se concentram mais os esforços.

“Já apanhei várias situações de atentados quando estava no Facebook em que houve diretivas a nível mundial para não mostrar mais fotos desses atentados. Houve os de Barcelona e a ordem foi para que o que aparecesse em imagens de notícias, por exemplo, era para tirar.”

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