Os portugueses estabeleceram-se em Macau em 1555 e de lá nunca mais saíram. Quer dizer, houve muitas viagens de ida e volta e há vinte anos a ligação tremeu quando a região transitou para a China. Tremeu mas não caiu.

Dados de 2017 mostram que a tendência da imigração dos portugueses divide-se entre o Luxemburgo (14%), Macau (6,5%) e Suíça (6,3%). E de acordo com o Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, estão inscritos no Consulado mais de 160 mil cidadãos titulares de passaporte português e cerca de 5 mil cidadãos nascidos em Portugal.

Os 11 mil quilómetros de distância não foram suficientes para tirar o português da lista de línguas oficiais de Macau e essa influência portuguesa nota-se também nos nomes das ruas pintados em azulejos e nos dim sums que convivem amigavelmente com os pastéis de nata.

Por cá, o destino também não é esquecido. Depois de ganhar espaço à mesa com a abertura de um restaurante — dos raros no país — dedicado à comida macaense, o Taberna Macau no Mercado Oriental do Martim Moniz, esta semana começa a BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, com Macau como país convidado.

Com este título, Macau preparou uma série de ações destinadas a contribuir para a promoção da região e investiu 300 mil euros numa mega operação de promoção turística para cativar mais portugueses.

Mas como não há nada como chegarmos a um país e termos quem nos guie, pedimos a três portugueses que vivem em Macau para nos contarem todos os segredos — daqueles que fogem ao roteiro dos casinos, ainda que não haja nada de mal em fazer uma ou outra aposta.

Henrique Silva, 51 anos, publicitário

Henrique prefere dividir a sua vida em Macau em duas fases. A primeira aconteceu em 1990, quando saiu de Portugal para lá abrir uma agência de publicidade. Em 1999 voltou a Portugal, mas o regresso definitivo ao Oriente deu-se em 2012, quando viajou com o intuito de abrir uma nova empresa, ainda na área da publicidade.

Recentemente decidiu mudar de vida e dedica-se agora a mostrar a quem vem de fora as maravilhas de uma região que já assume como sua. Todos os dias leva turistas em passeios de barco pelo rio das Pérolas, com opções de programas de três horas com música, bebida e festa, ou algo mais longo, com direito a mergulho.

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Uma vez que conhece Macau antes do boom dos casinos e dos hotéis de cinco estrelas, as sugestões que deixa à MAGG levam-nos para uma terra mais próxima do autêntico. “Pareço um bocado saudosista, não?”. Preferimos a palavra genuíno.

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Um restaurante: “Gosto tanto de Wonton min [sopa de noodles] que fiz uma sondagem entre os meus amigos chineses, que perguntaram aos respetivos pais e amigos onde é que se comia o melhor de todos”, conta. Chegou à conclusão que é no Heng Tai Hong, um pequeno restaurante mesmo em frente ao mercado de Patane. Se a ideia for entrar a fundo na comida macaense, Henrique sugere o Riquexó Café, “onde se come o melhor minchi [prato feito com ovo, batata em cubos e carne picada] de Macau”.

Um hotel: “Prefiro os mais antigos àqueles de cinco estrelas”, admite. É por isso que sugere o Hotel Lisboa, um dos primeiros de Macau e um dos que mantém uma traça mais genuína.

Um ponto turístico: “Sou da velha guarda”, avisa, e é por isso que quando quer viver o Macau mais autêntico, foge do centro e refugia-se a norte. É em Patane que encontra os becos, as ruas e os restaurantes que o levam para “o exotismo da Ásia”, do qual sente falta no meio da lógica de casinos e hotéis.

Uma experiência: Um passeio de barco, claro. “Temos opções de viagens de dia inteiro ou apenas para ver o pôr do sol”.

António Jorge, 55 anos, jornalista

António está há dois anos a viver em Macau, depois de a mulher, também jornalista, ter ido uns meses à sua frente. Mas esta não é a primeira vez do casal no Oriente. Entre 1990 e 1992, viveram em Macau e até foi lá que nasceu a filha mais velha. Voltaram para Lisboa por verem cá mais oportunidades de trabalho e foi com o mesmo argumento que decidiram voltar agora a Macau.

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Amante do bem comer, admite que algumas das coisas de que mais gosta em Macau são os pratos os dumpling, o pato à Pequim e os vegetais. “No oriente cozinham os vegetais como ninguém. A sério”. Mas depois também o ambiente “um tanto ou quanto frenético, mas simultaneamente muito seguro”, que o fazem querer ficar.

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Um restaurante: Para boa comida chinesa, António aconselha uma visita ao Choi Un. “Ainda no centro de Macau, no Wong Kung Sio Kung come-se um ótimo congee de caranguejo”, refere. Este é um prato semelhante a uma canja portuguesa (vê-se até pelo nome), mas de caranguejo.

Um hotel: Aconselha o Royal, numa versão mais clássica, e o Wynn Palace, inserido no casino Wynn. “Mas dizem muitíssimo bem da mais recente inauguração, o Morpheus, no Cotai. Uma das últimas obras da arquiteta de origem iraniana Zaha Hadid”.

Um ponto turístico: Ver Macau do topo do Farol da Guia, um dos mais antigos da Ásia.

Uma experiência: Para fugir aos roteiros mais turísticos, António sugere um passeio pela cidade na zona do bairro da Areia Preta, onde vive maioritariamente comunidade chinesa. “Mas passar pela Taipa Velha e pela Vila de Coloane, embora com muitos turistas, não deixa de ser um passeio interessante”.

João Sequeira, 30 anos, arquiteto

“A maioria dos portugueses, quando vem para Macau, faz sempre planos de ficar no máximo dois anos”, conta João, que já vai nos quatro e ainda sem vontade de voltar a Portugal.

Talvez o facto de ter uma namorada chinesa tenha ajudado à adaptação, mas a verdade é que, para um arquiteto, Macau é muito aliciante. “Há sempre hipótese de poder trabalhar em grandes obras, como casinos e hotéis”, explica.

Ainda que tão longe de casa, sente Macau como um “pequeno Portugal”, pelo facto de ainda se falar português e até as paragens de autocarro estarem assinaladas na sua língua mãe.

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Um restaurante: Cais 22. “Uma tasca chinesa situada no porto, muito conhecida pelos portugueses pela boa comida chinesa e pelos jantares no terraço junto à água, virada para o rio”, descreve.

Um hotel: Banyan Tree, pelas comodidades e vistas. “Fica no empreendimento do Galaxy Macau e oferece quartos com uma pequena piscina no interior e com vistas para a zona do Cotai e Ilha da Montanha, na China”.

Um ponto turístico: Aqui João não se consegue ficar pelo singular. Começa por sugerir uma visita às ruínas de S. Paulo, mas aconselha igualmente um passeio pelas ruas junto ao largo do Senado, património da Unesco, e uma visita ao templo de Ah Má, o mais antigo de Macau e que fica na zona onde os primeiros portugueses desembarcaram neste território.

Uma experiência: bungee jumping na Torre de Macau. “É o bungee jumping mais alto do mundo”, lembra. “Só pelo facto de se subir a torre, com cerca de 300 metros de altura, já se tem a oportunidade de ver a península de Macau toda, bem como parte da ilha da Taipa e as nova cidades que crescem no lado do território chinês”, acrescenta.