Ser artista é difícil. Mas ser artista mulher em Portugal é um desafio colossal. A Ministra da Cultura, Graça Fonseca, anunciou esta quarta-feira, 13 de março, que o governo prepara um conjunto de medidas para combater a “invisibilidade das mulheres artistas”. A desigualdade de género é uma realidade incontornável de muitos mundos, e nas artes não é exceção. As coleções e exposições mostram uma disparidade evidente, assim como os festivais de cinema ou os trabalhos no universo da música. São muito mais obras de artistas masculinos, tanto que nos dá a impressão de que poucas mulheres se dedicam à criação. Mas não: há muitas mulheres artistas, muitas mulheres que produzem e muitas mulheres que continuam a não ser representadas. Hoje é mau, relata-nos Luísa Abreu, artista plástica, natural do Porto, 30 anos, mas antes era ainda pior.

Helena Inverno regressou em 1997 a Portugal com “um portfólio gigante”. Tinha 21 anos e era recém formada em Fine Art Film & Vídeo pela Central Saint Martins, que hoje pertence à University of the Arts London, uma das mais prestigiadas da capital inglesa, de onde saiu com nota máxima. Foi provavelmente uma das primeiras pessoas do País com conhecimento nesta área artística. “Não me valeu nada em Portugal. Estou desconfiada de que era por ser mulher”, diz à MAGG, numa alusão àquele tempo.

Hoje, volta a estar à frente da direção artística do Festival Giacometti, que terá lugar em Ferreira do Alentejo, em maio. Todas as propostas que fez para o evento foram aceites. Há uns cinco anos, garante, isto não seria assim. É sobre música tradicional, mas não só: “Vai haver uma fusão com o contemporâneo. A minha área está muito ligada à imagem, portanto também inseri as artes visuais e do cinema. Quero que haja esta diversidade, mas quero se que mantenha afetivo e intimista, como no ano passado.”

Helena Inverno ganhou o prémio de Melhor Filme no festival Indie Lisboa, pelo documentário "Jesus por um Dia", realizado em co-autoria com Verónica Castro, antropóloga e cineasta mexicana.

Ana Pérez-Quiroga é uma das 60 mulheres que terá obra exposta, a partir de 21 de março, em “A Outra Metade do Céu“, uma exposição coletiva criada sob a curadoria do artista Pedro Cabrita Reis, onde parte das paredes do Museu Arpad Szenes — Vieira da Silva serão preenchidas exclusivamente por trabalho de 60 mulheres artistas, de diferentes gerações.

“Em 2018, nas Belas Artes do Porto, houve uma exposição [“Histórias Por Contar”], com curadoria do Miguel Von Hafe, que foi ao acervo da faculdade e pegou numa série de trabalhos de artistas que passaram por lá e que caíram no esquecimento. Eram só mulheres, uma espécie de salão dos renegados”, diz Luísa Abreu, artista plástica representada pela Sala 117, uma galeria recente, que quer seguir o princípio da paridade.

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São exemplos que denotam uma espécie de acordar, um reconhecimento tardio, que quer contrariar a tendência que se mantém: quase todas as coleções, quase todas as exposições coletivas ou individuais, refletem a disparidade entre a representação de artistas masculinos e femininos. Ainda que se tenham dado passos em frente, esta continua a ser a realidade do meio artístico português.

“Vemos as coleções e a disparidade é tão grande que chega a ser vergonhoso”

Pérez-Quiroga soma três licenciaturas, a última em escultura, pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, que terminou já com 38 anos. Com 58, tem hoje visibilidade e um ano preenchido por trabalho. Entrou recentemente numa exposição coletiva no museu Júlio Pomar, vai ter o seu trabalho exposto na exposição “Anuário” da Galeria Municipal do Porto, vai estar também representada na Fundação Eugénio de Almeida, no verão vai ter uma exposição individual no Museu de Arte Contemporânea da Madeira e ainda no Teatro de Almada.

Mas garante. “Sai de mim. Sou eu que tenho de estar com uma bandeirinha a dizer: ‘Olhem para o meu trabalho’. Tenho de ir arranjando sempre maneira de, no fundo, pedir aos curadores, que são as pessoas com quem falo nesse sentido, que venham ter comigo. Consigo sentir, intuir, que isto para os homens é mais fácil”, diz. “Temos de nos esforçar o dobro para dizer ‘Eu estou cá’. O homem tem à partida o seu lugar assegurado e é lhe mais fácil dizer que é artista, porque as pessoas aceitam logo. Desconfiam sempre da mulher que se diz artista.”

As assimetrias de género dentro deste universo e a “invisibilidade” atribuída à mulher foram algumas das preocupações expressas pela Ministra da Cultura, Graça Fonseca, na conferência de imprensa de apresentação da Bienal de Veneza, que vai decorrer em maio. Leonor Antunes é a mulher que vai representar Portugal na exposição, juntando-se às cinco únicas que o conseguiram, desde o 25 de Abril: Helena Almeida, Ângela Ferreira, Joana Vasconcelos, Ilda David e Ana Hatherly. De acordo com a ministra, o governo prepara um conjunto de medidas para combater “a invisibilidade das mulheres artistas”, cita o jornal “Público“, uma vez que “há uma subrepresentação de mulheres evidente”.

Uma das obras de Luísa Abreu, formada pela Universidade de Belas Artes do Porto e com mestrado na ESAD — Escola Superior de Artes e Design.

Filipe Braga

A discrepância não é só uma coisa do antigamente, reforça Luísa Abreu. “Temos séculos de historia de arte em que não há lugar para as mulheres. Conheço muitas artistas da minha geração que têm atelier, que estão a produzir e para elas as oportunidades são muito escassas.” Pérez-Quiroga concorda: “Vemos as coleções e a disparidade é tão grande que chega a ser vergonhoso.”

A portuense considera-se sortuda, porque o núcleo em que se insere é precisamente um dos que luta pela inclusão. Além de pertencer ao grupo de artistas da Sala 117, gere também a Galeria Sol, um projeto não comercial, onde existe uma programação própria e onde se juntam coletivos de artistas.

“Mas eu vejo bem o que se passa à minha volta”, diz. Dá-nos o exemplo da Balcony Galeria, que abriu em 2017: “Quando apareceu tinha apenas uma lista de artistas homens. Estamos a falar de um projeto contemporâneo com artistas novos. Não pode ter só nomes de homens. Isto vai contra tudo aquilo que é suposto. É um erro, não faz sentido e temos de bater o pé quando vemos que há espaços, galerias, instituições que o fazem”, diz. “É que muitas vezes nem é consciente, o que ainda é pior, porque reflete o paradigma social em que estamos inseridos.”

“No cinema, entregar um orçamento alto a uma mulher era impossível”

Mas quanto mais recuamos no tempo, mais entraves vemos a serem colocados às mulheres portuguesas das artes. Helena Inverno, 51, e Ana Pérez-Quiroga são artistas. Ainda que tenham herdado o espaço criado por nomes incontornáveis como Maria Helena Vieira da Silva, Lourdes de Castro, Ana Vieira ou Graça Morais, são também elas as que estão a dar continuidade ao seu trabalho na representação das mulheres nas artes e a criar o lugar que está a ser herdado pela geração de Luísa Abreu e pelas que se seguem.

No cinema, entregar um orçamento alto a uma mulher era impossível. E elas não tendo possibilidade, não podiam, à priori, provar a sua validade”

Pérez-Quiroga, natural de Lisboa, entrou na Galeria Filomena Soares, uma das mais importantes, pouco depois de se formar. Recorda os tempos da faculdade, quando pertencia ao círculo de artistas composto sobretudo por homens, aqueles que vieram a tornar-se muito reconhecidos, como Vasco Araújo, João Pedro Vale e ainda o namorado Nuno Alexandre Ferreira. Formaram-se em 1999 e tiveram obras expostas na exposição “Disseminação”, na Culturgest, a convite de Pedro Lapa, na altura diretor do Museu do Chiado.

“Na altura estavam lá a Leonor Antunes, o João Onofre. Eram da minha geração, mas não eram da minha idade. Havia um grupo representado muito importante”, diz. Só que logo aí sentiu o peso do seu sexo. “Eu tinha um handicap que era a idade e outro que era ser mulher. Houve um curador a convidar artistas desta minha geração para expor e perguntei-lhe porque é que ele não me convidava a mim. Disse que era porque era mais velha. Tenho a nítida sensação de que apesar da idade, se fosse homem, tinha entrado.”

Fernanda Fragateiro, Marta Wengorovius ou Ana Vidigal são artistas plásticas do seu tempo. Tal como ela, só a partir da década de 2000, dez anos depois, é que começaram a ganhar visibilidade. Os tempos anteriores eram de outros: “Eram os Pedros: o Pedro Cabrita Reis, o Pedro Casqueiro, o Pedro Proença, o Pedro Portugal. Houve uma quantidade de homens que anularam as mulheres da minha geração.”

Ainda que este não seja um problema exclusivo de Portugal, parece que andamos sempre um passo atrás. “Quando regressei de Londres em 1997 senti que o País, nas questões de género, era muito atrasado. Lá já havia a crença de que as mulheres valiam tanto como os homens a nível artístico e técnico”, diz Helena Inverno.

A propósito disto, recorda o dia em que foi à galeria de Luís Serpa —que ficava junto do teatro da Cornucópia, de Luís Miguel Cintra — a única que tinha exposições que lhe interessavam. Vinha propor uma instalação, “quando em Portugal poucas pessoas sabiam o que era isto.” O senhor da galeria sabia, mas a coisa não foi para a frente. “Ele não se interessou pelo meu trabalho. Era mais fácil expor lá fora do que cá.”

A artista, que desde a mesma década se dedica à agricultura biológica, identifica duas razões. Por um lado, tratava-se de uma questão social, porque “não vinha de uma família com nome, do círculo de Lisboa — havia uma espécie de feudalismo português ligado às artes, em que o Alentejo, por questões políticas era mal visto.” Por outro, havia a questão género, suspeita.

Ana Pérez-Quiroga tem 58 anos, é natural de Coimbra, e depois de um curso em história e arquitetura de Interiores, decide que o seu caminho é pelo mundo das artes plásticas.

Em Portugal, explica, para uma mulher conseguir evoluir dentro deste mundo tinha de mostrar que era “muito boa”, com provas concretas de que havia talento técnico. Isto provavelmente por causa daquilo que diz Ana Pérez-Quiroga, que é um fator histórico, social e típico dos países do sul da Europa: “Os homens têm o espaço público e para as mulheres está reservado o doméstico.”

Só que mostrar a evidência técnica também não era fácil, relata Helena Inverno. “No cinema, entregar um orçamento alto a uma mulher era impossível. E elas não tendo possibilidade, não podiam, à priori, provar a sua validade”, explica.

Na geração anterior à sua, conta, a estratégia que as mulheres usavam passava por se juntarem aos homens. Como exemplo fala-nos de  Margarida e António Reis, um casal que realizava em conjunto. “Era dele que se falava sempre”, diz. “Acontecia muitas vezes serem casais a realizarem, mas depois o nome delas era retirado das luzes e o deles é que aparecia.”

No seu tempo e até à data presente é diferente: as mulheres atiram-se aos documentários, a forma de se expressarem artisticamente, sem ser necessário o acesso — aquele que lhes é vedado — aos orçamentos altos da ficção.

Temos séculos de historia de arte em que não há lugar para as mulheres. Conheço muitas artistas da minha geração que têm atelier, que estão a produzir e para elas as oportunidades são muito escassas.”

Em 1997, a cineasta faz um documentário sobre arquitetura de terra, depois de ter comprado o terreno do seu monte alentejano. Aqui, e muito pacientemente, teve de dar provas das suas capacidades a um técnico de edição da empresa pós-produção a quem teve de pagar, por não ter computador. “Tive pacientemente de esperar, durante duas semanas, que aquele indivíduo me respeitasse. E só me respeitou porque lhe mostrei que eu conseguia ver vigésimos quintos de segundo [frame de vídeo é composto por 25 imagens]. Se num segundo aparece uma imagem errada, eu consigo detetar. Tinha treinado muito o melhor olhar em Londres.”

E ainda há outra coisa que contribui para a tal invisibilidade. Não só são as mulheres as maiores consumidoras de arte, como parece existir uma tendência para “preferir o objeto masculino.” Mas também isto está num processo de metamorfose. “A geração nova está a mudar um pouco no sentido em que gosta de se identificar com o olhar do artista. As mulheres começam a ser mais solidarias e empáticas num processo de identificação. Talvez haja um movimento auspicioso para artistas mulheres, porque estão mais empáticas e solidárias. Sente-se uma mudança forte.

“Eu tenho uma esperança imensa, gigante, que as novas gerações vão conseguindo conquistar ainda mais espaço do que o espaço aberto pelas outras gerações”, diz Ana Pérez-Quiroga. Ainda assim, não consegue deixar de sentir que há uma espécie de retrocesso na evolução das mentalidades. “A primeira coisa que temos de conseguir é ser iguais e só depois de conquistarmos o igual é que podemos ser diferentes. Eu achava que já conseguíamos ser diferentes, mas não, porque afinal ainda não somos iguais.”

Ministra fala em medidas. Mas que medidas?

Graça Fonseca prometeu debate para breve. O tema central será este mesmo e o objetivo será a delineação de medidas que retirem este manto invisível às mulheres das artes portuguesas.

Ana Pérez-Quiroga diz-nos de imediato: “Sou a favor das cotas. É preciso começar com isto para que as coisas se modifiquem. Quando chegarmos à paridade isto deixa de fazer sentido e já não vai ser preciso”, diz.

Helena Inverno considera que a solução do problema é de “uma complexidade gigante, colossal, mesmo.” A artista diz que identifica várias questões, mas foca-se numa: “A primeira que aparece logo na minha cabeça tem que ver com a mentalidade, que é o que leva mais tempo a mudar, ainda que já se sintam algumas evidências.”

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Questiona se será necessário tomar medidas específicas para a mulher. E dúvida: “Será que se têm de tomar medidas especificas para questões ligadas às mulheres ou será que temos de ver as questões ligadas aos artistas emergentes, aos homens e às mulheres?”, pergunta. “Não se resolve uma questão de género se não se resolver uma questão social. É uma questão humana, não é de género. Em vez de trabalharmos para privilegiar a mulher, porque não para a emancipação do homem? Porque o homem é o mais oprimido dentro da sua caixa machista.”

Ainda assim, diz que “ao nível da criação deve atender-se aos novos artistas, independentemente do género, e que, ao nível da divulgação, deve-se, sim, dar especial atenção às mulheres”, acreditando que deve ainda trabalhar-se, de uma forma geral, para a tal “emancipação do homem e auto-conhecimento do ser humano.”

Luísa tem dificuldade em pensar em medidas concretas, porque a solução implica aquilo que só o tempo e muito esforço permitem. Vai ao encontro da linha de pensamento de Inverno: “Tem a ver com uma mudança de mentalidades e de uma consciência sobre como é que isto tudo acontece”, diz. “Os quadros de homens artistas são mais caros do que as mulheres. Um trabalho de um homem vale mais do que o de uma mulher. Todas as estatísticas mostram que em Portugal, um homem ganha mais do que uma mulher. O mesmo acontece nas Artes Plásticas.”