Era para ser uma manhã igual a tantas outras. Sentada ao volante do seu carro e com a aplicação da Uber ligada, Felipa Garnel preparava-se para começar mais um dia do seu novo trabalho. Em poucos segundos, o sistema detetou um passageiro e indicou-lhe o caminho até ao local de recolha. Lá encontravam-se duas pessoas: uma mulher aloirada, com cerca de 60 anos, que puxava pela mão uma criança de 9 anos pálida, inerte, debilitada e sem cabelo. Era a sua neta. Começada a viagem, o destino não deixava margem para dúvidas: Instituto Português de Oncologia (IPO).

Chamava-se Adriana e os olhos tristes denunciavam uma luta que ninguém — muito menos uma criança — deveria ter de enfrentar. Adriana estava doente há algum tempo, tinha feito várias sessões de quimioterapia que se tinham revelado pouco eficazes e agora a única certeza que tinha era o internamento enquanto aguardava um dador de medula. 

Como qualquer criança da sua idade, tinha um ídolo — a youtuber Sea3po. Felipa Garnel, que já colaborou com a fundação Make-a-Wish, prometeu voltar a contactar a avó para que a criança pudesse conhecer a influenciadora depois de sair do IPO.

À saída do carro, a despedida prometia não ser para sempre mas o que veio a seguir tirou-lhe o chão debaixo dos pés. “Não há muitas esperanças, Felipa”, revelou a avó depois de um abraço apertado.

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Duas semanas depois, a ex-apresentadora de televisão contactou a avó de Adriana para saber de novidades da criança. Quando atendeu, a voz denunciou o que mais se temia. Naquela altura e naquele momento, já não fazia sentido falar de Sea3po. Adriana tinha morrido.

Depois de uma carreira ligada à comunicação e à televisão, Felipa Garnel sentou-se ao volante de um Uber“Confidências” (o livro editado pela Lua de Papel e já disponível por 15€) é o resultado de um mês enquanto motorista. Das experiências mais tristes aos momentos insólitos — como o passageiro que a reconheceu e se recusou a estar num carro com ela por achar que estava a ser gravado um programa de apanhados, Felipa passou por quase tudo. Até um caso de violência doméstica.

Disse em várias entrevistas que não gravava as conversas mas que, mesmo assim, tinha o essencial para este livro.
Não gravava, não. Por não ser permitido gravar conversas sem autorização, não o fazia e nem dava porque havia algumas muito longas e com muita coisa que não interessava. E até arranjar uma boa conversa, tinha de conseguir criar empatia com a pessoa. O que fazia era muito simples: a seguir a cada viagem, desligava a aplicação da Uber e ditava na aplicação do iPhone o que tinha acontecido, tal como me lembrava. E tentava ser o mais fidedigna possível.

Cheguei a ter, em média, cerca de dez nacionalidades diferentes por dia no carro e tinha conversas muito interessantes com eles

Dava atenção a alguns pormenores, como o tempo de cada viagem, aspeto físico dos passageiros. Enfim, coisas que eu sabia que enriqueciam o texto e me ajudavam a contar aquela história.

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Por sempre ter sido comunicadora, acha que teria conseguido ter esta mesma experiência mas numa outra profissão que não o transporte de pessoas?
Sem dúvida. Seria possível ter feito isto enquanto empregada de mesa de um restaurante, ou enquanto lojista, por exemplo. O facto de ter trabalhado na área da comunicação ajudou-me muito — principalmente nesta primeira barreira que existe quando dois estranhos se encontram e têm de conversar.

O facto de já ter viajado muito também ajudou porque apanhei vários turistas no carro e já conhecia os sítios de onde eles vinham. Cheguei a ter, em média, cerca de dez nacionalidades diferentes por dia no carro e tinha conversas muito interessantes com eles.

Sou capaz de ter sido a motorista da Uber que chorou mais vezes durante um mês. Chorei, essencialmente, porque acho que vivemos de uma forma tão rápida que nos esquecemos que toda a gente tem uma vida e uma família ou uma história por trás

Mas era uma conversa que nunca era feita cara a cara.
Pois não, era sempre pelo retrovisor. Havia alturas, geralmente quando apanhava um sinal vermelho, que me permitiam olhar um bocadinho para trás para as pessoas me verem e eu a as ver a elas. Mas era uma leitura que eu tinha quase sempre através do retrovisor. E ainda bem, porque ouvi histórias duras.

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Sou capaz de ter sido a motorista da Uber que chorou mais vezes durante um mês. Chorei, essencialmente, porque acho que vivemos de uma forma tão rápida que nos esquecemos que toda a gente tem uma vida e uma família ou uma história por detrás. Ali, no carro e num espaço fechado, dei-me conta disso. Foi uma experiência maravilhosa e sinto, genuinamente, que fui uma privilegiada.

Encontrou histórias duras como a da Adriana, a menina que estava doente e que morreu duas semanas depois de a ter encontrado num Uber com a avó. Estava pronta para conhecer estas histórias?
Essa foi a história que eu achei que devia ser a primeira do livro, principalmente por ser uma forma de homenagem. Aquela avó é um exemplo de amor e dedicação que hoje guardo com muito carinho na minha memória — fui a última pessoa a transportar aquela miúda na rua e isso mexeu muito comigo.

O facto de eu estar a conduzir e ser uma estranha para a maioria dos passageiros também ajudou. Precisamente porque ao desabafarem comigo, sabiam que provavelmente não me voltariam a ver e eu não iria fazer o follow-up daquela história

Fazia ideia de que ia encontrar este tipo de histórias?
Tinha uma pequena ideia porque falava com muitos motoristas da Uber, até porque uso muito a plataforma, e via que eles tinham histórias melhores do que as minhas. E isto acontece porque o carro, por ser um meio itinerante e que está em constante movimento, faz com que o você diz vá ficando para trás.

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O facto de eu estar a conduzir e ser uma estranha para a maioria dos passageiros também ajudou. Precisamente porque ao desabafarem comigo, sabiam que provavelmente não me voltariam a ver e eu não iria fazer o follow-up daquela história. Não lhes ia perguntar como é que estavam, ou como se sentiam em relação àquilo.

Assim que a porta se fechava, aquilo que as pessoas me contavam ficava ali. E, no fundo, o propósito estava servido: aquela pessoa desabafou e foi-se embora.

Há sempre pessoas muito complicadas e mal-educadas — ou porque falam mal ou porque se esquecem que há alguém no carro com elas e não dizem nem um bom dia ou boa tarde

Histórias como a da Adriana colocaram a sua vida em perspetiva?
Sim. O meu marido é médico e durante muito tempo foi neuro-oncologista pediátrico — ou seja, trabalhava com crianças que tinham problemas neurológicos causados por tumores cerebrais. De alguma forma, ele ensinou-me desde muito cedo a saber lidar com a morte com uma dignidade incrível. Esta primeira história fez-me lembrar a vida dele e as vezes que eu o vi a chorar, e que chorei com ele, depois de uma criança que ele acompanhava ter morrido.

Claro que tudo isto nos faz sempre pôr a nossa vida em perspetiva e agradecer o facto de sermos saudáveis. Repito sempre isto, mas nunca é demais: exercitei a minha humildade, porque se exercita, mesmo nos dias difíceis. Há sempre pessoas muito complicadas e mal-educadas — ou porque falam mal ou porque se esquecem de que há alguém no carro com elas e não dizem nem um bom dia ou boa tarde.

Houve alguma história que não tenha entrado no livro?
Sim, houve pelo menos mais uma história de uma criança doente que decidi não incluir porque já tinha a da Adriana e a da última pessoa que aparece no livro. Lembro-me também de uma mulher que foi a viagem toda ao telefone com a amiga e lhe dizia que ia arranjar um detetive privado para seguir o marido — mas como nesse caso eu só tinha o lado dela e não o da amiga, não arranjei forma de expor aquela história de forma credível.

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Houve muitas outras que não entraram, mas também houve outras que alterei. Foi o caso da brasileira que foi sequestrada e violada no Brasil e que agora estava em Portugal à procura de uma nova vida. Por ter sido um crime muito mediático, optei por não usar o nome verdadeiro porque ela estava à procura de novas condições e não queria esse ónus para si mesma.

Houve uma senhora que me tratou tão mal que eu espero que se reveja no livro. Há pessoas de mal com a vida que nos tentam magoar e inferiorizar, até gratuitamente. Essa senhora foi uma péssima experiência e desejo que se emende. É tudo o que lhe desejo

Mas até hoje pergunto-me porque é que, pessoas como ela, me contaram as suas histórias. É certo que eu puxei e que tentava que as coisas acontecessem, mas nunca percebia porque é que me contavam coisas tão íntimas e tão duras. Talvez o tenham feito porque estas histórias merecem ser contadas e contar a um estranho é mais fácil.

E sentia-se confortável em dar conselhos?
Quando eram histórias que, de alguma forma, se assemelhavam a vários momentos na minha vida, sim. A da Adriana era um caso que, apesar de ter conhecido durante aquela viagem, me era próximo já que o meu marido foi médico oncológico durante muitos anos.

Como também já fiz parte da associação Make-a-Wish, sei que aquilo que disse à Adriana e à avó não foi mau porque, de alguma forma, já tinha lidado com isto embora com crianças diferentes. Já fazia parte do meu background e sabia como fazer aquela miúda sentir-se bem numa situação tão delicada.

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Qual foi o passageiro que mais a surpreendeu pela negativa?
Houve uma senhora que me tratou tão mal que eu espero que se reveja no livro. Há pessoas de mal com a vida que nos tentam magoar e inferiorizar, até gratuitamente. Essa senhora foi uma péssima experiência e desejo que se emende. É tudo o que lhe desejo.

Mas não tenho histórias negativas porque também nunca fiz noites. Apareceram algumas pessoas indelicadas ou mal-educadas, e isso é horrível porque fiquei a sentir-me como chapa, ou como mais uma peça do carro. Mas foram poucas as experiências negativas, confesso.

A minha experiência foi ótima e hoje admiro muito mais os motoristas. E admiro-os porque trabalhar na Uber é duro e não se ganha bem. Para se ter um ordenado mais digno são precisas muitas horas de serviço sem folgas

Pontuava sempre os seus passageiros?
Sempre.

Deu mais cinco estrelas do que uma estrela?
Sem dúvida, mas também recebi mais cinco estrelas. A essa senhora, por exemplo, dei apenas duas. Só assim é que o sistema de avaliação entre passageiros e motoristas faz sentido: se formos honestos e verdadeiros.

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Mas também admito que poderão ter havido alturas onde recebi menos estrelas. É que demorou até eu perceber que podia usar o Waze em simultâneo com a Uber. Até isso acontecer, usava sempre o GPS da Uber que, honestamente, não funciona assim tão bem e perdia-me imenso, o que terá levado às minha más classificações.

O que é que caracteriza um bom condutor da Uber?
O mais importante de tudo é serem educados e a maior parte dos que conheci até hoje são assim. Acho que a grande maioria dos condutores da Uber são felizes e hoje percebo-os perfeitamente. O facto de andarmos de um lado para o outro e conhecermos muita gente é bom.

A minha experiência foi ótima e hoje admiro muito mais os motoristas. E admiro-os porque trabalhar na Uber é duro e não se ganha bem. Para se ter um ordenado mais digno são precisas muitas horas de serviço sem folgas. Tenho ótimas experiências na Uber e até nos táxis, atenção, e acho que a qualidade mais importante num condutor é sempre a simpatia e a educação.

Houve também uma altura em que ameacei e pus um passageiro fora do carro. Tratava-se de um casal francês de classe média alta que já estava a discutir muito antes de ter começado a viagem

O que é que a irritava mais?
Quando me falavam mal, com desdém e superioridade, ou quando não me cumprimentavam. Há coisas básicas na vida… sabe quando entra num elevador cheio, diz bom dia e ninguém lhe responde? Ali era a mesma coisa mas, ao contrário de uma viagem de elevador que dura segundos, na Uber podiam ser longos minutos num espaço fechado.

E nesse contexto tinha de se conter…
E contive-me várias vezes. Numa altura em que se falava várias vezes de Donald Trump e das crianças que estavam a ser separadas dos pais assim que chegavam ao país, entraram-me duas norte-americanas no carro que eram apoiantes dele. Eu nunca fui fã de Trump e aquilo revoltou-me imenso, mas tive de me conter para não responder.

Houve também uma altura em que ameacei e pus um passageiro fora do carro. Tratava-se de um casal francês de classe média alta que já estava a discutir muito antes de ter começado a viagem. Nos primeiros minutos não falaram quase nada e vi que a mulher estava a chorar porque se ouviam os soluços contidos. Depois ele começou a discutir com ela, falando cada vez mais alto e com insultos. Tudo piorou quando deu um estalo à mulher e eu disse-lhe para sair do carro. Terminei a viagem e obriguei-o a sair. Ele disse-me que não saía e que eu não tinha nada a ver com a vida delas.

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Expliquei-lhe que não tinha nada a ver com a vida deles até ele ter feito aquilo à minha frente. A mulher respondeu e deu-lhe razão. Estava tão indignada que disse: ‘Você se quiser sai também mas, caso contrário, eu levo-a onde tem de ir. Ele vai sair agora’.”

Ela acabou por sair também e cerca de um minuto depois já estava abraçada a ele…

Alguma vez se sentiu em perigo?
Não, mas senti medo e sem razão nenhuma. Houve uma altura em que fui chamada e na app o local de recolha estava indentificado apenas como ‘unknown road’ ou estrada desconhecida. O local, em Cascais, era um sítio ao pé do mar, com uma estrada muito estreita e de terra batida. Quando cheguei lá vi quatro homens grandes e eu só pensava ‘Que horror… e se agora me acontece alguma coisa?’ [risos]. Mas não aconteceu nada, felizmente. Eles eram super simpáticos e muito educados.

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Nunca tive motivos para me queixar, mas encontrei uma ou duas situações hilariantes. Como quando um passageiro me reconheceu e se recusou a ir numa viagem comigo porque achava que aquilo era para um programa de apanhados.

Depois de lhe explicar que era mesmo a sério, que agora era condutora da Uber, ele não ficou convencido. Disse que não admitia que a sua imagem fosse usada sem o seu consentimento e saiu [risos].