Entrevista à melhor enfermeira de Inglaterra. “Ou diziam-me que procuravam pessoas com experiência, ou então nem respondiam”

Depois de quase um ano a enviar currículos, Sílvia Nunes meteu uma mala no carro e seguiu em direção a Inglaterra. Tudo mudou.

Sílvia Nunes emigrou para Inglaterra em 2014

Sílvia Nunes

Sílvia Nunes passou quase um ano a enviar currículos. Concorreu a bolsas, bateu de porta em porta, insistiu em atualizar um email que teimava em manter-se vazio de novas respostas. Nada. Incapaz de continuar assim, em “dois ou três dias” decidiu que estava na altura de deixar Portugal: meteu uma mala no carro e, juntamente com aquela que viria a ser a sua cunhada, rumou até ao Reino Unido. Entre agosto de 2014 e junho de 2015, trabalhou nas limpezas e como auxiliar num lar de idosos, até que a ordem inglesa dos enfermeiros lhe deu finalmente a autorização necessária para trabalhar na sua área.

Este sábado, 9 de março, a enfermeira de 33 anos foi distinguida como a Melhor Enfermeira de Inglaterra nos Great British Care Awards. Em novembro do ano passado já tinha vencido a final regional. À MAGG, admite que já se sentia realizada muito antes de saber da existência destes prémios, mas fica feliz pelo reconhecimento — que se estende ao sítio onde trabalha. Vice-gerente do lar Ford Place, o espaço foi considerado o melhor lar da região e o segundo melhor lar a nível nacional.

Começou por ser bombeira em Vila do Conde. Como foi essa experiência?
Entrei para os bombeiros em 2002, com 16 anos. Foi até a minha mãe que teve de assinar os papéis para eu entrar. Quando completei os 18 anos, passei a ser ativa. Fui ainda bombeira profissional durante cerca de dois anos, onde apaguei fogos, fiz transportes, enfim, um pouco de tudo. Depois acabei por sair e regressei ao corpo de bombeiros apenas como voluntária, onde estive até vir para Inglaterra.

Foi nos bombeiros que descobriu que gostaria de trabalhar na área da saúde?
Sim. Foi com o contacto com os outros colegas que trabalham nos hospitais, nas unidades de cuidados continuados e numa unidade de cuidados paliativos que também tínhamos lá perto que decidi trabalhar nesta área. E foi também a forma de atuação dos enfermeiros nas viaturas de emergência do INEM que me fez pensar que deveria seguir outro caminho que não o de bombeira.

Porque é que decidiu estudar enfermagem?
Escolhi enfermagem porque, de todas as áreas da saúde, era esta com que me identificava mais — não só pela forma como cuidavam das pessoas, mas também pela forma como a atenção era dada.

Porque é que decidiu deixar Portugal e emigrar para o Reino Unido?
Pouco tempo depois de ter terminado o curso, comecei a trabalhar em part time numa unidade apoio domiciliário, em Vila do Conde. Mas ao fim de seis meses neste trabalho, acabei por vir para Inglaterra pois havia falta de oportunidades nesta área. Concorri a várias bolsas de emprego em hospitais, entreguei currículos porta a porta e, ou diziam-me que procuravam pessoas com experiência, ou então nem respondiam, como aconteceu com a maioria dos currículos que enviei. Então, decidi vir para o Reino Unido porque a mãe do meu atual marido já estava cá há alguns anos, bem como as irmãs dele. Já conhecíamos o país por vir cá de férias e sempre gostei do ambiente.

Como decorreu todo este processo?
Em agosto de 2014, iniciei o pedido de registo na ordem dos enfermeiros inglesa, pois já estava a pensar emigrar para Inglaterra. Mas foi em dois ou três dias que tomei a decisão de vir efetivamente. A minha cunhada tinha ido a Portugal de carro e eu disse-lhe: “Acho que vou contigo para cima”. Assim foi. Meti uma mala dentro do carro, vim com eles e logo via o que se arranjava. Quando cá cheguei fui tratar da documentação toda para poder ficar e fui procurar emprego.

Sílvia Nunes após ter recebido o prémio

Sílvia Nunes

Como foi lidar com a barreira linguística?
Eu até me safava bem a ler inglês. Falar é que nem pensar, era muito difícil para mim. O meu marido pedia tudo e mais alguma coisa por mim, até que me disse que não ia fazer mais isso. Mesmo que fosse só um café, eu tinha que me desenrascar e pedir sozinha. Foi uma adaptação difícil, mas como tive ajuda dos meus colegas, fui conseguindo. Eles foram-me ensinando e ainda hoje continuam a explicar-me qual a melhor forma de escrever ou de dizer certas coisas.

Para além da barreira linguística teve alguma dificuldade de adaptação?
A legislação inglesa é diferente da portuguesa em muitas coisas, bem como na forma de trabalhar. O que não impede que nós consigamos exercer a nossa profissão da melhor forma que podemos e sabemos. Temos é que nos adaptar à legislação e regras de Inglaterra e, pelos vistos, parece que o fiz muito bem.

Qual foi o primeiro trabalho que teve em Inglaterra?
Comecei por fazer limpezas em casas particulares. Depois fui tomar conta de um senhor que tinha Parkinson e só mais tarde é que acabei por conhecer alguém que trabalhava num lar e acabei por ir para lá.

Como foi o seu percurso até chegar ao cargo de vice-gerente do lar de Ford Place?
Fui trabalhar para um lar perto do sítio onde moro, como auxiliar. Alguns meses depois, em junho de 2015, recebi a autorização da ordem dos enfermeiros de Inglaterra para poder trabalhar como enfermeira. E foi dentro do lar onde trabalhava que passei de auxiliar a enfermeira, o que foi muito bom porque eu já conhecia os residentes e o sistema. Facilitou o processo de adaptação. Em janeiro de 2016 fui promovida a gerente clínica da mesma instituição. Em agosto de 2016 saí e concorri para esta função de vice-gerente no lar Ford Place.

Como é o seu dia?
Aqui não há dias normais. Isso é que era bom [risos]. A minha função consiste em ser capaz de gerir o lar na ausência da gerente. Por isso, aqui trabalho em situações mistas pois há dias em que só trabalho no escritório e há dias em que trabalho no piso, como se diz aqui em Inglaterra, onde faço trabalho de enfermagem e estou em contacto com os doentes.

Quando estou com os doentes, faço a prestação de cuidados de enfermagem, que pode passar por administração de medicação, tratamento de feridas — quando as há, porque após formações intensivas conseguimos reduzir para quase zero o número de feridas adquiridas aqui no lar — cuidados de higiene, alimentação, enfim, todo o trabalho normal de uma unidade de cuidados de saúde.

Quando estou no escritório tenho um tipo de trabalho totalmente diferente, como auditorias, gestão de stocks, recrutamento — que é uma função da minha chefe, mas tenho vindo a ajudar para aprender um pouco mais — supervisão e orientação de staff. Muitas vezes saio também do lar para fazer a avaliação dos doentes que estão em processo de admissão pois temos de perceber se as necessidades e cuidados que eles precisam podem ou não ser facultados por nós.

Já formação cá é também muito constante. Temos formação quase todas as semanas, para tudo e mais alguma coisa. A avaliação é também algo constante, ainda para mais na posição onde estou que tem uma parte de gestão e onde tenho de fazer as demais avaliações e supervisões. Uma coisa que me deixa também muito contente é o facto de poder ajudar os meus colegas de trabalho a progredir na carreira deles da mesma forma que alguém um dia me ajudou a mim. Em suma, todos os dias há desafios que temos de superar. Se não houver desafios, a vida estagna.

Alguma vez se sentiu discriminada por ser portuguesa?
Não. De forma alguma, nunca fui descriminada por ser portuguesa.

A área de cuidados continuados sempre foi a sua primeira escolha?
Esta é uma das áreas que me interessa pois gosto de cuidar das pessoas, de as poder ajudar na reabilitação, de poder me despedir delas porque conseguimos fazer com que os nossos utentes possam regressar a casa. No entanto, se eu disser que trabalho num lar de idosos, as pessoas vão pensar que é um lar de idosos como em Portugal, o que não tem nada a ver. O trabalho neste lar é muito mais parecido com o de uma unidade de cuidados continuados e paliativos.

Quer as pessoas queiram, quer não, nós somos um povo muito brincalhão, muito bem-disposto e muito disponível para ajudar e para aprender.”

Quais as maiores diferenças entre um lar de idosos em Portugal e um lar de idosos em Inglaterra?
Em Inglaterra temos enfermeiros no lar 24 horas por dia pois temos residentes que precisam de vários cuidados continuados como aspiração de secreções. Temos também doentes com sondas naso-gástricas, sondas no estômago ou cateteres urinários. Com toda esta valência de cuidados, os residentes não têm de se deslocar aos hospitais, pois ao se deslocarem até podem apanhar uma infeção hospitalar, que é algo que não se quer, até porque depois podem trazer essa infeção para o lar e infetar toda a gente.

O que se pretende é que este trabalho comunitário seja feito o mais possível dentro da instituição e que não tenham de sair. Além disso, os médicos do centro de saúde local estão em contacto permanente connosco, tal como as equipas de saúde mental. Já em Portugal é totalmente diferente, pois o enfermeiro só está no lar algumas horas por dia.

Acha que ter tirado o curso em Portugal pode ter sido uma mais valia para o seu percurso profissional em Inglaterra?
Foi, sem dúvida que sim. A licenciatura em Portugal é muito completa pois os quatro anos de curso integram todas áreas de enfermagem. E tive também muito bons professores, muito bons estágios em serviços como medicina, ortopedia e até num centro de saúde, bem como ainda tive colegas de trabalho que me transmitiram todos os conhecimentos que tinham.

Já em Inglaterra, os cursos de enfermagem são específicos para cada área de atuação, pois aqui os enfermeiros apenas podem ser de adultos, pediátricos, obstetras ou de saúde mental.

Que medidas gostaria de levar de Portugal para Inglaterra?
Gostaria de levar toda a nossa abordagem enquanto portugueses. Quer as pessoas queiram quer não, nós somos um povo muito brincalhão, muito bem-disposto e muito disponível para ajudar e para aprender. Com estas nossas qualidades conseguimos transmitir felicidade às pessoas. Além disso, todo o nosso conhecimento e prática é bem-vindo aqui, e é por tudo isto que os nossos enfermeiros cá são todos muitos bons e são excelentes profissionais. Nós temos uma formação excelente e eu gostava que as universidades cá fizessem igual.

E de Inglaterra para Portugal?
Eu gostava de levar para Portugal o respeito pelo outro, sem sombra de dúvida. O respeito pelas outras pessoas, o respeito pelas outras profissões e pelo trabalho que cada um desempenha.

Tem acompanhado a greve dos enfermeiros?
Tenho acompanhado pela comunicação social apenas.

Qual é a sua opinião sobre a greve?
Prefiro não tecer comentários acerca da greve.

Já alguma vez pensou regressar? Se sim, quais as condições que gostaria de ter garantidas?
Já pensei em voltar para Portugal. Acho que toda a gente gostaria um dia de voltar para casa. Mas gostava de voltar e de poder ter um lar em Portugal como aquele tenho cá para poder cuidar das pessoas da forma que o fazemos aqui.

O que também levo é a forma de trabalhar, pois aqui é diferente. Trabalha-se mais em equipa, as pessoas respeitam-se bastante e há muito respeito pela dignidade humana.”

Já teve alguma oferta de trabalho para regressar a Portugal? 
Já, já tive.

Acha que o Brexit pode pôr em causa a sua carreira?
Neste momento o Brexit não é um problema. Tenho todo o apoio da empresa e dos diretores para continuar cá. Agora não se sabe o que vai acontecer…

E equacionaria emigrar para outro país?
Com esta história do Brexit nunca se sabe, mas para já não tenho isso em mente. Mas se tiver que ir, vou porque quem mudou de um país também muda para outro. Mas se o tiver de fazer talvez fosse para as Caraíbas porque já estou farta de frio [risos].

Que aprendizagens, enquanto enfermeira, irá trazer consigo desta experiência além-fronteiras?
Eu aqui já aprendi muito e continuo a aprender. Estou neste momento a fazer uma formação de coaching dentro da empresa, para progredir na carreira, e estou também a fazer uma formação de gestão e liderança. O que também levo é a forma de trabalhar, pois aqui é diferente. Trabalha-se mais em equipa, as pessoas respeitam-se bastante e há muito apreço pela dignidade humana. Em Inglaterra, por exemplo, é impensável tirar-se as grades e amarrar-se um doente à cama, por exemplo. Nós vamos sempre pela última opção possível de restrição.  Por isso, vamos a avaliar a pessoa para percebermos se as grades têm de ir para cima,. Avaliamos também o porquê do comportamento do doente e se em última análise o problema for mesmo a cama, tiramos a estrutura e o colchão fica no chão. Assim já não há risco de o doente cair.

Em Portugal, por exemplo, há também a tendência de se colocar uma sonda naso-gástrica se a pessoa deixar de comer. Aqui não, se a pessoa não quiser comer, tem de se perceber o porquê de a pessoa não querer comer. Avaliamos o estado mental da pessoa e a razão porque está a tomar esta posição. Se, por exemplo, a pessoa tiver um diagnóstico de doença mental, em que a sonda naso-gástrica não é a melhor opção, alimentamos a pessoa da forma como pudermos, até não dar mais.

Aprendi também que há coisas tão simples que podemos fazer para melhorar a vida de um residente. Podemos usar a aromoterapia para descobrir qual o cheiro que aquela pessoa gostava mais quando era jovem e, se a pessoa gostar de lavanda, colocamos tudo o que é cremes de lavanda. Se a pessoa gostava de ouvir música rock, então colocamos um rádio no quarto com música rock.

Estimulamos também os nossos residentes a mexerem-se e a andarem nem que seja com um andarilho, ou com um membro do nosso staff atrás com uma cadeira de rodas. Assim, a pessoa vai andando e, quando está cansada, senta-se. E depois levanta-se e volta a caminhar.

Há outras coisas que também utilizamos para minimizar quedas, pois muitas vezes os idosos são teimosos e gostam de fazer tudo sozinhos. Por isso, colocamos umas luzes com sensores dentro da sanita. Assim, se não chegarem ao interruptor a tempo não ficam às escuras. O sistema de campainhas também pode ser adaptado. Se já não tiverem motricidade fina nos dedos para tocarem uma campainha, utilizamos um botão, tipo o dos concursos, onde se for preciso até podem dar um murro.

Que conselho daria a um enfermeiro ou enfermeira em início de carreira?
Diria para seguirem os seus sonhos. Se tiverem que se desviar um bocadinho do caminho para chegar ao caminho final — que foi o que eu fiz — façam-no. As pessoas devem seguir os seus sonhos e devem acreditar em si próprias e lutar pelo que acreditam.

Já venceu o prémio de melhor enfermeira regional e de melhor enfermeira de Inglaterra. O que é que lhe falta, em termos profissionais, para se sentir totalmente realizada?
Vou ser franca:  pensava que já estava realizada até saber da existência de prémios (risos). Por isso, este prémio já foi extra ao que tinha pensado para a minha vida.

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