Wade Robson e James Safechuck são duas das alegadas vítimas que, em “Leaving Neverland”, o documentário polémico da HBO, revelaram ter sido abusadas sexualmente por Michael Jackson. Os relatos são fortes, cruéis e parecem não deixar margem para dúvidas: o rancho privado e luxuoso do rei da pop era mais do que a representação inocente e juvenil da Terra do Nunca, das histórias de Peter Pan.

É que apesar de ter várias salas de jogos, lojas com doces ou um role de atividades divertidas, Neverland tinha também camas escondidas e armadilhas nas portas para servirem de alerta caso alguém se aproximasse da suite do cantor. Já as piscinas e os jacuzzis eram os locais habituais onde Jackson forçava várias crianças a sexo oral.

Durante o documentário, os dois contam como o músico manipulava a família não só com roupas e acessórios de luxo, mas também com a possibilidade de o poderem acompanhar em tournées pelo país. O objetivo? Aproximar-se dos pais e fazer com que não questionassem o tempo a sós que Michael Jackson passava com as crianças.

Apesar de James Safechuck se ter recusado a testemunhar em defesa do cantor durante o julgamento, que decorreu entre 2004 e 2005, Wade Robson aceitou por medo de represálias e garantiu nunca ter sido abusado pelo músico durante o tempo em que esteve no rancho.

As revelações chocantes do documentário polémico sobre Michael Jackson

O facto de não se sentir preparado para revelar o que lhe tinha acontecido terá sido uma das justificações fundamentais. “A ideia de contar a verdade e toda a gente ficar a saber o que tinha acontecido era uma ideia que, na altura, não fazia sentido na minha cabeça. Muito por achar que, ao fazer aquilo, estaria a destruir a minha vida”, revelou.

Macaulay Culkin, que ficou conhecido depois do sucesso de “Sozinho em Casa”, foi uma das crianças que viveu com Michael Jackson no rancho Neverland. Ao contrário de Robson e Safechuck, Culkin sempre defendeu o cantor e diz que a relação que ambos mantinham era perfeitamente normal.

Em 2005, durante o julgamento, o ator, na altura com 25 anos, admitiu dormir na cama de Jackon mas insistiu que nada de sexual aconteceu entre os dois e que os pais sabiam da sua relação com a estrela da pop.

“Eles [os pais] nunca viram problema nenhum naquilo e sabiam, perfeitamente, que eu estava no quarto do Michael”. Citado pela “CNN”, o ator recorda os momentos em que o pai ia ao quarto de Michael Jackson para acordá-lo, salientando que em momento algum viu alguma coisa estranha.

Macaulay Culkin sempre defendeu o cantor e diz que a relação entre os dois sempre foi normal

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Depois das primeiras declarações, os advogados responsáveis por preparar a acusação lançaram a hipótese de Michael Jackson ter abusado do ator durante o sono — hipótese que Culkin sempre refutou.

“Tanto quanto sei, ele nunca me molestou. E acho essa hipótese muito improvável. Creio que me aperceberia se uma coisa dessas me estivesse a acontecer. E eu o Michael tínhamos uma relação muito próxima em que nos entendíamos um ao outro”, explicou na altura.

Camas escondidas, casamentos a fingir e vidros espelhados. Assim era o rancho de Michael Jackson

Agora, cerca de 14 anos depois, o ator voltou a falar da sua relação com o músico e mantém a mesma versão dos factos. A propósito do lançamento de “Leaving Neverland”, Macaulay Culkin foi convidado por Michael Rosebaum para um episódio de “Inside of You” — o podcast onde são convidadas várias figuras públicas a falar sobre a sua vida e as suas inseguranças.

Quando confrontado com a informação de que uma das funcionárias do rancho teria visto Michael Jackson a meter a mão dentro das calças de Culkin, o ator revelou-se incrédulo. “Não sou capaz de acreditar que estas pessoas andassem a dizer ou a pensar coisas destas a meu respeito.”

A estrela de "Sozinho em Casa" confirmou a existência de várias armadilhas perto do quarto de Jackson

“Ao final do dia, é quase sempre fácil dizer que era uma relação estranha, mas não era. Porque fazia sentido. Éramos amigos. E para mim era tão normal… Sei que é um assunto muito importante para toda a gente mas, para mim, era apenas uma amizade normal”, explicou durante o episódio.

Apesar de tudo, o ator confirmou a existência de vários engenhos estrategicamente colocados a caminho dos aposentos de Michael Jackson — o que corrobora os testemunhos avançados por Wade Robson e James Safechuck no documentário.

Havia uma espécie de objetos que, se alguém se estivesse a aproximar das portas, faziam um som tipo ‘ding-dong, ding-dong’. Sim, era uma espécie de alarme ou assim”, continuou.

Escândalo Michael Jackson. Mãe de uma das alegadas vítimas dançou quando o cantor morreu

Em entrevista à revista “Business Insider”, Dan Reed (“The Valley”), o realizador do documentário polémico, revelou não ter tentando convidar Macaulay Culkin para contar a sua versão dos factos, já que todos os seus depoimentos até à data negavam qualquer tentativa sexual por parte do rei da pop.

“No final de contas, sabia que o Macaulay já tinha feito vários comentários a defender o cantor e a refutar todas as acusações de que era alvo. Não estou no negócio de desmascarar seja quem for. Acho que deixámos muito claro no documentário que eles negam, até hoje, que alguma fez foram molestados e não vou ser eu que os vou fazer mudar de ideias”, defendeu.

“Leaving Neverland”, dividido em duas partes de duas horas cada, já está disponível através da plataforma de streaming da HBO Portugal.