Enrique Arce. “Se o sucesso de ‘La Casa de Papel’ me apanhasse com 21 anos estaria morto”

Mais conhecido como Arturito, o ator estreou-se como romancista, diz sentir-se mais português do que espanhol e é fã de cozido à portuguesa.

Enrique Arce estreou-se como escritor com o romance "A Grandeza das Coisas Sem Nome"

Samuel Costa/MAGG

É capaz de o reconhecer como Arturito ou Arturo Román, o nome da personagem que interpreta na série “La Casa de Papel” e a verdade é que já se tornou numa espécie de segunda identidade de Enrique Arce (“Knightfall”), a julgar pela quantidade de pessoas que o chamam por esse nome.

O ator espanhol fez parte de séries como “Físico-Química” ou “Periodistas” e prepara-se agora para um papel de grande relevância no próximo filme da saga “Exterminador Implacável”. Tudo isto, claro, enquanto grava a terceira temporada de “La Casa de Papel” que, desta vez, será produzida exclusivamente pela Netflix.

Algures durante todo este processo, Enrique Arce virou-se para as palavras ou, mais especificamente, para a criação de histórias e de mundos novos e complexos como forma de passar uma mensagem.

“A Grandeza das Coisas Sem Nome” (editado em Portugal pela Esfera dos Livros e à venda por 20€) é o primeiro romance do ator que diz não se tratar de uma história autobiográfica. No entanto, garante que há ali uma parte de si, até pela altura negra em que o livro surge — depois de uma briga num bar que o deixou desfigurado.

A propósito da edição do seu primeiro romance em Portugal, a MAGG foi conhecê-lo e ficou a saber como Arturito vai mudar na nova temporada de “La Casa de Papel”. O ator conta-nos também como foi lidar com o sucesso da série espanhola e como evitou uma multa por uma infração na estrada depois de um agente o ter reconhecido.

Mas ainda houve tempo para falar do amor por Portugal, do desejo de voltar a comer cozido à portuguesa e de como várias vezes lhe perguntam se o livro é mesmo dele.

A explicação é simples, segundo Enrique. “As pessoas acham que se fazes uma coisa bem, não podes fazer outra com a mesma qualidade.”

O livro é muito pesado e, ao mesmo tempo, libertador. Apesar de dizer que não é autobiográfico, há ali uma parte de si?
Claro, há sempre uma parte de mim em cada história que conto mas esta surgiu numa altura especialmente negra, onde a minha vida parou e me passou ao lado. Eu estava à procura de trabalho como ator e, naquela altura, envolvi-me numa luta num bar e fiquei totalmente desfigurado. Depois disso não podia trabalhar nem se quer procurar oportunidades e fazer castings. Foi uma estupidez mas, ao mesmo tempo, uma bênção.

O facto de estar bêbado também não ajudou e meti-me numa briga estúpida. Foi aí que percebi que tinha de parar e baixar os braços porque nem sempre temos controlo sobre o que acontece

Como é que chegou a esse ponto?
Tinha muito raiva acumulada no meu interior. Além de ter pouco dinheiro, a minha autoestima estava muito em baixo e não tinha estabilidade nenhuma. Além disso, bebia muito e, naquele dia, simplesmente aconteceu. Envolvi-me numa luta e acabei espancado.

Estava a tentar castigar-se por alguma coisa?
Não, mas foi uma forma de deixar sair toda a raiva que estava acumulada dentro mim. O facto de estar bêbado também não ajudou e meti-me numa briga estúpida. Foi aí que percebi que tinha de parar e baixar os braços porque nem sempre temos controlo sobre o que acontece — e acho que foi isso que eu falhei em perceber. Queria estar em controlo de tudo.

Quando se tenta controlar as coisas, e normalmente isso acontece por uma questão de ego, acabamos por nos tornar no nosso próprio inimigo

Chegou a um ponto em que não tinha vontade de andar pela rua porque havia muitos espanhóis que me conheciam e eu fugia sempre que me abordavam. Depois dessa luta comecei a fazer-me perguntas que nunca tinha feito antes e isso levou-me a um caminho de regresso a mim mesmo. À minha identidade. Foi também aí que senti uma voz interior que me dizia “escreve, começa a escrever porque é um talento natural que tu tens” — o que é curioso porque o meu pai também me dizia isso muitas vezes.

Fala muito na ideia de aceitarmos que nem sempre estamos em absoluto controlo. É algo que preserva muito para si?
Sim e valorizo muito. Aliás, é disso que falo no livro — da necessidade de não fazermos nada. De deixar que o universo faça as coisas por nós. É importante deixar que as coisas aconteçam.

Antes do seu primeiro romance, Enrique estava frustrado e envolveu-me numa rixa num bar que o deixou desfigurado

Samuel Costa/MAGG

Mas porque é que essa é uma das mensagens fundamentais do seu livro e da sua vida?
Quando se tenta controlar as coisas, e normalmente isso acontece por uma questão de ego, acabamos por nos tornar no nosso próprio inimigo. Ter a necessidade de controlar tudo e ainda estar à altura daquilo que os outros esperam de nós é muito prejudicial para o desenvolvimento de cada um.

Acho que há qualquer coisa que está ao leme de tudo o que nos acontece — seja aquele novo trabalho no qual somos muito bem sucedidos ou a boa relação com a família — e isso é o fundamental para encontrarmos a nossa linha de felicidade

A fé é uma forma de liberdade?
Sim, e pode ser a fé num Deus, no universo ou em qualquer outra coisa. Pode ser uma fé assente em mim mesmo e na capacidade que eu tenho, enquanto indivíduo, de me superar. Ou até mesmo no amor. Não tem necessariamente que ser nas palavras que a religião nos ensinou.

É uma pessoa muito ligada à espiritualidade?
Cada um tem a sua própria espiritualidade e eu não quero dizer o que é certo ou errado mas, para mim, a felicidade passa sempre, independentemente de seres religioso ou não, pela consciência que tens do mundo que te rodeia. Acho que há qualquer coisa que está ao leme de tudo o que nos acontece — seja aquele novo trabalho no qual somos muito bem sucedidos ou a boa relação com a família — e isso é o fundamental para encontrarmos a nossa linha de felicidade.

Ainda lhe é difícil deixar as coisas acontecerem?
Agora não, zero. Não tenho desejo nenhum de controlar o que quer quer que seja. Aprendi a lição e, atualmente, a minha situação e a forma como vivo a minha vida é completamente diferente da forma como a vivia há seis anos.

Quando as coisas acontecem, sejam elas boas ou más, eu tento aceitá-las com a mesma…. como se diz?

Mas o sucesso todo de que fala aconteceu assim que deixei de o procurar. Quando eu deixei de querer ser conhecimento, de ser famoso foi quando isso aconteceu. Foi de loucos [risos]

Naturalidade?
Sim. E com a consciência de que é uma questão de polaridades — se hoje uma situação é muito boa, amanhã pode ser muito má.

“Ao funeral de um ente querido trazemos uma coroa de flores para prestar homenagem ao morto não uma de louro para nos vangloriarmos”. Esta é uma passagem fortíssima do livro. É um bocadinho da sua vivência e do sucesso que tem enquanto ator que está nestas frases?
Curiosamente o papel de Arturito veio depois de o livro sair. Mas o sucesso todo de que fala aconteceu assim que deixei de o procurar. Quando eu deixei de querer ser conhecido, de ser famoso, foi quando isso aconteceu. Foi de loucos [risos]. Mas sim, nessa cena em específico, o Samuel [a personagem principal do livro] quer provar ao pai que tem muito êxito e é nesse momento que o pai lhe responde com essas palavras.

Isto porque o Samuel acha que o mais importante é a fama, os prémios e o reconhecimento. Mas engana-se e descobre isso através de todas as relações pessoais que vai cultivando ao longo da história.

Quando tempo demorou a escrever o livro?
59 mil minutos, mil horas [risos]. A sério. E só sei isto porque o Word diz quanto tempo estás investido num simples documento.

E qual foi a reação dos que lhe são mais próximos quando lhes contou que ia escrever?
O meu pai sempre me disse que eu era um escritor que, por acaso, aprendeu a representar. Quando lhe contei disse-me: “Viste? Disse-te tanta vez que o que tinhas de fazer era começar a escrever”. Ficou muito contente porque acha que, finalmente, posso ser aquilo que estava destinado a ser.

Posso dizer que se o sucesso de ‘La Casa de Papel” me apanhasse com 21 anos estaria morto. Ter-me-ia destruído por completo.

Mas já havia quem soubesse do seu talento para as palavras?
Sim, muita gente. Sempre gostei de escrever e eram várias as vezes em que publicava no Facebook e muitas pessoas comentavam. Perguntavam-me porque é que eu não escrevia mais, que era uma pena não escrever mais coisas porque tinha uma escrita muito boa.

Hoje diz-se uma pessoa muito mais calma — mesmo no trânsito

Samuel Costa/MAGG

É algo que já vem desde miúdo, altura em que recebi muitos prémios literários. Mas a certa altura deixei de o fazer. Porquê? Não sei. Só voltei quando senti que estava apto a contar uma história que merecia ser contada.

Tem muitas histórias para contar?
Tenho algumas, mas preciso de tempo e de um período de silêncio mental para fazer isso. Agora sou obrigado a passar muito tempo dentro de um avião… ando sempre para cima e para baixo. O que é ótimo porque também preciso de investir na minha carreira profissional enquanto ator.

Quando tiver tempo, voltarei a escrever.

O fenómeno “La Casa de Papel”. “Não queria nada fazer aquela série”

Como foi entrar em “La Casa de Papel”?
Posso dizer que se o sucesso de ‘La Casa de Papel” me apanhasse com 21 anos estaria morto. Ter-me-ia destruído por completo.

Não teria a capacidade de lidar com o sucesso?
Acho que acabaria destruído, principalmente porque naquela altura acreditava no sucesso como uma das coisas mais importantes que podemos desejar. Agora é uma palavra vazia de conteúdo.

Numa entrevista que dei a uma rádio espanhola, houve um jornalista muito engraçado que me disse: “Enrique, eu conheço-te muito bem. És um grande ator, gosto muito de ti e o livro é espetacular. Foste mesmo tu que o escreveste? Não é possível… é de um nível literário muito grande.”

Mas o sucesso foi bom para ajudar a vender este livro. Ou não?
Certamente, para algumas coisas é boa. A verdade é que este livro é anterior a “La Casa de Papel” mas, como saiu depois, teve muita atenção por parte dos meios de comunicação e isso beneficiou o livro.

As minhas circunstâncias económicas também são melhores, mas a minha vida não mudou nada por causa do sucesso.

Ponderou não assinar este livro com o seu nome por ter medo que alguém dissesse que não era seu?
Sim, é inevitável. Numa entrevista que dei a uma rádio espanhola, houve um jornalista muito engraçado que me disse: “Enrique, eu conheço-te muito bem. És um grande ator, gosto muito de ti e o livro é espetacular. Foste mesmo tu que o escreveste? Não é possível… é de um nível literário muito grande.”

Virei sem olhar, sem respeitar os sinais de trânsito e foi quando vi um carro da polícia atrás de mim. “Foda-se, mais uma multa”, pensei e comecei a tirar todos os papeis necessários. O agente olha pela janela e disse-me: “Tu és o Arturito de ‘La Casa de Papel’, não és?

Isto porque as pessoas acham que se fazes uma coisa bem, não podes fazer outra com a mesma qualidade.

Fica irritado quando lhe perguntam isso?
Vou assinar o próximo livro com um pseudónimo [risos]. Não, não me irrita. Já não me irrito com nada, na verdade. Antes sim, irritava-me facilmente até nas pequenas coisas, como quando estava a conduzir e havia muito trânsito.

Agora não.

Como é que foi viver o sucesso inicial de “La Casa de Papel” assim que esta chegou à Netflix?
Conto muitas vezes esta história porque é hilariante [risos]. Estava com um amigo, que também é ator, em Hollywood, dentro do carro quando, a certa altura, ele me disse para virar na rua seguinte.

Virei sem olhar, sem respeitar os sinais de trânsito e foi quando vi um carro da polícia atrás de mim. “Foda-se, mais uma multa”, pensei e comecei a tirar todos os papéis necessários. O agente olha pela janela e diz-me: “Tu és o Arturito de ‘La Casa de Papel’, não és? Estava a olhar para ti desde lá de trás e bem que me parecias tu.”

Foi muito engraçado, até porque me safei da multa [risos].

Nunca levei o Arturito a sério, mas não quer dizer que não tenha sido divertido. Às vezes as coisas funcionam muito bem quando não têm assim tanta força.

Lembra-se da sensação de ver que a série tinha ganho uma segunda vida depois de ter estado em Espanha e não ter tido grande sucesso?
Foi uma coisa estranha que não se explica assim tão facilmente. Porque é que em Espanha não correu bem e no mundo todo sim? Não sei… simplesmente aconteceu e tornou-se viral. Se soubéssemos porque é que uma coisa funciona muito bem, faríamos sempre assim para que nunca corresse mal.

Mas ninguém sabe e isso é mágico. Desde então que toda a gente me passou a chamar Arturito sempre que me viam na rua.

O que achou da primeiro vez que leu a personagem Arturito?
Odiei, não gostei nada.

Ninguém diria, a julgar pela sua prestação.
Não queria nada fazer aquela série. Aborrecia-me pensar na ideia de fazer mais uma série espanhola, mas a verdade é que foi com ela que várias portas se abriram para mim.

Sei que é uma pergunta ingrata, mas faz sentido voltar à história de “La Casa de Papel”?
Se a história for boa, sim. Se for um bom complemento e não atraiçoar a ideia original, melhor. Sei onde está a querer chegar e eu próprio pensava assim quando via “Breaking Bad”. Pensava sempre: “Mas o que é que estes gajos vão fazer depois? A história é muito boa.” E depois foi ficando cada vez melhor.

Espero que aconteça a mesma coisa com a nova temporada de “La Casa de Papel”.

Para a terceira temporada de "La Casa de Papel", Enrique Arce promete mudanças drásticas para a sua personagem

Samuel Costa/MAGG

E o que é que o Arturito pode mostrar mais do que aquilo que já mostrou?
Não posso falar nisso [risos].

Que fique registado que tentei.
Posso dizer-lhe que muda muito.

Um bocadinho como o Enrique?
Mais do que imagina, mas ficamos por aqui [risos].

É daqueles atores que tem facilidade em sair da personagem depois de acabar as gravações?
Sim, especialmente no caso de Arturito porque nunca o levei a sério. Foi provavelmente a personagem que menos trabalhei psicologicamente. Brincava com ele mas não mergulhava no seu subconsciente como geralmente faço com personagens mais complexas.

Nunca levei o Arturito a sério, mas não quer dizer que não tenha sido divertido. Às vezes as coisas funcionam muito bem quando não têm assim tanta força.

Hoje queria comer cozido mas não consegui. Não passa de amanhã [risos].

O Enrique fala muito bem português, como é que isso…
Aconteceu? Não sei. Estive cá dois meses, em 2007, e depois de oito semanas falava como estou a falar agora. É como se numa vida passada tivesse sido português e hoje sinto que tenho mais de Portugal do que de Espanha.

Nunca teve aulas?
Não, nada. E em Madrid também não tenho ninguém com quem falar… simplesmente aconteceu, assim [estala os dedos]. De forma espontânea e nada planeada. E quando há uma grande afinidade é mais fácil aprender. Apaixonei-me por este País em 2007 e adorei tudo o que encontrei cá.

Adoro a tradição, o fado e a cidade. Também gosto do Porto mas Lisboa fascina-me um bocadinho mais até mesmo pela gastronomia. Gosto muito de bacalhau à Brás, adoro caldo verde e o cozido à portuguesa é incrível. Hoje queria comer cozido mas não consegui. Não passa de amanhã [risos].

Texto de Fábio Martins, fotografia de Samuel Costa.
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