“Temos de provar muito mais que somos capazes porque normalmente os homens são desconfiados e pensam: ‘Mas como é que vem aqui uma mulher dizer-me quais são os problemas do meu carro?’. Nestas situações tenho de lhes explicar as coisas, ou seja, nós mulheres temos de explicar muito mais e fazer sentir muito mais ao cliente que pode confiar numa mulher que está à frente de uma oficina e que percebe tanto como um homem”.

A frase é de Dália Lopes, 43 anos, natural da Venda do Pinheiro. Empresária e chefe de uma oficina de automóveis — A Clínica do Automóvel — há dez anos, emprega cinco pessoas no total. Mas a aventura neste mundo, que é maioritariamente ocupado por homens, já vem de há muito tempo.

Tudo começou quando ainda era uma criança. O pai era mecânico e proprietário de uma oficina de automóveis em conjunto com outro sócio. Desde muito nova que Dália Lopes, durante o mês de agosto, ia para lá atender os telefonemas, enquanto a funcionária habitual estava de férias. “Foi desde aí que comecei a ter o bichinho deste mundo dos automóveis e do secretariado”, afirma.

Dália Lopes tinha 12 anos quando o pai se separou da sociedade e acabou por abrir um negócio próprio. “Perguntou-me se queria seguir com ele ou se queria continuar os estudos e eu decidi ir trabalhar com o meu pai. Entretanto, continuei os estudos à noite, fiz um curso de gestão de empresas em Lisboa — na altura em horário noturno — e trabalhava durante o dia.”

Carros elétricos, ar condicionado automóvel e mecatrónica foram algumas das formações que Dália Lopes realizou

A empresária natural da Venda do Pinheiro revela que foi nesta altura que o gosto pelo mundo dos automóveis foi crescendo ainda mais. Mais tarde, o pai reformou-se e foi ela quem ficou à frente da oficina. Pelo meio, em regime de part-time, ainda teve um restaurante em conjunto com a irmã. “Mas o meu bichinho foram sempre os automóveis.”

Depois há aquelas situações em que dizem ‘mas você é mulher. Como é que sabe isso?’, em que somos tratadas com uma certa desconfiança”

Depois de ter ficado na chefia do negócio, Dália Lopes foi “obrigada” a compreender e perceber de tudo. “Para poder mandar e orientar, tenho de saber fazer primeiro e decidi fazer algumas formações para complementar a experiência prática que já tinha.” Carros elétricos, ar condicionado automóvel e mecatrónica foram algumas das formações que realizou. “Sei fazer um pouco de tudo e se for preciso faço as coisas mais leves. Faço as revisões rápidas, as pastilhas, os travões, etc.. Quando são coisas mais graves, que necessitam de mais técnica, costumo passar aos mecânicos e são eles que o fazem.”

A chefe de oficina considera que existem dois tipos reações e de aceitação por parte dos clientes. “Há clientes que acham muito engraçado chegarem aqui e verem uma patroa em vez de um patrão e ser ela a decidir o que é que se vai fazer no carro, quando é que se vai fazer, os custos que isso vai envolver. Por exemplo, trazem aqui um carro e explicam que está a fazer um barulho em tal sítio e está aqui uma mulher a dizer que aquele barulho é, por exemplo, a suspensão de trás que precisa de levar um amortecedor. Depois há aquelas situações em que dizem ‘mas você é mulher. Como é que sabe isso?’, em que somos tratadas com uma certa desconfiança.”

Dália Lopes entende ainda que é dada uma menor credibilidade às mulheres neste ramo, quando ainda não existe confiança no seu trabalho. “Mas na prática acho que até confiam em nós [mulheres]”, concluiu.

“Descarrego o teu camião se me deres um beijo”

Tinha 18 anos quando veio para Portugal. Começou por trabalhar na área da restauração. Desejou ter um negócio próprio e conseguiu. Foi proprietária de um café até ao dia em que percebeu que a restauração era uma “escravatura” e acabou por vender o espaço. Há cerca de três anos decidiu, por incentivo de uma pessoa com quem tinha uma relação, e também pela paixão pelos camiões, tirar a carta de pesados. Esta é a história de Millany Scagliarini, 33 anos, motorista de pesados. Ser mulher nesta profissão é muito gratificante e merece muito respeito”, diz à MAGG.

Há cerca de três anos Millany Scagliarini decidiu, por incentivo de uma pessoa com quem tinha uma relação e também pela paixão pelos camiões, tirar a carta de pesados

“Não é fácil, mas amo a minha profissão e faço-a com gosto. Sou muito feliz. Conheço vários países, culturas, costumes, comidas, pessoas.” Millany Scagliarini, que está na profissão há três anos, faz de tudo: carregar e descarregar o camião, baixar paletes, enganchar, desenganchar e chegar a horas ao cliente. “Depois é tomar duche num serviço que não é adequado para uma mulher, adaptar-me às condições, chegar ao cliente e ser tratada como um ser humano ou, então, ser recebida por alguém sem paciência.”

Há sempre umas piadinhas. Uma vez, numa empresa na Holanda, um carregador disse-me ‘Descarrego o teu camião se me deres um beijo'”

As condições que encontra na hora de tomar banho e de fazer a sua higiene pessoal não são as melhores e considera mesmo que este é o lado menos positivo de uma profissão que parece que foi pensada apenas para o sexo masculino. “Encontrar uma casa de banho boa é raro e não são adequadas para uma mulher. São mistas, pequenas e sem higiene. Quando há casas de banho separadas por sexo, mesmo assim, não oferecem as condições para uma mulher se depilar, secar o cabelo, isto é, poder ser mulher numa profissão que tem muitos mais homens do que mulheres.”

Porque é que as mulheres vivem mais do que os homens

Ainda assim, a motorista de pesados residente em Loures reconhece que possui algumas limitações por ser mulher, mas que faz tudo o que um homem faz. “Posso demorar mas faço. Nós mulheres estamos a conseguir, pouco a pouco, o nosso espaço. Não que uma mulher tenha que provar algo a alguém, mas penso que é muito gratificante termos a nossa independência.”

Por outro lado, admite por experiência própria, que as mulheres da profissão ainda são alvo de assédio. “Há sempre umas piadinhas. Uma vez, numa empresa na Holanda, um carregador disse-me ‘Descarrego o teu camião se me deres um beijo’. Respondi-lhe que não precisava de um homem para fazê-lo e quando terminei de descarregar, contei ao chefe dele o que se tinha passado para que a próxima mulher não passasse por uma situação idêntica e para aprender a ter respeito por nós.”

Uma “luta constante e diária” para provar que é capaz

Antes de ir parar ao mundo das inspeções automóveis, onde já trabalha desde 2003, Marisa Moreira, 46 anos, passou pela Força Aérea Portuguesa e ainda pela componente administrativa. Mas vamos ao início. Residente em Lisboa e natural de Angola, foi na Mealhada, distrito de Aveiro, onde chegou aos 3 anos de idade, que a agora inspetora de automóveis passou grande parte da sua infância e juventude. Ia ajudando os pais num negócio na área da restauração enquanto terminava o 12.º ano. No final do ensino secundário, não conseguiu entrar na universidade, para a licenciatura em Direito.

“Não consegui entrar e então lembrei-me de contactar pessoas que conhecia e que estavam na Força Aérea Portuguesa. Acabei por ficar”, começa por contar à MAGG. “Fiz um curso militar de mecânica de material aéreo, acabei por ser mecânica de material aéreo onde estive cerca de cinco anos e fui das primeiras mulheres na área. Posso dizer que foi nessa altura que entrei em profissões em que há mais homens, digamos assim.”

Saiu da Força Aérea porque o contrato estava a terminar. Foi então que começou a trabalhar num centro de inspeções, onde está até hoje. “Tinha um familiar que estava a chefiar um dos centros e deu-me a oportunidade de ir para lá, mas com a função de administrativa. Exerci-a durante sete anos. Mas não aguentei [estar como administrativa]. Sentia que não era o meu lugar. Não estava bem e a parte administrativa não me dizia nada.”

Antes de ser inspetora, Marisa Moreira esteve sete anos a trabalhar como administrativa na empresa onde se encontra atualmente

Marisa Moreira recorda que havia colegas de trabalho que lhe perguntavam muitas vezes “Porque é que não tiras o curso de inspetora?”. E assim fez. “[Para ser inspetora] tinha de tirar todas as cartas de condução. Foi o que fiz e realizei o curso. Como vinha da área da mecânica de aviões, sentia-me muito à vontade e correu tudo lindamente.”

Há aqueles que acham confortável serem avaliados por uma mulher, porque pensam que não sou tão agressiva”

A inspetora de automóveis considera que, agora, está “no sítio certo”, numa profissão que a faz feliz. “Estou no sítio certo, não só porque tento ser a melhor profissional possível, mas também pelo lado humano da profissão. Adoro o atendimento ao público e tento que as pessoas saiam daqui satisfeitas, mesmo que levem uma ficha de reprovação. Nestes casos tento explicar o porquê e o lado positivo de o ter feito. Esta componente humana dá-me um gozo estrondoso”.

Ainda assim, sente que teve de provar que era merecedora da credibilidade por parte dos clientes, tal como dos  colegas de profissão. “Por exemplo, os clientes dizerem que duvidam que o carro esteja a ser bem avaliado. Nessas situações tenho de chamar o chefe de centro para ele explicar o que faria no meu caso. Acaba por dizer o mesmo e aí o cliente já diz ‘ah, afinal até percebe disto'”, exemplifica.

“É uma luta constante e diária e sinto isso em dois âmbitos. Primeiro, no seio da equipa de trabalho — mesmo que agora já não seja tanto assim — em que tive de provar, para poder entrar no mundo deles, que mesmo sendo mulher também era capaz. E depois por parte do público: há aqueles que acham confortável serem avaliados por uma mulher, porque pensam que não sou tão agressiva. Por outro lado, há quem pense que as mulheres são mais duras porque precisam de se afirmar.”

Marisa Moreira teve também de demonstrar que conseguia assumir a parte física que a profissão exige. “Há um trabalho de inspeção que é mais físico, como o ter de abrir o capô, ter de me baixar para ver o carro por baixo, ver pneus, sujar as mãos. Tive de mostrar que não me intimidava com essas situações, que fazia tudo tal e qual como eles e também mostrar-lhes que, por vezes, tal como os homens, também tenho dúvidas e que preciso de ajuda.” Atualmente, fruto da confiança, da credibilidade e do conhecimento que adquiriu ao longo dos anos, admite que já muitos colegas e clientes lhe pedem, muitas vezes, a sua opinião.

“Cuidado! Temos uma senhora connosco”

“Ser mulher nesta profissão é um orgulho, mais houvessem para equilibrar as equipas de coordenação de segurança em obra. Temos muitas vezes de ouvir palavrões e logo a seguir alguém diz ‘Cuidado! Temos uma senhora connosco’, ou ‘desculpe'”. As palavras são de Mayra Romão, 39 anos, coordenadora de segurança em obra e técnica superior de segurança no trabalho.

Desenvolver o plano de segurança e saúde para a execução da obra, verificar o cumprimento do plano de segurança e de saúde, analisar as causas dos acidentes graves que ocorram, controlar e coordenar a correta aplicação dos métodos de trabalho para garantir que a segurança e a saúde dos trabalhadores não sejam postas em causa. Estas são algumas das muitas funções que Mayra Romão tem de assegurar, aquando a realização das visitas de acompanhamento às obras.

Mayra Romão, de 39 anos, é coordenadora de segurança em obra e técnica superior de segurança no trabalho

Natural da Venezuela, tinha 3 anos quando veio para Portugal. Estudou e viveu em Soure, distrito de Coimbra. Entre muitas outras coisas, Mayra Romão licenciou-se em Química Industrial, fez Erasmus em Clermont Ferrant, em França, onde viria também a estagiar na área da fotoquímica e espectroscopia molecular. Só mais recentemente é que tirou o certificado de aptidão profissional de formadora e de técnica superior de segurança no trabalho, profissão que exerce há um ano.

Não é fácil estar nesta profissão. Já me senti discriminada em relação aos meus camaradas masculinos. Somos várias vezes assediadas e temos que ter uma postura mais masculina para sobreviver”

Em 2013, decidiu deixar Coimbra e foi viver para Oeiras, em Lisboa. “Decidi deixar o certo e abraçar o incerto, despedi-me, mudei de cidade, posicionei-me como profissional num mercado competitivo como é o de Lisboa e percebi que há muito espaço para fazer prosperar empresas em Portugal.”

Foi assim que, em junho de 2015, fundou a empresa MWL-Formação e Consultoria, aliando a paixão pela área da formação profissional com a segurança e a saúde no trabalho. “Para garantir a sustentabilidade da empresa decidi desempenhar a prestação de serviços como técnica e coordenadora de segurança em obra.”

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Mayra Romão não sente que lhe dão menos credibilidade na profissão por ser mulher. “Sinto que há um profundo desconhecimento da importância do investimento na área da segurança e saúde no trabalho e sinto que todos e todas os profissionais desta área têm uma tarefa muito desafiante. Isso é algo que tem de ser provado com muito profissionalismo e responsabilidade, pois as nossas ações podem proteger muitas vidas”, conclui.

Assédio, rumores e discriminação por ser mulher

“Não é fácil estar nesta profissão. Já me senti discriminada em relação aos meus camaradas masculinos. Somos várias vezes assediadas e temos que ter uma postura mais masculina para sobreviver. Existem constantemente rumores e falatório sobre as mulheres e somos classificadas de duas maneiras: ou fufas ou putas. É a realidade”, conta Júlia (nome fictício), de 34 anos, militar da área da eletrónica. Pediu para não ser identificada com medo de represálias.

O trabalho de Júlia consiste, muito resumidamente, e conforme a unidade onde está, em manter e reparar equipamentos eletrónicos ou dar formação a outros militares. “Neste ramo, somos poucas mulheres em relação aos homens.”

Antes de ter entrado na área militar, onde já trabalha há mais de 14 anos, Júlia tinha trabalhado na Telepizza e nos cinemas no Centro Comercial Colombo, em Lisboa. Não tinha qualquer conhecimento nem pessoas ligadas à área, que era totalmente desconhecida para si. “Em 2003, vi um anúncio na internet e decidi candidatar-me. Fiz formação militar para ser praça [uma categoria inferior da hierarquia militar] e depois candidatei-me para a categoria de sargento, na área da eletrónica. Queria ir viver uma aventura.”

Júlia não tem dúvidas em afirmar que lhe dão menos credibilidade por ser do sexo feminino, tal como também tem de mostrar muito mais o seu valor, uma situação que é constante. “Continuamente tenho de o provar, mesmo tendo ficado nos primeiros lugares das várias formações que frequentei.”

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Do mesmo modo, a militar da área da eletrónica reconhece que tem sido alvo de uma certa discriminação pelo facto de apenas ser mulher. “As minhas avaliações profissionais têm sido sempre inferiores aos meus camaradas e às vezes sinto que tem a ver com o facto de ser mulher”.

Admite que já não é feliz “há muito tempo” no trabalho que tem. “Já não tenho paciência para o compromisso militar que é tudo feito para inglês ver. E já não tenho paciência para ser constantemente prejudicada e nunca valorizada. Para além disso, os oficiais tratam-nos como números, como se lhes devêssemos a vida e não houvesse mais nada para além daquilo”, finaliza.