Chama-se Ebba, aprendeu português sozinha e levou um comunista russo a Fátima. Histórias sobre Snu

Foi o grande amor de Sá Carneiro mas muito mais do que isso. Fundou uma editora e fez frente à ditadura.

Ebba assumiu o nome Snu, que quer dizer "esperta" em dinamarquês. Passou a assinar com esse nome ainda na escola e, mais tarde, também no passaporte

Os filhos vão ser sempre filhos, tenham 5 ou 55 anos. Os pais serão sempre pais, tenhamos nós 5 ou 55 anos. Uma das dores de crescimento mais difíceis de sarar é aquela de começar a olhar para os filhos — ou para os pais — enquanto seres que pensam e agem para além dessa extensão que nos sai da árvore genealógica.

Acontece, por exemplo, quando os pais se separam e decidem — como ousam? — começar uma nova relação. Não era suposto ser só meu (pai)?

Tal como os pais que, nas nossa mente conceptual, vieram ao mundo com funções muito específicas, entre elas, pôr-te Betadine nos joelhos sempre que cais ou fazer-te uma canja quando te dói a barriga, também os políticos vivem numa dimensão na qual não é suposto que façam nada que fuja àquilo que esperamos deles.

E tal como nos é estranho ver o pai a pôr Betadine num joelho que não é o nosso, também nos causa surpresa vermos aquela pessoa que apenas concebemos nos púlpitos castanhos da Assembleia da República a fazer capas de revista em banhos no Algarve ou a fazer uma cataplana de peixe no “Programa de Cristina”.

Retrato de Snu aos 19 anos (1959)

@ Arquivo da familia de Snu

Mas essa vida paralela existe e, para alguns, não é assim tão paralela. “Se a situação [relação com Snu Abecassis] for considerada incompatível com as minhas funções, escolherei a mulher que amo”, avisou Francisco Sá Carneiro, não dando sequer hipótese aos membros do PPD que se mostravam incomodados por ver o líder do partido, ainda casado, assumir publicamente uma outra relação.

Nem Sá Carneiro queria esconder Snu, nem Snu era mulher para viver escondida, nem no amor, nem em nada.

A vida daquela que foi a grande paixão de Sá Carneiro é agora revisitada num filme, da realização de Patrícia Sequeira e que se estreia a 7 de março, mas já foi tema para documentários e livros, o mais completo escrito em 2011 por Cândida Pinto, reeditado novamente este mês.

Depois de uma revisão da matéria dada, entre filmes, livros, documentários e notícias publicadas na época, condensámos Snu em dez pontos, na tentativa de resumir uma vida que, ainda que curta, deixou muitas histórias para contar.

1. Snu não se chama Snu

Nasce Ebba Merete Seidenfaden, herdando da avó o primeiro nome. Ainda em criança não esconde uma personalidade viva, curiosa e irrequieta, o que faz com que, em casa, a tratem por Snu, palavra dinamarquesa que significa “esperta”. Começa por assinar Snu Seidenfaden nos cadernos da escola e, aos 15 anos, é esse o nome que escolhe para a assinatura do passaporte.

O apelido muda quando casa com Vasco Abecassis e, mesmo depois do divórcio, mantém o nome pelo qual ficou conhecida em Portugal: Snu Abecassis.

2. Zangou-se com Mário Soares

Eram amigos de jantar em casa um do outro, de conversas alargadas sobre política e literatura e Snu chegou a publicar livros escritos por Mário Soares, assim como, num golpe de pluralismo, de Álvaro Cunhal e de Sá Carneiro — mesmo antes do romance entre os dois. “Contribuiu à sua maneira para a democracia portuguesa”, referiu Marcelo Rebelo de Sousa na altura do lançamento do livro “Snu”, escrito pela mãe da dinamarquesa, Jytte Kaastrup-Olsen.

Quando a relação entre Snu e Sá Carneiro se torna pública, muitas foram as vozes contra que se levantaram, mas nenhuma foi tão inesperada como a de Soares que disse, numa entrevista que “Quem não sabia governar a sua família, não sabia governar o País”.

No filme, é reproduzido um episódio no qual Snu e Soares se cruzam nos corredores da Assembleia e a dinamarquesa simplesmente ignora a presença do eterno adversário de Sá Carneiro. Soares esclareceu, já depois da morte de Snu, que a relação entre os dois voltou à normalidade e admitiu arrepender-se de algum aproveitamento político feito por si, em nome do Partido Socialista.

3. Não era reconhecida como mulher de Sá Carneiro

Durante uma visita do presidente norte-americano Jimmy Carter a Portugal, em 1980, Snu acompanha Sá Carneiro na parte mais protocolar. Esperam juntos a chegada do presidente ao aeroporto e vão juntos até aos Mosteiros dos Jerónimos. A partir daí, há um programa alternativo para as esposas dos representantes políticos, do qual faria parte a primeira-dama norte-americana, Rosalynn Carter.

Sá Carneiro e Snu conheceram-se quando a Dom Quixote editou um livro do líder do PPD

@ Arquivo pessoal de Maria João Sande Lemos

Maria José Freitas do Amaral (esposa de Freitas do Amaral, na altura ministro dos Negócios Estrangeiros) percebe que Snu não foi convidada e confronta Manuela Eanes, primeira-dama de Portugal que veio a boicotar várias vezes a presença de Snu em atos oficiais por não concordar com a relação com Sá Carneiro. Manuela não cede nem dessa vez e Maria José decide que se Snu não vai ao evento para esposas, ela também não vai.

3. Fundou a editora Dom Quixote

Num País no qual a mulher não tem voz, Snu fala mais alto ao abrir uma editora pensada para abrir os olhos da sociedade portuguesa. Na Dom Quixote “publicava obras que eram interditas e quando PIDE ia às instalações da editora, ela trazia os livros para casa, na mala do carro, e escondia-os debaixo da escada, para ninguém os encontrar”, conta a filha Rebecca, numa entrevista dada em 2003 ao “Correio da Manhã“.

Traz para o trabalho os hábitos de quem está habituada a uma sociedade sem classes (pelo menos não tão vincadas como no Portugal da altura). O gráfico da editora, Fernando Felgueiras garante, em declarações recolhidas para a biografia, que “há poucos patrões assim” e que Snu “trata todos por igual”.

Snu no stand da Dom Quixote durante a Feira do Livro de Lisboa

@ Arquivo da Família de Snu

Todos os dias há o “café das 11”, para promover o contacto entre os trabalhadores e sempre que um funcionário faz anos organiza a festa de aniversário no jardim. Os salários eram pagos a tempo e horas, os contratos com os escritores respeitados e há uma funcionária que relata que, uma vez, acompanhou Snu a uma feira em Frankfurt e que Snu marcou os dois bilhetes em primeira classe.

A nível editorial, foi responsável pela publicação dos famosos Cadernos Dom Quixote que, todos os meses, saíam com temas como o Maio de 68, o feminismo ou a guerra do Vietname. Deles faziam parte uma seleção de artigos de jornais e revistas estrangeiros. “Compensava aquilo que a imprensa portuguesa não podia fazer”, lembra Nelson de Matos numa entrevista dada ao “Público” em 2005, aquando dos 40 anos da editora — que até 2004 esteve 23 anos à frente da Dom Quixote —, referindo-se à censura prévia dos jornais e periódicos portugueses. Com os livros, a censura era posterior. “Os Cadernos Dom Quixote chegaram a ser proibidos e apreendidos consecutivamente até ao número 5”, lembra ainda.

4. Foi uma voz contra o regime

“Sabe quantas mulheres em Portugal morrem por ano em abortos clandestinos ou, mais tarde, em consequência de os terem feito?”, pergunta Snu, numa cena do filme na qual um agente da PIDE tenta boicotar a publicação de um livro sobre o tema. Não chega a dar uma resposta, mas tendo em conta que o aborto só foi legalizado em Portugal em 2007, imagina-se um número alto.

“As mulheres portuguesas querem saber de renda, culinária e família”, tenta explicar-lhe o agente, perante o ar incrédulo de alguém que nasceu na Dinamarca, cresceu na Suécia, estudou em Inglaterra, trabalhou nos Estados Unidos e veio viver para um Portugal dos anos 60. Vasco Abecassis, no livro de Cândida Pinto, refere as dificuldades de adaptação. “Fica imensamente chocada, ela nunca se sente portuguesa, nunca”.

Já à frente da Dom Quixote, são inúmeras as vezes que desce da Luciano Cordeiro, sede da editora, até ao Chiado, onde fica a sede da PIDE, para prestar declarações. Há um dia em que um inspetor a adverte: “Minha senhora, tenha cuidado, a senhora não se esqueça de que é portuguesa por casamento”, numa insinuação à possibilidade de poder ser expulsa do País. É por isso que faz questão de nunca perder a nacionalidade dinamarquesa, não tendo, por isso, que ter autorização do marido para viajar. “Nem imagina que tal coisa seja real”, escreve Cândida Pinto, na biografia.

6. Levou um comunista russo a Fátima

Esta onda contestatária de Snu não tinha limites, nem mesmo quando se junta as palavras “russo”, “comunista” e “Fátima” na mesma frase. Enquanto diretora da Dom Quixote, conseguiu a proeza de trazer o poeta soviético Ievgueni Evtuchenko a um Portugal para o qual a URSS era tabu.

Snu convence o embaixador de Portugal em Madrid a dar um visto de jornalista ao poeta e tem a sorte de Rosa Casaco, diretor da PIDE, não atender o telefone do comissário geral da Polícia espanhola a avisar da viagem para Lisboa.

O escritor chega à estação de comboios do Entroncamento num dia especial: é a primeiro a vez que Portugal recebe a visita de um Papa, para assinalar os 50 anos das aparições em Fátima. E Ievgueni, mal põe os pés em Portugal, pede a Snu para ir ver o acontecimento ao vivo, onde estão reunidos, não só milhares de pessoas, como a maior concentração de PIDE que o País já viu.

A presença do escritor em Fátima foi notícia lá fora, mas por cá ninguém soube e Snu consegue iludir a PIDE por mais dois dias e o escritor fica hospedado no Ritz, ainda vai ver um Belenenses-Porto, passeia-se no Chiado e dá entrevistas a jornalistas estrangeiros. Já sob a vigília da PIDE, dá-se o recital de poesia e uma sessão de autógrafos que junta centenas de intelectuais e curiosos.

Esta conquista deu um impulso à Dom Quixote, que passa a ser mais respeitada mas, ao mesmo tempo, mais controlada pela PIDE que vê em Snu uma ameaça.

7. Aprendeu a falar português sozinha

Snu nunca teve aulas de português e é na editora que vai aperfeiçoando a língua. Quando tem dúvidas pergunta a quem está por perto ou, por intercomunicador, a Virgínia Caldeira, secretária da editora.

“‘Quer dizer uma pessoa que…’, e fica suspensa, à procura da palavra, de dedo no botão. ‘Por exemplo, eu tenho um cão e quero dizer às pessoas que o cão é perigoso. O que devo dizer? Virgínia caldeira sugere-lhe ‘advertir’, mas Snu acha excessivo. ‘Não, isso parece ralhar, qualquer coisa mais suave”‘. Este é um excerto relatado por Virgínia e publicado na biografia de Snu que conta ainda que só na hora de fazer contas é que via a patroa voltar ao dinamarquês para somar ou subtrair números.

Foto tirada em 1961, nos Estados Unidos, onde viveu com Vasco logo a seguir ao casamento

@Arquivo da família de Snu

Em entrevista ao “Observador“, Inês Castel-Branco, que interpreta o papel de Snu no novo filme, refere que não foi fácil chegar ao sotaque certo, uma vez que ninguém se lembrava dos detalhes. “Algumas pessoas diziam que ela trocava os artigos, tipo ‘vamos tomar uma chá’, e havia pessoas que diziam que não se lembravam bem, que era parecido com o sotaque inglês”, referiu. A atriz conta ainda alguns dos truques para chegar à versão mais aproximada do que se pensa ter sido a original. “Vim ter com uma amiga minha sueca que vive cá, que é casada com um amigo meu, gravei-a a dizer algumas frases e depois fui repetindo, para tornar o sotaque consistente”.

8. Conheceu Sá Carneiro num restaurante mítico de Lisboa

Todos queriam provar o arroz de gambas do Varando do Chanceler, um restaurante em Alfama com vista sobre o Tejo e que serviu de cenário ao primeiro encontro entre Sá Carneiro e Snu. Foi a poetisa Natália Correia que incentivou este almoço, quando Francisco demonstrou interesse em conhecer a dinamarquesa responsável por editar o seu livro, “Por uma Social-Democracia”.

Aliás, quando Sá Carneiro perguntou, uma vez, à poetisa como era Snu, a resposta foi implacável: “É uma princesa nórdica num esfique de gelo à espera que venha um príncipe encantado dar-lhe o beijo de fogo. E esse príncipe é você. Porque ela é a mulher da sua vida”.

No dia 6 de janeiro de 1976, Sá Carneiro mata a curiosidade assim que chega a este restaurante, considerado de luxo e que era frequentado principalmente por políticos, artistas e toda a alta sociedade lisboeta. O “Diário de Lisboa” descreve assim o dia da abertura, em 1966: “Para festejar a inauguração do novo restaurante-cervejaria registou-se um autêntico fim de semana regado a cerveja Skol, a qual jorrava de barris, no largo fronteiro, oferecida a nada menos de cinco mil habitantes do pitoresco bairro ribeirinho da capital”.

O restaurante, hoje encerrado, abriu pelas mãos do maior grupo económico privado do período do Estado Novo, a CUF, quando decidiu alargar as suas atividades à restauração. Era, desde 1970, dirigido pelos irmãos Júlio e Carlos Costa, fundadores do grupo de música Trio Odemira.

9. Divorciou-se mas Sá Carneiro não

Mas não porque não quisesse. Francisco Sá Carneiro era casado com Isabel quando conheceu Snu. Assim que ambos perceberam que já não havia volta a dar, pediram o divórcio. Vasco Abecassis cedeu imediatamente e com Snu — e até com Francisco — manteve sempre uma relação próxima. O mesmo não acontece com Isabel que se recusou até ao fim em dar o divórcio. Mais tarde, explica a sua decisão no livro da jornalista Maria João Avillez sobre Sá Carneiro “Solidão e Poder”. “Foi o homem de quem gostei, o pai dos meus filhos. Não foi fácil viver com ele, é um facto. Mas era muito mais difícil viver sem ele”.

Snu não percebia como é que uma mulher que não vivia com o marido há anos e, estando ele com outra pessoa, se recusava dar o divórcio, mas nunca foi isso que a impediu de aparecer publicamente com Sá Carneiro que também nunca fez questão de esconder de quem gostava.

Ainda assim, dentro do partido houve quem quisesse mudar a lei para que Sá Carneiro se pudesse divorciar. Na altura, o Código Civil exigia seis anos de separação de facto para que pudesse ser convertida em divórcio. Um grupo de deputados do PSD arrisca e propõe a Sá Carneiro que mude esse prazo para três anos. “Recuso-me a mudar a lei geral de um País para meu próprio proveito”, responde.

Calaram todos os comentários e rasgaram todas as capas da “Time” — sim, o romance entre os dois chegou às páginas da revista — ao apresentarem-se sempre enquanto casal sem medo. A poetisa Natália Correia, dona do Botequim, o bar que servia de ponto de encontro de políticos e intelectuais e a responsável por ter incentivado o primeiro encontro entre os dois, resumiu esta relação numa frase-poema, como tantas que dizia: “São vocês a maior revolução acontecida em Portugal desde o 25 de Abril”.

10. Snu e Sá Carneiro poderiam ter ido noutro avião. Ou então não

No dia 4 de dezembro, Snu passa a manhã na Dom Quixote a trabalhar, até porque sabe que à noite tem que ir até ao Porto, onde Sá Carneiro vai para participar no último comício da campanha presidencial.

Apesar de estarem assegurados dois lugares no avião da TAP, Sá Carneiro aceita o convite de Adelino Amaro da Costa para voar para o Porto num avião Cessna, porque assim chegam a tempo de jantar no Escondidinho, um restaurante que foi o primeiro em Portugal a receber duas Estrelas Michelin.

Em 1961 casou com o português Alberto Vasco Abecassis e mudou-se para Portugal no ano seguinte

@Arquivo da família de Snu

Snu não gosta de aviões pequenos, mas aceita fazer esta última viagem, na qual deveria seguir também a sua filha mais nova, Rebecca, e o filho mais velho de Sá Carneiro, Francisco. Rebecca acaba por ficar em Lisboa, porque Snu considera que seria cansativo levá-la para o comício e Francisco acaba por ficar com a namorada, uma conquista recente.

O avião descola a caminho do Porto, mas o voo terá apenas 38 segundos.

Em 2013, o testemunho da secretária do ex-primeiro-ministro contraria a tese de que a viagem esteve sempre prevista na TAP e que só à última hora foi decidida a utilização do Cessna. Numa audição da X Comissão Parlamentar ao inquérito ao acidente, Isabel Veiga de Macedo revelou que, à saída da sua casa rumo à Portela, o primeiro-ministro lhe comunicou que, por estar bom tempo, devia cancelar a reserva da TAP.

A investigação não avançou a partir de 2015, altura em que mais uma peça se veio juntar ao puzzle que começou a ser montado em forma de atentado, e não de acidente como inicialmente se pensava. O dono do avião utilizado na campanha presidencial de 1980, José Moreira, e a sua companheira foram encontrados mortos no seu apartamento, em Carnaxide, a 5 de janeiro de 1983, dias antes do engenheiro ir testemunhar, também em comissão parlamentar de inquérito, sobre a queda do bimotor norte-americano, depois de ter afirmado possuir informações relevantes sobre o assunto. De acordo com o relatório preliminar da X Comissão Parlamentar, os dois foram assassinados.

Quase 40 anos e dez comissões parlamentares de inquérito depois, continua sem se perceber o que aconteceu na noite da morte de Sá Carneiro e Snu Abecassis. E é por isso que, quase 40 anos depois, esta é uma história que merece ser contada, mais não seja em dez pontos que resumem uma vida que não cabe nem num filme.

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