O que é feito de Fabiana, a rainha do strip que mudou o Viking no Cais do Sodré?

Já "aposentou as sandálias", porque "na vida temos de saber quando parar". Guarda saudades, mas é "com muito amor" que ajuda idosos num lar.

Fabiana Ferreira "deu show" no Viking entre 2009 e 2014 — e até quem nunca viu, já ouviu falar

Falamos de Fabiana como se ela ainda estivesse grávida ou em licença de maternidade, apesar de terem passado cinco anos e de Mariana já estar quase na primeira classe. O show é hoje da Mónica, mas a fama deve-se muito ao legado que a brasileira lhe deixou, aquele que transformou o Viking num dos espaços noturnos mais badalados do Cais do Sodré, em Lisboa.

Até quem nunca viu, já ouviu falar da mulher que em 2014 se despediu desta casa. Durante cinco anos, à uma ou três da manhã, era certo: no decorrer de duas músicas, os olhos viravam-se todos para a brasileira, atualmente com 36 anos. Com 1 metro e 70 — a que se acrescia o tamanho dos saltos, com um palmo — cabelos escuros e longos, ela dançava, fazia acrobacias no varão, enquanto se despia e ia brincando com o público, com palmadas, festinhas e por aí fora. No aglomerado de pessoas, encontrava-se sempre alguém que, longe de sonhar nisso antes de sair de casa, iria fazer parte do show.

O Viking não é uma casa de strip, mas tem um momento de strip. Passados seis anos, a MAGG foi saber o que é feito da brasileira, natural de Goiás: além de descobrirmos que trabalha num lar de idosos, ficámos a conhecer a sua história, desde os tempos em que veio para Portugal.

“É a tua primeira vez. É o nosso segredo. Vais dançar de olhos fechados e pensas que não está ninguém a ver”

Foi em 2000 que Fabiana Ferreira chegou a Portugal. Tinha acabado de fazer 18 anos e por cá já andavam as irmãs, Elisamar, com cerca de 30, e Flávia, com 19.

“Antes de vir, perguntei: eu vou, mas eu quero saber para que é que eu estou indo. Aí elas disseram: ‘Quando chegar aqui você vê’”, conta à MAGG. Aterrou e, sem perder muito tempo, foi conhecer a realidade das irmãs. “Elas já trabalhavam na noite, faziam strip. À noite fui ver como é que funcionava. Quando vi a minha irmã Flávia dançando achei lindo. Estava com uma roupa branca e estava dando Mariah Carey.”

Comecei a dançar com vergonha. Tinha de tirar a roupa agarrada à esfregona. Entrou meu cunhado e eu me tapei toda. Minha irmã falou que não podia ter vergonha.”

Isto aconteceu no Bar da Tina, no Estoril, aquele que era gerido pela mulher do ator Vitor Espadinha. Não começou imediatamente a dançar, porque a atividade exige destreza e prática. Começou, sim, a entreter os clientes que por lá apareciam.

Começou a dançar aos 18 anos, logo depois de chegar do Brasil

“Falei para minha irmã mais velha que queria aprender a dançar. Um dia ela pegou uma esfregona e colocou no meio da sala”, lembra. Foi ao som de Scorpions que Fabiana deu os seus primeiros passos. “Comecei a dançar com vergonha. Tinha de tirar a roupa agarrada à esfregona. Entrou meu cunhado e eu me tapei toda. Minha irmã falou que não podia ter vergonha.”

Não esquece o seu primeiro espetáculo. Foi em Cascais. O dono do espaço achou que Fabiana já tinha alguma experiência. “Naquela altura se disséssemos que nunca tínhamos dançado, o ordenado era muito baixo.”

Ninguém desconfiou, exceto o DJ. A casa estava a encher, Fabiana estava numa pilha de nervos, mas, para não ser desmascarada, não podia partilhar com ninguém a angústia da estreia. Houve só uma pessoa que desconfiou: “O DJ foi o único que percebeu. Ele me levou uma dose de whisky ou cachaça ao camarim — que eu não estava acostumada a beber — e disse: ‘É a tua primeira vez. É o nosso segredo. Vais dançar de olhos fechados e pensas que não está ninguém a ver’”, lembra. “Entrei no palco, dancei de olhos fechados. Abri os olhos quando tirei as cuecas e vi a multidão. Fugi do palco e fui chorar.”

O patrão não viu. Fabiana Ferreira manteve-se aqui durante algum tempo, não muito, porque as regras nestas casas dizem que é mais seguro haver rotatividade para que não se criem laços com os clientes. Passou por vários espaços, incluindo nos Açores e o Ménage Strip Club (do mesmo proprietário do Viking), na Rua Cor de Rosa, no Cais do Sodré.

Teve uma relação tóxica, que resultou em agressões e no roubo de todo o dinheiro que tinha na conta. “Ele partiu a minha boca, tirou os meus maxilares do lugar e roubou tudo o que eu tinha.”

Depois disto, precisou de fazer uma pausa, de tirar umas férias. Foi para o Brasil e reencontrou aquele que viria a ser o seu marido. “Quando éramos pequenas e ele via a gente chegar [Fabiana e as irmãs], dizia: ‘Olha, as gostosas chegaram.’”

Nestas férias envolveram-se — assim num registo de, como diz, “ir ficando” — só que quando Fabiana já estava de volta a Lisboa, ele disse que queria vir ter com ela. “Eu já tinha dito à minha mãe: ‘Homem agora para mim é para casar’”. Quando ele disse que queria vir eu disse: ‘Eu vou-te trazer, mas você vai ter que casar.”

E assim foi. Casaram em 2005. Em 2006, ela voltou para o Brasil e teve a primeira filha. Mas a estadia foi de pouca dura. A vida não era fácil: “Eu lembro até hoje. Entrei numa loja e eu só podia optar ou por um brinquedo ou por uma roupa. Optei pela roupa. Lembro dela [Geovanna] pequenina a chorar porque queria o carro de uma boneca. Liguei para as minhas irmãs porque não quero isso para a minha filha.”

Queria fazer dinheiro para a família. Regressou sozinha e sem intenção de voltar para a noite — até porque o sogro, muito católico, não aprovava —, mas três meses depois, o marido e a filha voaram para Portugal. Em 2009 conhece o Viking, a discoteca onde encontrou “uma família”, de quem guarda “muitas saudades”.

O show da Fabiana mudou o Viking

É com muito carinho que Fabiana fala no senhor António, o antigo proprietário do Viking, hoje gerido pelo filho Bruno. Lembra também o Senhor Manuel, que, já com uma idade muito avançada, ajuda na discoteca desde que tinha 22 anos.

“Amo aquela família. Sinto muita falta deles. De todos os bares, o Viking foi a casa que chamei de família. Nunca tive discussões, sempre houve muito respeito. Quando via que as coisas não estavam bem, o senhor António resolvia logo.”

A casa enchia para ver o show da Fabiana. Hoje é o show da Mónica

Lembra que o ambiente era muito diferente. “Entravam muitas senhoras mais velhas, que bebiam um copo e saiam. A malta nova não queria saber. A clientela era muito diferente do que é hoje.”

Nesse tempo Fabiana já dançava e brincava com homens e mulheres que lá entravam. “Um dia eu lembro que chegou uma turma de malta nova, que sentou perto do palco e eu comecei a interagir com eles. Dançava e brincava. Pegava nas mãos das meninas. Fui quebrando o tabu do strip e do Viking. A malta começou a vir. É aí que entra o show da Fabiana.”

Podemos considerar que Fabiana foi uma peça essencial para o sucesso que o Viking tem hoje. Foi ela que começou com as duas pequenas sessões — que ocupavam o tempo de duas canções, incluindo um tema de Backstreet Boys — de strip, em que havia sempre alguém a ser chamado ao palco. A primeira decorria à uma da manhã, a segunda, mais animada, às três horas.

Começaram a entrar pessoas famosas. O Alvim, a Ana Markl, acho. Eu não via televisão, portanto não conhecia eles. Mas depois eu percebi”, diz. “O Viking não é uma casa de strip. É uma discoteca, que tem aquele momento para distrair e animar. Nas outras casas, numa mesmo mesmo de strip, como o Ménage, é muito diferente. Em algumas nem deixam entrar mulheres.”

Na maioria das casas de strip, conta, é muito frequente ter de se chamar o segurança para expulsar alguém, ou porque já bebeu demais, ou porque está a ultrapassar os limites e a desrespeitar as regras rígidas que se estabelecem. No Viking era muito diferente, porque as intenções e interações eram outras. Mesmo assim, lembra o episódio em que teve de expulsar um cliente.

“Foi numa sexta-feira, eu estava a dançar, a casa estava muito cheia. Foi na altura do show das três horas. Chegou um cliente, que já estava bebido ou drogado. Era muito grande, com o tamanho do Ricardo, o segurança”, relata. “Normalmente, quando eu saia do show, as pessoas ajudavam-me a passar. Nesse dia, quando passo a primeira porta para o camarim, vejo esse homem fazendo chichi no chão. Eu disse que ali não era a casa de banho e ele me xingou. Me xinga de tudo, mas de puta não, porque aí eu vou mesmo para cima.”

Ele disse o que não devia e ela expulsou-o daquele sítio, perto do camarim, “com os documentos de fora mesmo”, como descreve. Só que ele voltou. “Quando eu saio está ele de novo a fazer chichi. Eu tinha acabado de colocar unhas. Agarrei ele pela pila e eu mesma levei ele para fora. Fiz questão. O segurança quis ajudar, mas eu quis mesmo fazer sozinha.”

Do cabaret para o convento. Ou do Viking para o lar de idosos

Fabiana adorava a sua vida, mas não era compatível com a vida familiar. Sempre contou com a ajuda do marido, Gleison Ferreira: era ele que levava Geovanna à escola, era ele que a vestia, era ele que lhe dava o jantar. Nunca se opôs à vida da mulher. Na verdade, dava-lhe todo o apoio, mesmo que as rotinas estivessem todas do avesso. Ela era uma espécie de morcego: acordava às quatro da tarde e deitava-se às tantas da madrugada.

Fabiana tem 36 anos, trabalha num lar de idosos e tem duas filhas: Geovanna, 11 anos, e Mariana, 5

Na segunda gravidez pôs a família e o trabalho nos pratos da balança. “Ela [Geovanna] tinha 2 anos e eu como trabalhava na noite não tinha tempo para ela. Na segunda gravidez quis fazer as coisas de outra forma. Não queria dar à Mariana a vida que a Geovanna teve”, diz. “As outras [strippers] saíram e começaram a vida do zero. Porque é que eu não podia?”.

Sem estudos ou qualquer tipo de formação, começou à procura de soluções. “Minha cunhada fazia limpezas. Foi ela que me ajudou. Durante alguns anos trabalhei como empregada doméstica em várias casas. Tinha várias patroas. Correu bem.”

Só que, é como diz o ditado, “ano novo, vida nova”. Em 2019, as coisas mudaram. “Tenho uma amiga aqui em Carnaxide que trabalha há 12 anos num lar de idosos.”

É no Centro Paroquial Nossa Senhora do Carmo que Fabiana passa os seus dias agora. Ajuda pessoas idosas já acamadas, muito doentes, que não se conseguem levantar. É duro. É “um trabalho triste”, porque se veem “pessoas sofrer”, mas ela não só tem estofo, como gosto. “Eu adorava a adrenalina do Viking, mas acho que me encontrei no lar. Também é uma correria total. Eu costumo dizer que tenho mais paciência para idosos do que para crianças”, explica. “É um serviço de que eu gosto. No início achei que não ia conseguir fazer a parte da higiene. Nunca tinha limpo um idoso, mas pensei: ‘Fabiana, um dia és tu que vais precisar. Hoje quem precisa são eles.’”

É um trabalho que faz “com muito amor mesmo”. Sente falta da adrenalina da noite e recorda muito os tempos da discoteca do Cais do Sodré. “Batem mesmo saudades, especialmente quando vejo as fotografias. Sou apaixonada pela noite e fui muito feliz no Viking”.

Ainda recebe convites de várias pessoas — incluindo um da Heineken para atuar no Rock in Rio Lisboa, em 2014, mesmo que, na altura, estivesse grávida de Mariana. Mas esse capítulo está encerrado, porque “na vida temos de saber quando parar.” Ficam as fotografias para recordar, assim como as roupas com que dançava, das quais não se desfez. Ainda guarda os saltos de um palmo, mas é como responde sempre que a desafiam a fazer mais um show: “Já aposentei as minhas sandálias.”

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