Há histórias de amor que narradas parecem contos de fada. A do português Tiago Marques e da mexicana Natasia Ocejo, ambos com 30 anos, é um exemplo. Conheceram-se entre castelos e princesas, entre sapatos de cristal e figuras mágicas. Não vieram de outro universo, mas quase: conheceram-se na DisneyWorld, em Orlando, nos Estados Unidos, o sítio onde se encontravam a trabalhar em 2010 — são formados em hotelaria e faziam por lá um intercâmbio.

Hoje são casados e vivem no Estoril. Mas, como mandam os bons contos de fadas, para o final feliz foram necessários alguns obstáculos, neste caso uns anos de encontros e de desencontros, até que Tiago decidisse ir viver para o México, em junho de 2014. É um pouco antes disto que nasce a história do Paco Bigotes, o novo mexicano de São Pedro do Estoril, de portas abertas desde 7 de fevereiro.

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“Seis meses antes de me mudar para o México, fui de férias com uns amigos [dois dos quais com quem viria a abrir o espaço] para lá”, conta à MAGG. É aqui que conhece os futuros sogros e a figura que vem dar o nome restaurante de São Pedro de Estoril: era o último dia da estadia em Acapulco (já vinham a acumular o cansaço dos passeios e da farra) e foram almoçar a um sítio em frente ao mar, que pertencia a um pescador amigo de longa data do pai de Natasia. Ninguém sabe o real nome do senhor, só que deverá ter por volta de 80 anos e que é conhecido por Paco Bigotes. O dia passou-se ali e superou muito as expetativas. “Foi um dia incrível”, lembra. Já com umas tequilas em cima, ficaram “os melhores amigos”.

A família de Natasia sempre teve uma ligação forte à gastronomia, tanto que o seu irmão é chef. O valor da comida na cultura mexicana e portuguesa não é assim tão diferente, embora mudem ingredientes, sabores, pratos e tradições.

Depois das tradicionais esquites, continue a refeição com guacamole

Depois de viver na Cidade do México, o casal veio para Portugal em junho de 2018. “Ela precisava de um restaurante mexicano a sério aqui”, diz a brincar Tiago. E assim foi: em conjunto com Luís Brazão, 30 anos, e António Saraiva, 31, criaram o Paco Bigotes.

Com as suas toalhas de mesa típicas das cantinas mexicanas, com os candeeiros feitos com os chapéus dos tortilheros, com as loiças vindas diretamente do país da América central, bem como os ingredientes, importados via Espanha, o espaço é uma espécie de México de 35 metros quadrados em Portugal, onde 32 pessoas se podem sentar no interior e outras seis no exterior.

“Queríamos um espaço autêntico, com a verdadeira comida mexicana”, diz Natasia. “Queria sentir-me em casa.”

Quando olhamos para a carta, apesar de haver tacos, guacamole ou ceviches, não vemos os tradicionais burritos ou chilli com carne. “Isso são gringuices”, diz Tiago, a brincar. “Não vemos isso nos restaurantes do México.” É aí que o proprietário explica que estes são, na realidade, uma espécie de pratos de fusão, criados pelos emigrantes mexicanos, chegados aos Estados Unidos.

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Apesar de a carta ter sido idealizada sobretudo por Natasia, os pratos são executados pelo chef Henrique Sachetti, amigo do casal que assume os comandos da cozinha. “Ele tinha ido trabalhar para um restaurante mexicano em Barcelona, mas ia voltar”, explica Tiago. “Foi perfeito. Uma feliz coincidência”

Queijo derretido com chouriço, servido com tortilhas de farinha. E uma margarita, claro

A carta é perfeita para quem gosta de refeições para picar e partilhar. Há quesadillas (3,5€), há nachos (6€), guacamole (5€) e as famosas esquites (1,5€). Há ainda ceviches (9,5€ a 11,5€), tostadas de atum (7,5€) ou tinga, com frango (6,5€) e ainda seis variedades de tacos (entre 6€ e 7€). No capítulo das sobremesas, não pode deixar e provar os churros (4€), que, feitos no momento — são mesmo os melhores do mundo, até para quem não gosta, garantimos-lhe.

Para acompanhar no copo, as especialidades mexicanas, desde margaritas — da clássica (4,5€), a com manga (4,5), pepino e hortelã (4,5€) ou frutos vermelhos (4,5€), sem esquecer a possibilidade de serem servidas em jarro — a tequila de diferentes variedades (3€ a 4€), mezcal (de 4€ a 4,5€) ou ainda cerveja, da Corona (3€) à Malquerida (2,3€).

Porque na comida há sempre história e tradição, pedimos ao casal que nos contasse pormenores giros por detrás de quatro pratos que se servem no Paco Bigotes.

Esquites

É como diz a carta: “Um típico petisco das ruas do México”. Tiago Marques explica-nos que esta especialidade — que no Paco Bigotes faz parte do couvert — é comercializada por vendedores que andam de bicicleta, meio de transporte que mereceu uma réplica, pendurada numa das paredes do restaurante. Feita com maionese, queijo fresco e milho, vê-se sobretudo pelas ruas da Cidade do México, mas a verdade é que anda por todo o país. O proprietário garante-nos que o sabor é idêntico ao que se prova por lá. As mexicanas Natasia e a amiga de longa data Mari (ilustradora a estudar em Portugal, que ajuda a servir às mesas no restaurante) confirmam.

Ceviche Pacífico

Tem polvo e camarão em molho de tomate e citrinos, servido com abacate, tomate e coentros, acompanhado, claro, por totopos, conhecidos por nachos. Vem diretamente da costa de Acapulco, a mesma em que conheceram o pescador Paco Bigotes, aquele que lhes deu a provar esta especialidade, muito típica da costa do Pacífico mexicana. “Lá chama-se cocktail de camarão, mas aqui podia gerar confusão.”

Tacos

Há seis variedades: com carne de porco cozida em lume brando, com achiote e especiarias, com camarão em molho de chipotle mayo, com batata doce em tempura com salsa de abacate, com peixe tempera ou ainda com crosta de queijo. Os recheios são bons, mas a própria tortilha, com um sabor mais fumado, não lhe fica atrás: são mais escuras, a dar para o azul, mas “não são integrais, nem têm corantes”, garante Natasia. “No México temos cerca de 60 tipos de milho. Estas tortilhas são feitas com o azul, que têm mais propriedades, como os antioxidantes que os frutos vermelhos têm por exemplo.”

Flan de Cajeta

A sobremesa sai diretamente de casa de Natasia, onde aos domingos toda a família, amiga da gastronomia e da comida, se reúne ao almoço. No campo dos doces, este, que já vem de várias gerações, nunca falta, garante-nos a mexicana. Aparentemente é um pudim flan normal, mas ela explica que “é muito diferente”. Feito com doce de leite, tequila e coco, tem uma textura muito própria, que permite decifrar todos os sabores que o compõem.