A história do alentejano que é um dos maiores fãs do mundo de festivais da canção (e corre mundo para os ver)

Tiago de Oliveira viaja para todas as cidades onde são as finais, tem os CD de todos os vencedores e sabe de cor as pontuações de Portugal.

Tiago tem 41 anos e há 14 que as suas férias são marcadas para destinos da Eurovisão

João Martins

Era um fim de semana normal, dentro do que é normal num fim de semana passado naquele que é um dos melhores turismos de natureza do país. Estávamos no Craveiral e, depois de um dia passado entre cavalos, tratores, piscinas, esperava-nos um jantar servido com pão alentejano e carapauzinhos com açorda.

Enquanto a conversa fluía entre copos de vinho do Alentejo, alguém decidiu lançar para a mesa o tema Conan Osíris. As opiniões dividiam-se entre “ai adoro” e “o que é aquilo?”, houve quem soubesse já algumas das letras de cor e ainda quem perguntasse: “Mas quem é o Conan Osíris?”. Tiago de Oliveira, o nosso mestre de cerimónias no Craveiral, desde o momento em que estacionámos o carro em frente à herdade, pousa-nos o prato na mesa e lança, com a certeza de quem sabe do que fala: “Preparem-se que é ele que vai ganhar o Festival da Canção”.

Ainda ninguém na mesa — e no País, arriscamo-nos a dizer — sabia que a música de Conan era sobre partir telemóveis, já Tiago nos contava que era graças à excentricidade do cantor que estávamos já em oitavo lugar, entre 43 países, nas bolsas de apostas de vencedores (sim, elas existem).

Tiago reúne todos os CD dos vencedores, compra uma T-shirt diferente todos os anos e leva sempre a mesmo a bandeira de Portugal para as finais

Os nossos olhos ávidos de histórias para contar levantam-se do prato de carapuzinhos e fitam os de Tiago, como que a dizer: “Temos que falar sobre isto”.

E falámos, um mês depois, quando Tiago viajou de Odemira, de onde é natural, até Lisboa, para a segunda semi-final do Festival da Canção. A grande final está marcada para Portimão, esta sábado, 2 de março, e a Eurovisão para Israel. E assim, como o espetáculo corre o mundo, também o corre Tiago.

A vida de um Eurofã

Quando, no ano passado, Netta Barzilai venceu com a música “Toy”, Tiago festejou, mas por breves segundos. Logo de seguida, juntou-se a dois amigos e ainda nessa noite marcaram tudo para poder estar este ano em Telavive, ainda que na altura não soubessem sequer o local e a data da Eurovisão.

“Sabemos que é em maio e que normalmente não acontece na primeira semana. A partir daí, cada um de nós marcou as últimas semanas em hotéis de Telavive e Jerusalém, as cidades que podiam acolher a final”, explica. Assim que souberam que a final é, de facto, em Telavive, a 18 de maio, desmarcaram os hotéis que tinham marcado para Jerusalém e para as outras semanas. “Mal se sabe a data, os hotéis enchem e, além disso, ficam caríssimos”, acrescenta.

As estratégias de fã multiplicam-se e muitas delas só as conheceu depois de se tornar membro da Organização Geral dos Amantes da Eurovisão, um clube que reúne fãs de 37 países. Paga 20€ anuais para fazer parte deste grupo, mas as vantagens, garante, são imensas. “Primeiro, podes votar [ainda que o voto não conte para o resultado final] e, o melhor de tudo, tenho acesso a tudo o que são festas, jantares e reuniões de fãs”. Esses encontros acontecem várias vezes por ano e começam sempre com um jantar, no qual estão presentes um ou dois cantores que já participaram no Festival, depois há karaoke e, finalmente, acaba numa discoteca onde, claro, só passa música da Eurovisão.

Lembro-me que havia três coisas que faziam parar o País: o futebol, a Miss Portugal e o Festival da Canção.”

A sua preferida chama-se “Molitva” e diz pouco à maioria. Interpretada por Marija Šerifović, fez ganhar a Sérvia em 2007. Já quanto às portuguesas, ainda que continue a achar que devíamos ter ganho em 1991 quando Dulce Pontes cantou a “Lusitana Paixão”, admite que a sua preferida é “Senhora do Mar”, interpretada em 2008 por Vânia Fernandes. “Ficou em 13.º lugar na final”, responde.

Não há pergunta que fique sem resposta, ainda que admita que existem fãs mais acérrimos, “daqueles que sabem as pontuações todas, quem votou em quem. Eu não vou tão longe”, admite. Ainda assim, decidimos testar. Quantos pontos deu Espanha a Portugal quando ganhou o Salvador Sobral? “12”. Em que ano participou Portugal pela primeira vez? “1964”. Em que lugar ficámos nesse ano? “Em último, com a ‘Oração’, do António Calvário”. Não vale a pena ir ao Google, já fizemos isso e está tudo certo.

Há (muitos mais) como Tiago

Durante anos, Tiago pensava que estava sozinho no mundo. Ou pelo menos em Odemira, onde nasceu e cresceu e nunca conheceu ninguém com quem partilhar esta paixão que nem ele sabe dizer de onde veio.

Lembro-me de que havia três coisas que faziam parar o País: o futebol, a Miss Portugal e o Festival da Canção. As pessoas já nem iam trabalhar na tarde da final e as mulheres iam ao cabeleireiro nem que fosse para ver em casa ou no café, até porque nem toda a gente tinha televisão”, conta.

Em sua casa, a paixão era vivida sozinho. “Não sei mesmo de onde veio, mas lembro-me da minha primeira memória visual do festival, quando a Dora cantou o ‘Não Sejas Mau para Mim’ e desde aí nunca mais parou”.

Ainda sozinho, fazia questão de ver em casa, sem barulho, para poder ouvir tudo com atenção e dar a sua pontuação, que apontava numa folha em branco. Gravava todas as finais em cassetes que hoje acumula em caixas, onde cabem também as acreditações, os CD, as mochilas e as T-shirts que compra todos os anos.

Esta solidão eurovisiva só terminou em 1997 quando passou a ter internet em casa e pôde escrever as palavras “Festival da Canção” num motor de busca. “Ainda que não houvesse redes sociais, era todo um mundo de blogues e caixas de comentários com pessoas como eu. Foi aí que percebi que era normal gostar do ‘Festival da Canção’“.

Conheceu mais fãs, fez amigos e, nos dias da final, juntavam-se em casa para um jantar temático com bandeirinhas dos vários países e no final acabavam sempre numa discoteca onde pediam ao DJ para passar músicas da Eurovisão.

Ainda assim, faltava-lhe cumprir o sonho de ver uma final ao vivo, o que só aconteceu em 2006. “Eu queria muito conhecer a Grécia e ir a uma final. Quando soube que a desse ano era em Atenas, nem pensei duas vezes“. Na verdade, admite que teve que pensar um pouco, uma vez que os bilhetes para o espetáculo rondam os 300€. “Em Portugal custou 200 e pouco e o mais caro é mesmo o de Israel, 800€”. Mas já agora, aqui fica mais uma dica de quem sabe: se comprar o bilhete para ver o ensaio geral, paga apenas 20€ e tem direito a música, coreografias e roupas como se da versão final se tratasse.

Até à adolescência, Tiago achava que mais ninguém gostava do Festival. Agora, faz parte de um grupo de fãs que reúne pessoas de 37 países

Só que Tiago já não se contenta com isso. A entidade patronal já sabe que maio é mês de férias, as poupanças guardam-se para as viagens e para os bilhetes do festival, há um espaço em casa para as caixas de merchandising, um lugar no quarto para pendurar as acreditações e, na semana da grande final, vai buscar à gaveta a capa de telemóvel alusiva ao evento e muda também o fundo do ecrã para que tudo ajude a lembrar aquele que considera ser “o momento mais feliz do ano”.

Enrola a bandeira de Portugal, arruma no saco os CD e as acreditações que trouxe para nos mostrar e pega no telemóvel para que possamos ver algumas das fotografias que tira em viagem ou nos estúdios da RTP. Há selfies com Sónia Araújo e Tânia Ribas de Oliveira, imagens suas no palco e montagens com o hashtags #eurovision e #allaboard.

“Vivo para isto. Não só para isto, claro, mas também. Já não imagino a minha vida sem o Festival da Canção”.

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