Marcella Castellano é uma rapariga sorridente, descontraída e com um brilho jovem no olhar. Tem sonhos, expectativas e objetivos de vida que quer ver cumpridos e, à primeira vista, não parece guardar qualquer tipo de mágoa ou segredo obscuro. De apenas 20 anos e com a vida toda pela frente, seria de esperar que estivesse longe de sofrer ou de ver a sua liberdade ameaçada ou condicionada. Isto, claro, num mundo perfeito ou nas histórias de encantar onde o bem vence sempre o mal “a golpe de espadachim”, como cantavam Os Azeitonas em 2012. Mas a história de Marcella, e a de tantas outras mulheres, mostra uma realidade muito diferente.

Tudo aconteceu em 2017 numa saída à noite que tinha tudo para ser como tantas outras. Num bar em Lisboa, Marcella estava a divertir-se quando um rapaz que nunca tinha conhecido a abordou. A conversa casual e o engate depressa deram lugar à insistência, à tentativa de levar Marcella para casa e à droga na bebida.

Nessa noite, a jovem luso-brasileira foi violada mas só se viria a aperceber disso meses depois. “Achei que lhe tinha dado o meu consentimento mas nunca o fiz. Até porque, naquele estado de quase inconsciência, não era capaz”, revela à MAGG.

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Mas Marcella admite que demorou mais tempo a assumir o que lhe tinha acontecido porque, inconscientemente, sentia culpa e vergonha de não ter sido capaz de impedir e de lutar contra o seu violador.

“Mais do que me assumir como vítima de assédio e de abuso sexual, percebi que não tinha sido a primeira vez. Percebi que a linha é muito ténue e que várias pessoas se aproveitam de outras e do seu estado de consciência (ou de inconsciência) para satisfazer as suas necessidades”, continua.

Segundo conta Marcella, sempre foi muito “promiscua quando era mais nova”. Não tinha pudor em publicar fotografias do seu corpo na internet porque achava, genuinamente, que não estava a fazer mal nenhum. E não estava, mas hoje não tem dúvidas de que foi um erro.

“Há pessoas muito más que, independentemente das nossas intenções, podem pegar em toda aquela informação e fazerem o que quiserem com ela. Mesmo que nos respeitemos a nós próprias, isso não quer dizer que os outros nos respeitem da mesma forma”, defende.

“Costumo dizer que podia continuar a mostrar-me à vontade que, mesmo assim, respeitar-me-ia à mesma. Só que a questão da libertação sexual é muito complicada porque é facilmente distorcida e aproveitada.”

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Apesar de tudo ter acontecido em sua casa, na sua cama e no seu espaço pessoal e privado, Marcella diz não sentir nada, como se estivesse num estado anestésico perpétuo.

“Possivelmente foi um mecanismo de defesa que o meu cérebro arranjou mas sinto muito mais os traumas de outras mulheres. Luto por isto [a denúncia de violência sexual contra mulheres] não tanto por mim, mas mais pelas outras, já que muitas de nós não saem vivas destas situações”, lamenta.

Apesar de tudo, não tem medo de dar a cara já que, defende, é o medo e o receio de denunciar estes casos que levam a que continuem a existir cada vez mais. “Não tenho medo em assumir-me como vítima de assédio sexual porque todas nós já o fomos a certa altura. Sinto-me bem a dar a cara para proteger o resto das mulheres.”

Foi também por isso que Marcella começou a espalhar folhas brancas nas casas de banho da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde está no segundo ano de licenciatura em Línguas, Literaturas e Culturas, para incentivar vítimas de violência sexual a falar sobre o que lhes aconteceu.

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Impresso nas folhas estava apenas a hashtag #WhyIDidn’tReport e todo o espaço em branco servia para dar palco a todas as pessoas que quisessem denunciar, anonimamente, os seus violadores. Numa questão de dias, a folha branca ficou repleta de tinta, de dor e de angústia.

“Na primeira vez tinha 15 anos. O meu pai culpou-me, a minha mãe não fez nada e tive que continuar a ver o meu violador todas as semanas. Na segunda vez tinha 17 anos e não disse nada. Foi no mesmo sítio”, lê-se num testemunho. “‘Não és ninguém e por isso ninguém alguma vez vai acreditar em ti’, disse-me ele depois de ter acabado. Tinha apenas 15 anos”, lê-se noutro.

A ideia de espalhar as folhas surgiu depois de ver o formato na internet e ter consciência de que muitos dos casos não são reportados porque “as mulheres não são levadas a sério”. Marcella imprimiu as folhas, colocou-as nas casas de banho femininas da faculdade com a ajuda de uma amiga e esqueceu-se delas.

Tudo mudou quando, dias mais tarde, outra amiga sua lhe enviou uma fotografia de uma das folhas preenchidas. Publicou-a no Twitter e a imagem tornou-se num dos assuntos mais comentados do dia.

“A reação foi incrível. Houve quem me dissesse que tinha ouvido uma rapariga a chorar na casa de banho e esperou que ela saísse para a confortar mas, como nunca mais saía, foi-se embora. Nesse comentário houve alguém que respondeu a identificar-se como a pessoa que estava a chorar. Disse que estava bem, que não tinha sido vítima mas que estava a chorar por todas as outras que eram”, conta.

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A única preocupação da estudante, que estende o seu ativismo a outras atividades como a Greve Feminista Internacional (que vai acontecer a 8 de março para promover a união e a igualdade de direitos para as mulheres), foi afixar as folhas num local estratégico para que a mensagem não se perdesse.

“Só coloquei isto nas casas de banho femininas porque os homens têm o hábito de não levar o assunto a sério. Se estivesse mais público, as pessoas não seriam capazes de se mostrar vulneráveis. Talvez fossem engraçadas e quisessem fazer os outros rir, ou fazer uma qualquer afirmação política.”

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MAGG

O objetivo fundamental da iniciativa é, segundo conta, acabar com a culpabilização das vítimas e dar-lhes oportunidades de se exporem em segurança através de uma posição de denúncia contra a violência que nunca pediram e que não merecem.

E Marcella garante continuar a afixar as folhas brancas durante o tempo que for necessário para terminar com a cultura de culpabilização da vitima e do policiamento (e possessão) do corpo alheio.

“Arranjam sempre forma de nos culpar, seja de que maneira for. Quando somos vítimas de violência sexual, somos sempre as principais culpadas porque nos vestimos de certa maneira, porque bebemos, porque não lutámos contra o violador. Infelizmente estou habituada a ouvir este tipo de comentários, mas revolta-me imenso e é essa mentalidade que quero mudar”, lamenta.