Elas são melhores a desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo, eles só se conseguem concentrar numa coisa de cada vez. As mulheres usam mais as partes direita e esquerda do cérebro, os homens têm uma atividade mais intensa em partes específicas. Demos dois exemplos, podíamos dar muitos mais: não faltam estudos mais ou menos científicos que provam como o cérebro é diferente no sexo feminino e masculino. Para a neurocientista Gina Rippon, porém, isso é tudo uma “neuro-tontice”.

Com um doutoramento em psicologia fisiológica, e especialização em processos cerebrais, a cientista britânica da Universidade de Aston, Birmingham, explica que está na altura de acabar com este mito. A ideia de que os homens e mulheres têm cérebros diferentes surgiu no século XVIII, numa altura em que “as pessoas ficavam felizes por falar dos cérebros de homens e mulheres antes mesmo de poderem olhar para eles”.

Em entrevista ao jornal “The Guardian”, e com base nos estudos que desenvolveu sobre as diferenças sexuais no cérebro, Gina Rippon disse: “A ideia de um cérebro masculino e de um cérebro feminino sugere que cada um tem características homogéneas. Quem tem um cérebro masculino, por exemplo, terá o mesmo tipo de aptidões, preferências e personalidades que o resto das pessoas com aquele ‘tipo’ de cérebro”.

Gina Rippon é professora de neuroimagem cognitiva na Universidade de Aston, Birmingham, Reino Unido

Ora basta sair à rua para perceber que não é assim. “Chegámos a uma altura em que é preciso dizer: ‘Esqueça o cérebro masculino e feminino; é uma distorção, é impreciso. É possivelmente prejudicial também, porque é usado como um gancho para dizer que não faz sentido as raparigas fazerem ciência porque não têm um cérebro ligado à ciência, ou que os rapazes não deveriam ser emotivos”.

A própria história familiar de Gina Rippon prova que isto não faz qualquer sentido: enquanto ela é uma neurocientista conceituada, o irmão é artista.

Biologia é destino? Talvez não

De acordo com Rippon, a ciência já conseguiu provar que o cérebro é moldado desde o nascimento até à velhice, altura em que as nossas células cinzentas começam a desaparecer. Efetivamente a biologia determina o cérebro com que nascemos, mas isso não significa que não possamos desenvolvê-lo. “Se aprender uma nova habilidade, o seu cérebro vai mudar”, explica a neurocientista.

“O cérebro cresce e diminui muito mais do que imaginávamos”. Portanto, se não teve experiências em particular — por exemplo, se enquanto rapariga não brincou com Legos —, é possível que não tenha desenvolvido essa parte do cérebro. Tarefas especiais repetidas várias vezes fazem com que o ser humano fique cada vez melhor a desempenhá-las. “Os caminhos neurais mudam, tornam-se caminhos automáticos”.

Gina Rippon fala frequentemente em escolas, com o objetivo de explicar às crianças que as suas identidades, habilidades, conquistas e comportamentos não são prescritos pelo seu sexo biológico. Nem sempre os pais gostam do que ouvem. “Eles dizem: ‘Eu tenho um filho e uma filha e eles são diferentes’. Eu respondo: ‘Eu tenho duas filhas e elas são muito diferentes’.”

E continua: “Quando falamos de identidade feminina e masculina, as pessoas agarram-se à ideia de que os homens e mulheres são diferentes. Pessoas como eu não negam as diferenças de sexo. Claro que existem diferenças de sexo. Anatomicamente, os homens e mulheres são diferentes. O cérebro é um órgão biológico. O sexo é um fator biológico. Mas não é o único fator; cruza-se com tantas variáveis”.

Então podemos afirmar que não existem diferenças significativas com base apenas no género? Gina Rippon responde que não — e garante que sugerir o contrário é uma “neuro-tontice”.