Camas escondidas, casamentos a fingir e vidros espelhados. Assim era o rancho de Michael Jackson

Foi na piscina, no jaccuzzi ou nos quartos de Neverland que duas vítimas dizem ter sido abusadas pelo cantor. Documentário chega em março.

As duas vítimas são as figuras centrais do novo documentário polémico sobre Michael Jackson

Getty Images

Foi em meados de 1983 que Michael Jackson entrou, pela primeira vez, naquele que viria a ser o seu rancho privado, já que era lá que o artista e Paul McCartney se encontravam para gravar o videoclipe de uma canção. Segundo escreveu La Toya Jackson, irmã do rei da pop, no seu livro “Starting Over”, terá sido nessa mesma altura que Michael Jackson lhe confidenciou que um dia iria comprar a propriedade.

“‘Queres mesmo isto, Michael? Parece tão pouco cuidado’, disse-lhe. ‘Vais ver’, respondeu. Na altura não disse mais nada porque não o queria deixar em baixo. O Michael era um visionário e a verdade é que acabou mesmo por comprar os terrenos por cerca de 17 milhões de dólares [15 milhões de euros] e transformou aquele rancho na sua casa de sonho: Neverland”, revelou a irmã.

O nome era inspirado na Terra do Nunca das histórias de Peter Pan, um rapaz que nunca crescia. Tal como ele, Michael Jackson queria ser criança para sempre e era em Neverland que encontrava refúgio da fama e da pressão mediática decorrente do sucesso que tinha alcançado.

Em Neverland havia tudo o que uma criança podia querer: doces, animais e várias atividades divertidas. E foi isso que o fez abrir o parque a vários miúdos que o quisessem visitar. Muitos iam e vinham no mesmo dia, mas outras ficavam, permaneciam com o cantor e chegavam mesmo a viver (e a crescer) com ele.

Foi o caso de Wade Robson e James Safechuck que, dizem no novo documentário polémico sobre Michael Jackson, “Leaving Neverland”, terem sido abusados sexualmente mais do que uma vez pelo cantor.

Entre 2004 e 2005, os dois defenderam o artista, chegando mesmo a jurar nunca terem sido vitimas. Em 2013 mudaram a sua versão e os detalhes são perturbadores e capazes de chocar os leitores mais sensíveis.

O rancho privado e luxuoso de Michael Jackson custou cerca de 15 milhões de euros

A manipulação e os casamentos a fingir

Segundo Safechuck, que agora tem 40 anos, Michael Jackson tinha por hábito aliciar as crianças com produtos que elas queriam muito ter. Na altura, James Safechuck gostava de joias e Jackson usava isso para o manipular e o levar a fazer aquilo que ele queria.

Levava-o a lojas de alta joalharia e pedia-lhe que escolhesse entre os vários acessórios disponíveis, dizendo sempre que era para uma mulher. Devido aos pulsos pequenos e pouco robustos de James, era fácil passar despercebido e Jackson nunca levantou suspeitas.

Depois de testados e escolhidos, o rei da pop comprava todos os artigos e só os oferecia a James depois de um casamento a fingir onde os dois teriam de fazer juras de amor eterno.

Esta versão dos factos é corroborada por Wade Robson, 36 anos, que diz que Michael Jackson mantinha várias relações com crianças. Chamava-lhes “amizades” e eram quase sempre seladas com faxes (uma tecnologia muito utilizada na década de 80) e cartas de amor.

As mensagens que Jackson enviava “às suas crianças” eram várias, mas todas elas tinham como único propósito demonstrar a sua devoção total. “Amo-te muito, meu pequenino” ou “Faz-me feliz e sê o melhor que conseguires”, são só alguns exemplos. Mas há mais que, segundo revela a mãe de Robson no documentário, “chegavam a cobrir o chão todo” da sala de estar da família.

O rancho estava repleto de camas escondidas

Mas os detalhes mórbidos de um dos casos mais mediáticos dos últimos anos não se ficam por aqui. É que embora Neverland seja uma personificação do espírito juvenil e inocente que Michael Jackson queria manter, o novo documentário mostra uma faceta bem mais negra do rancho privado e luxuoso do cantor.

É que toda a estrutura do edifício era composta por compartimentos secretos ou cantos privativos que, segundo James Safechuck, foram usados pelo artista para o molestar diversas vezes.

Mas havia também uma compartimento ainda maior (e selado) nos aposentos de Jackson com vidro espelhado — em que era possível ver do lado de dentro para fora, mas o contrário já não era possível. Da mesma forma, se alguém estivesse nos compartimentos superiores nunca conseguiria ver o que se passava lá em baixo.

O secretismo e a impossibilidade de as vítimas fugirem transformavam o parque temático numa espécie de masmorra.

Michael Jackson e Wade Robson, uma das vítimas e uma das figuras centrais do documentário

A estação de comboios de Neverland tinha sótãos escondidos com várias camas, e diz James que foi aí que muitas vezes era abusado, sem que pudesse pedir ajuda ou chamar alguém. Na impossibilidade de usar um desses sítios, era na piscina ou no jacuzzi que era forçado a sexo oral, garante.

Foi depois de 1993, altura em que surgia o primeiro caso de denúncia de abusos sexuais, que Michael Jackson e Wade Robson se voltaram a aproximar. No documentário, Robson diz que foi violado pelo cantor por diversas vezes quando era pequeno e que, quando o voltou a encontrar, já com 14 anos, estava quase tão alto como Jackson.

Porém, o reatar da relação levou a uma nova tentativa de violação, segundo conta. O rei da pop terá convidado Robson ao seu quarto de hotel, em Los Angeles, e terá tentado penetrar o jovem que gritou de dor.

No dia seguinte, conta Robson, uma secretária terá pedido uma reunião urgente com ele e foi aí que lhe ordenou a roupa interior que o jovem tinha usado na noite anterior. “Se tiver sangue, tens de te livrar disso”, revelou no documentário. O jovem acedeu e terá mandado para o lixo as suas cuecas com sangue.

Michael Jackson criou armadilhas para o alertar caso alguém estivesse por perto

Segundo James Safechuck, terá sido no início da relação com Jackson que descobriu que o cantor tinha criado vários engenhos e armadilhas que o alertavam sempre que alguém estivesse por perto do seu quarto. O objetivo? Permitir-lhe nunca ser apanhado a violar os jovens com quem dividia o seu Neverland.

Desde engenhos de som, pedaços de chão falso ou campainhas presas às portas, havia de tudo para garantir que sempre que alguém se aproximava do seu quarto (que tinha sempre um lençol branco no chão) o rei da pop seria alertado de maneira a poder esconder-se.

A informação é corroborada pelas duas testemunhas e figuras centrais do novo documentário, que adiantam ainda que o artista organizava muitos exercícios e brincadeiras em que o objetivo era ver quem conseguia ficar nu o mais depressa possível.

“Leaving Neverland”, o documentário polémico realizado por Dan Reed, chega à HBO em duas partes, lançadas a 3 e 4 de março.

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