“Não é atriz”, “não tem vocação” e “teve a sorte das feias”. Atriz de “Roma” fortemente criticada

A mexicana está nomeada para o Óscar de Melhor Atriz mas a classe não concorda. As críticas vêm de atores, realizadores e apresentadores.

Antes de participar em "Roma", Yalitza era professora da pré-escola

Yalitza Aparicio está nomeada para o Óscar de Melhor Atriz pela interpretação em “Roma“, da Netflix. O filme está nomeado para dez categorias na maior cerimónia de cinema. Segundo a “BBC Brasil“, a atriz tem recebido fortes críticas devido à nomeação — e não é nas redes sociais.

“Não é atriz”, “não tem vocação nem futuro na área” e “tem a sorte das feias”. Estas são apenas algumas das críticas feitas à atriz mexicana, por outros atores, realizadores e apresentadores de televisão, inconformados com o sucesso de Yalitza. Ao saber destas declarações, a atriz disse: “Estou orgulhosa de ser uma indígena oaxaqueña e só lamento que haja pessoas que não sabem o significado correto das palavras.”

A declaração mais recente foi do ator Sergio Goyri, que pediu desculpas depois de ter sido partilhado um vídeo no qual aparece a reclamar de terem “nomeado uma índia” ao Óscar.

Na semana passada, foi divulgado um grupo de atores que tentou evitar que Yalitza fosse escolhida como Melhor Atriz no prémio Ariel, entregue pela Academia Mexicana de Artes e Ciências – o mais prestigiado do país.

A tentativa de boicotar a nomeação da atriz de origem indígena foi divulgada no Twitter por Rossana Barro, coordenadora do Festival Internacional de Cinema Morelia.

“Soube que há um grupo de atrizes mexicanas que está a organizar-se para pedir à academia de cinema que Yalitza Aparicio não seja considerada para a categoria de Melhor Atriz”, escreveu Rossana Barro, a 11 de fevereiro. “É a coisa mais medíocre, patética e vil que já ouvi. Não direi mais nada”, acrescentou.

Não se sabe quem fazia parte do grupo e há quem questione até a sua existência. Mas a cineasta María José Cuevas, autora do documentário “Bellas de Noche” (Belas da Noite), disse que a tentativa de boicote, de facto, existiu.

“Sim. Confirmado por vários lados”, disse a cineasta pelo Twitter, ao ser questionada sobre se a “fofoca” correspondia ou não à realidade.

O alegado boicote é parte da controvérsia que rodeia Yalitza Aparicio no México, especialmente após a sua indicação para a categoria de Melhor Atriz. A mulher é a segunda atriz mexicana a conseguir esse feito, depois de Salma Hayek, em 2003, pela participação no filme “Frida“.

Antes de participar em “Roma”, Yalitza era professora da pré-escola em Tlaxiaco, no estado Oaxaca, México. Os críticos à sua nomeação questionam a rápida ascensão na carreira. Um dos comentários mais frequentes é o de que Yalitza alcançou a fama “por sorte” e que nunca se preparou para atuar como atriz. Quem vê as coisas desta forma, não acredita que Yalitza possa competir com protagonistas experientes. A apresentadora de televisão Elsa Burgos manifestou a sua indignação pelo Facebook.

“Não estou a desvalorizar o trabalho de ninguém. Cada um sabe como e quando vai chegar onde quer. Mas, sinceramente, digam-me: A atuação de Yalitza é espetacular para que seja nomeada para o Óscar?”, questionou.”Ela não atuou. Ela é assim. Fala assim, comporta-se assim, como a Cleo [nome da personagem de Yalitza no filme]. O Óscar dá-se a uma atuação que não tenha nada a ver com o ator.”

Outra declaração que gerou polémica foi da cantora Yuri  Canseco, que durante uma entrevista disse estar contente por ver alguém “com aquele tipo físico” a concorrer ao prémio. A atriz Laura Zapata também criticou a aparência de Yalitza quando os jornalistas perguntaram a sua opinião sobre o sucesso da protagonista de “Roma”.

“Que sorte, né? É a sorte das feias”, respondeu. O comentário foi muito criticado nas redes sociais — Zapata reagiu dizendo que tinha sido uma brincadeira.

Nas redes sociais houve muita reação às críticas, com utilizadores a dizer que Yalitza está a ser alvo de inveja e/ou discriminação. O ator mexicano Diego Luna, por exemplo, afirmou que não precisa de ver “Roma” para saber do “racismo e a estratificação social” do México.

O que tem respondido a atriz?

“Eu não sabia muito sobre cinema. Afastei-me totalmente do cinema porque considerava que não me pertencia, que era um mundo de sonhos a que eu não podia aspirar, porque nenhuma mulher que eu via no ecrã se parecia comigo”, afirmou em entrevista à imprensa Yalitza. “Agora que comecei a pesquisar mais, já sei que há muitos atores incríveis que, sem ter estudado representação, chegaram a ser grandes”, concluiu.

Ao ser questionada sobre as críticas que tem recebido, em entrevista a uma emissora de televisão mexicana, a atriz de “Roma” evitou alimentar a polémica. “Falar sobre esses comentários é dar-lhes maior importância. Respeito a opinião de cada um. Eu fico sempre feliz com a vitória dos outros, não costumo criticar. Mas todas as opiniões são bem-vindas”, disse.

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