Dedicar a vida a fazer a diferença. Histórias de mulheres que vivem para ajudar

Marta foi ameaçada de morte, Ana ficou chocada com uma sala cheia de bebés inativos e Manuela construiu um infantário onde não havia nenhum.

Da direita para a esquerda, Marta Baeta, Ana Lúcia e Manuela Miranda

Muitos de nós já pensámos, em algum momento da nossa vida, em fazer voluntariado ou partir numa aventura para ajudar os outros. Muitas vezes estas ideias não passam disso mesmo, ideias, seja por falta de tempo ou de coragem. Mas há quem as ponha em prática e vá realmente em frente.

Mais: há ainda quem não se contente com apenas um ou dois meses fora, e acabe por dedicar a sua vida a fazer a diferença. Marta decidiu fazer voluntariado internacional numa das maiores favelas do mundo e morreu de medo no primeiro dia por causa das pessoas e das galinhas — tem pavor a aves. Ana foi de férias para Cabo Verde e, sempre com vontade de se envolver na cultura local, foi visitar uma sala para bebés. Ficou em choque: enquanto terapeuta ocupacional, não conseguia perceber como é que aquelas crianças não tinham qualquer estímulo ou atividade. Já Manuela, há vários anos que movimenta toda uma escola para ajudar Sogá — tanto que até já conseguiu construir o primeiro e único infantário da ilha.

Contamos-lhe as suas histórias.

Marta queria mudar o mundo. Pouco a pouco, está a fazê-lo numa das maiores favelas do mundo

Às sete da manhã, Marta Baeta, 30 anos, chegou a Kibera, em África, uma das maiores favelas do mundo com cerca de dois milhões de pessoas, a grande maioria com menos de 18 anos. Para chegar teve de andar em dois matatus (carrinhas de transporte de pessoas). Marta, natural do Barreiro, descreve o dia em que chegou como “um caos completo”. As pessoas abordavam-na na rua, aos berros. Ouvia constantemente “How are you?” (como estás, em tradução livre). Pelas ruas de Kibera, cruzou a linha de comboio e ia muito atenta ao caminho, para o decorar. Licenciada em Relações Públicas e Comunicação Empresarial, a mulher relata que, naquele dia, achava que se alguma coisa acontecesse, “tinha de saber fugir dali sozinha”.

Havia galinhas por todo o lado, o que a fez entrar em pânico pois tem pavor a aves. Juntamente com os animais, havia também “muitas crianças e muitos cães pelas ruas”.

Bernard e a Frida, diretores da escola onde Marta ia ser voluntária, estavam à sua espera. No caminho, pararam para visitar uma escola/igreja, também do casal: um espaço grande, aberto e cheio de crianças. Escuro e sem janelas, todas elas aprendiam ali, quer tivessem 2 ou 12 anos, com quatro professoras ao mesmo tempo.

Continuaram em direção à escola onde Marta Baeta ia ser professora voluntária. Marta recorda-se de ver crianças a brincar no lixo e a mergulharem numa água muito preta — estava muito calor nesse dia. Viu também dois homens a despejarem o interior de uma casa de banho num balde gigante para o rio. “Foi nojento!”, confessa.

Sempre quis fazer coisas em grande e deixar uma marca no mundo. Esta foi a maneira que encontrei de fazê-lo”

Na chegada à escola, Marta foi muito bem recebida pelas crianças e pela professora Hellen. Tão bem recebida que, atualmente, vive em Kibera e já não pensa regressar a Portugal. Os primeiros tempos não foram fáceis e a professora admite ter tido muito medo. “Kibera era enorme, achei que me ia perder constantemente.” Felizmente, o bom sentido de orientação ajudou-a. A língua também foi um entrave, pois não sabia falar inglês — nos primeiros tempos, não conseguia perceber ninguém e ninguém a conseguia perceber. Por isso, quando não estava dentro da “escolinha”, como lhe chama carinhosamente, andava sempre acompanhada pelos diretores da escola ou por algum dos funcionários.

A primeira experiência de voluntariado internacional aconteceu em 2012. Era um sonho antigo, até porque as ações que ia fazendo em Portugal faziam-na querer “desafios maiores.” “Sempre quis fazer coisas em grande e deixar uma marca no mundo. Esta foi a maneira que encontrei de fazê-lo.” A fundadora da Associação From Kibera With Love esteve três meses a dar aulas em Kibera nesse ano, durante um semestre livre da faculdade.

Não foi fácil juntar dinheiro para fazer esta viagem para África. Além do voluntariado em Portugal, Marta sempre trabalhou e estudou — aos 16 anos o pai abriu um bar de jazz e a jovem começou a ajudar aos fins de semana, conciliando com os trabalhos de animadora de festas infantis. Nas férias de verão, sempre passadas no Algarve, diz que “fez um pouco de tudo”, desde a área da restauração, lojas ou até na praia.

“Desde pequena que me habituei a vender coisas minhas e feitas por mim para ter dinheiro, e antes de vir para o Quénia a primeira vez, decidi fazer o Bazar da Marta, que ainda hoje vai existindo e vende tudo o que não precisa”, conta.

Marta Baeta, 30 anos, fundou a associação From Kibera With Love

Oficialmente uma associação sem fins lucrativos apenas desde o final de 2016, From Kibera With Love existe para Marta Baeta desde “o primeiro dia” em que pisou Kibera e começou a mobilizar os “seus” para mudar a vida destes miúdos. A principal missão “começou por ser garantir a educação às crianças de Kibera”, mas neste momento passa por “garantir e oferecer todas as ferramentas e oportunidades para que estas crianças e as suas famílias tenham uma vida melhor no futuro”, explica.

Entre 2012 e 2014 fez inúmeras viagens de Portugal para o Quénia e do Quénia para Portugal. Em abril de 2015, Marta decidiu deixar o seu País e arrendar uma casa para se mudar para Kibera, sendo que na altura já namorava com Brian, um rapaz que conheceu na favela. Uns meses mais tarde, arrendou o espaço onde nasceu o centro educativo e onde “tudo acontece agora, todos os dias.”

Lidar com algumas situações nem sempre é fácil, mas Marta revela que a sua maior motivação é “ter a certeza que algumas destas crianças irão brilhar no futuro e irão também elas ajudar outras crianças quando crescerem.” No entanto, a professora lida todos os dias com preocuoações, nomeamente “pelo ambiente em que as crianças estão inseridas, as violações, as gravidezes não desejadas e cedo demais e o HIV.”

Apesar de até já ter sido ameaçada de morte, Marta Baeta não desiste e diz mesmo que não tem medo de viver em Kibera — é até “muito feliz”. No dia a dia é possível esquecer-se de alguns perigos, e, como conta, vai a pé para o centro e compra quase tudo o que precisa na rua a preços muito baratos — as pessoas já a conhecem. No entanto, explica, algumas continuam “a abordar-me constantemente por ser branca, mas tenho aprendido a lidar com isso”.

Para ajudar monetariamente a associação, existem padrinhos para cada criança, sendo estes os principais financiadores, que asseguram as necessidades básicas dos afilhados, como escola, saúde, alimentação e atividades. Para além disso existem alguns doadores esporádicos. Existem ainda muitos voluntários espalhados por Portugal e por outros locais do mundo, que angariam fundos ao longo do ano através da venda de artesanato do Quénia ou com a realização de eventos de angariação de fundos. Marta Baeta explica que, em breve, querem começar a ter sócios.

Para 2019, a associação “precisa muito de padrinhos responsáveis e comprometidos.” No entanto, é possível ajudar de uma forma mais simples, sendo voluntário no Quénia ou em Portugal. “Pontualmente também fazemos recolhas de bens específicos que nos fazem falta em determinado momento. Qualquer pessoa pode realizar em conjunto com os amigos uma angariação de fundos de forma a ajudar-nos”, explica.

Ana foi de férias para Cabo Verde e ficou chocada com o que viu

Ana Lúcia Frutuoso foi de férias para Cabo Verde em 2010 e, embora apaixonada por viagens, não se fica apenas pelos hotéis. Nascida em Vila Real, quando vai de viagem gosta de dedicar-se a “conhecer a cultura, as pessoas, os costumes e as comunidades”. Nessa primeira viagem conheceu uma associação em que as crianças até aos 2 anos ficavam numa sala, sem qualquer atividade ou estímulo. Quando estava a subir as escadas, ouvia muitos bebés a chorar. Quando entrou, porém, cerca de 20 bebés começaram a gatinhar e a cambalear na sua direção, e a gritar: “Olá, olá”.

No entanto, o facto de estarem sem nenhuma atividade preocupou Ana, que é terapeuta ocupacional, e fez com que sentisse necessidade de ajudar aquelas crianças a passar melhor o tempo. Durante as férias começou a ajudar e, em 2012, voltou a Cabo Verde.

Deixei o meu emprego estável para me dedicar ao que realmente gosto. É gratificante saber que fazemos a diferença”

Um ano depois, foi a vez de convidar a irmã, enfermeira, a viajar com ela. Fizeram 15 dias de voluntariado. As duas começaram a intervir no centro com os bebés, e durante a estadia tomaram conhecimento da realidade “através de contactos com famílias e mães com filhos que tinham determinada deficiência e que não sabiam como lidar com eles”, explica Ana Lúcia.

Ana Lúcia Furtuoso, SER + DAR +

“SER + DAR + Terapeutas Sem Fronteiras” foi criada em maio de 2016, quando a necessidade de Ana Lúcia, sentida nas primeiras viagens a Cabo Verde, começou a despertar interesse em mais pessoas, “que começaram a ir como voluntários e, mais tarde, como colaboradores”. Isto permitiu alargar o número de vezes que a associação se deslocava às ilhas de Cabo Verde. “Deixei o meu emprego estável para me dedicar ao que realmente gosto. É gratificante saber que fazemos a diferença.”

A ideia da associação passa sempre por juntar um grupo de pessoas, de várias áreas profissionais — como as terapias (terapia ocupacional e da fala), psicologia, fisioterapia e reabilitação psico-motora. Ana percebeu que, apesar de muitas associações atuarem na perspetiva de doar materiais, há necessidades que fazem ainda mais a diferença.“A ajuda deve passar não só por dar, mas em capacitar”, explica. Assim, a Ser + Dar + atua principalmente na área da saúde, através de rastreios médicos, por exemplo, e na educação, através de formações nas escolas que ajudam os professores a saber como lidar com alunos com determinada deficiência, mental ou motora.

No ano passado, a associação começou a tratar também da área de empreendedorismo feminino, pois “existem muitas mulheres solteiras, mães muito cedo, que ficam sem atividade profissional e sem saber o que fazer”, explica Ana Lúcia. “Tentamos de alguma forma capacitá-las para pensarem no que podem fazer com os seus pontos fortes, por exemplo na área do artesanato, muito presente na cultura cabo-verdiana.”

Ana não quer passar a imagem dos “pobrezinhos e coitadinhos”, que às vezes é “o que os turistas querem ver quando vão a estes locais”, mas sim focar-se no empowerment que ela e a associação querem dar, quer aos profissionais quer às famílias de Cabo Verde.

Antes de cada missão, existe a designada “pré-missão”, onde uma equipa entra em contacto com as associações parceiras e câmaras municipais, de modo a saber as necessidades da comunidade naquela altura do ano. “Precisamos de recursos humanos e de voluntários para que seja possível continuar a fazer este trabalho.”

No que toca ao financiamento, neste momento cada voluntário tem de pagar a sua viagem, “o que para algumas pessoas é um entrave”, confessa. No entanto, a partir do momento em que a SER + DAR + tiver três anos de funcionamento, poderá candidatar-se ao Estatuto de Utilidade Pública e concorrer a financiamento, como por exemplo do Instituto de Camões. Apesar disto, existem muitas candidaturas para partir rumo a Cabo Verde, que são aceites de acordo com as áreas necessitadas. “No ano passado, pediram uma nutricionista e, por isso, foi selecionada”, mas a ideia é “criar um grupo variado, com áreas profissionais distintas.”

Alguns donativos têm de ser enviados por contentores, no entanto nem sempre corre tudo bem e ficam presos na Alfândega durante muito tempo. Este é um dos principais entraves que, segundo a fundadora da associação, “por vezes desmotiva.”

Apesar de terem formação, os voluntários sentem uma ligação tão grande com Cabo Verde e com os cabo-verdianos que confessam que o que falta é “estarem preparados para voltar”. Além disso, “é importante alertar as pessoas mais sensíveis para o facto de verem algumas crianças com debilitações e deficiências que não se veem em Portugal.”

Neste momento a associação atua em seis ilhas de Cabo Verde: São Vicente, Santo Antão, São Tiago, Boa Vista e Sal. Este ano vai pela primeira vez para a ilha do Fogo.

“A minha vida tem um antes de Sogá e depois de Sogá”

Manuela Miranda é professora de Educação Moral e Religiosa Católica na Escola Secundária de Cantanhede, do Agrupamento de Escolas Lima de Faria. Em 2014 viajou rumo à Guiné Bissau numa missão de voluntariado, com mais cinco pessoas. Atualmente, a professora faz parte da direção dessa mesma associação, hoje intitulada “S.O.G.A – Servir Outra Gente com Amor”.

A ilha de Sogá, na Guiné Bissau, é um dos sítios mais pobres do mundo. “Quando cheguei, o embate com a realidade foi muito forte,  quase me senti a recuar a tempos primitivos”, confessa Manuela. Na ilha, revela, não existia (e continua a não existir) saneamento básico nem eletricidade. As pessoas comem apenas uma vez por dia, uma refeição à base de arroz, e não têm água potável disponível, embora já existam, “com a ajuda da S.O.G.A”, dois filtros comunitários. Tomam banho com água de poços e têm uma alimentação muito reduzida.

Foram os próprios habitantes da ilha que construíram o jardim de infância, com um pedreiro com alguma formação a conduzir os trabalhos”

Por estas razões, durante o mês em que esteve em Sogá, Manuela Miranda não conseguiu ficar indiferente ao que viu. Quando voltou a Portugal, já vinha com um pedido: ajudar a construir um infantário para as crianças, já que na ilha não existia nenhum. Assim, começou a passar a mensagem aos alunos da escola secundária, onde, em conjunto, começaram a “desenvolver atividades solidárias, desde festas de angariação de fundos e campanhas de mealheiros por turma”. Durante um mês, um mealheiro era distribuído por cada turma da escola secundária, onde os jovens iam pondo algum dinheiro. No fim desse mês, os donativos eram recolhidos.

Manuela Miranda, 56 anos, fundou a S.O.G.A — Servir Outra Gente Com Amor

O primeiro objetivo era conseguir dinheiro para construir o edifício do jardim de infância. À medida que iam conseguindo angariar fundos para a obra, iam enviando para a Guiné Bissau o dinheiro. Isto permitia a compra dos materiais de construção. Há uma estreita ligação entre a associação portuguesa S.O.G.A e os voluntários guineenses, que apoiam e acompanham os projetos humanitários no seu próprio país. Entre esses voluntários destaca-se a figura de Crito, nativo da ilha de Sogá, que estudou graças ao apoio da associação e que, sendo atualmente professor em Bissau, “é a pessoa que possibilita que haja uma permanente ligação entre a ilha e a S.O.G.A”.

“Foram os próprios habitantes da ilha que construíram o jardim de infância, com um pedreiro com alguma formação a conduzir os trabalhos”, recorda.

A obra demorou mais tempo do que Manuela desejava, mas foi conseguida. O jardim de infância foi inaugurado em agosto do ano passado e começou a funcionar em setembro. Chama-se jardim de infância Manuela Miranda. A associação ajudou ainda a formar, e posteriormente contratar, a educadora de infância Ana Soares, que trabalha em conjunto com duas auxiliares.

O infantário consegue funcionar por dois turnos, um de manhã com 25 alunos, e outro de tarde, também com 25 crianças. Um dos grandes feitos da S.O.G.A foi conseguir que as crianças comam um pão com manteiga uma vez por dia. “Um padeiro da ilha faz o pão num forno a lenha, e nós, enquanto associação, ajudamos a financiar a farinha e a manteiga e pagamos trabalho a quem coze o pão, claro”, explica Manuela. A associação paga à educadora 80€ por mês, e às auxiliares 15€ a cada uma. Parece pouco, mas é preciso considerar que o salário mínimo da Guiné Bissau ronda os 50€.

A associação tem vários voluntários que procuram intervir em várias áreas como a Saúde e a Educação. Manuela Miranda dedicou-se a ajudar na área da Educação e a escola secundária onde trabalha é um dos principais motores da S.O.G.A, que apoia diariamente a comunidade de Sogá. “Todos os dias eles estão no meu coração.” Para Manuela Miranda, o mais gratificante é “ver que conseguimos, de uma forma muito direta, ajudar pessoas com rosto, que depositam esperança em nós e sermos capazes de ver os frutos. Há mudança na vida das pessoas.” A professora confessa: “A minha vida tem um antes de Sogá e depois de Sogá, porque a missão é de tal forma marcante que, mesmo não estando lá, a pessoa quase se sente lá todos os dias.”

Em março, um grupo de três pessoas vai em missão, e a preparação está a ser feita previamente, como acontece com todas. Apesar de todo esse trabalho prévio, é importante relembrar que se correm alguns riscos, como apanhar malária. “Existe um apoio de retaguarda e se for necessária uma evacuação rápida, está tudo previsto”, explica Manuela Miranda. Existe ainda o apoio do Hotel Coimbra, na Guiné Bissau, que oferece o alojamento aos voluntários que partem em missão.

Quanto aos mealheiros, continuam a circular pelas turmas da escola.

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