Wandson: “Acho o termo influenciador muito redutor porque não influencio ninguém”

Tem mais de 75 mil seguidores e, em entrevista, explica o fenómeno e conta como lançou a carreira de uma atriz através de um meme viral.

Wandson tem 32 anos e vive no Porto há dez. O metro e o molho da francesinha conquistaram-no de imediato

Samuel Costa/MAGG

O meu primeiro contacto com o brasileiro Wandson Lisboa, 32 anos, foi totalmente por acaso e aconteceu na última edição da Web Summit, que decorreu entre 4 e 7 de novembro de 2018, em Lisboa. Depois de terminadas as conferências mais importantes da manhã, era no buffet do maior evento de tecnologia e empreendedorismo da Europa que jornalistas, influenciadores e criativos se juntavam no mesmo espaço para almoçar, relaxar e preparar o resto do dia.

Foi aí que encontrei Wandson visivelmente perdido e confuso, com vários pratos na mão e sem saber para onde ir. Não quis atrapalhar ainda mais e não o abordei.

“Estou sempre atrapalhado, mas podia ter vindo dar um olá. Da próxima vez já sabe”, disse-me por mensagem. Três meses depois voltámos a encontrar-nos, mas desta vez marcámos um local e hora. Ele vinha do Porto para umas gravações em Lisboa e aceitou falar comigo durante o almoço, no restaurante Casanova, em Lisboa.

Os desafios eram vários: tínhamos cerca de uma hora para uma conversa que teria de ser feita durante o almoço, sem pausas, e o risco de o restaurante estar cheio e nos obrigar a mudar de planos era muito elevado. Felizmente, encontrámos mesa, sentámo-nos e as perguntas e respostas surgiam a cada garfada de penne all’arrabiata (um prato simpático de massa curta com tomate, porcini e manjericão).

A primeira pergunta era simples: como é que um designer gráfico do Maranhão, no Brasil, conseguiu acumular mais de 75 mil seguidores, tornar-se numa espécie de follow obrigatório do Instagram e ainda ser considerado, pelo “The Huffington Post”, em 2015, como um dos utilizadores mais criativos de sempre da plataforma? Para Wandson foi tudo uma questão de usar a rede social como uma forma de pensar fora da caixa.

Em que é que a menção do “The Huffington Post” mudou a sua forma de trabalhar?
O Instagram sempre foi um ambiente controlado onde eu podia fazer aquilo que queria e com quem quisesse. Depois dessa menção senti que o meu trabalho era mais visionado e as pessoas começavam a olhar mais para aquilo. Comecei a sentir uma certa pressão social para não perder o título.

É por isso que é importante ser boa pessoa e não ser idiota com ninguém [risos], porque nunca se sabe o que vem por trás de certas abordagens

Fiquei com aquela sensação de querer fazer melhor o meu trabalho, já que eram cada vez mais as pessoas que o viam. E foi justamente isso que aconteceu: tentei melhorar ainda mais aquilo que começou como uma brincadeira e tentei transformar isso num trabalho.

Mas estava à espera? Alguém o avisou?
Nada, zero. O que aconteceu foi que dois rapazes, que estavam a viajar pelo Porto à procura de vários criativos, me contactaram na altura e acabámos a jantar e a passear para nos conhecermos. Mas na verdade eles estavam a escrever um artigo e nunca falaram isso para ninguém.

É por isso que é importante ser boa pessoa e não ser idiota com ninguém [risos], porque nunca se sabe o que vem por trás de certas abordagens.

Mas antes disso o Wandson já era seguido em Portugal, não?
Sim, mas também não estou assim mega famosão. Mas ajudou muito, não tanto pelos seguidores mas sim para afirmar para mim mesmo e para as outras pessoas que aquilo que eu estava a fazer era uma coisa palpável e não somente uma coisa de internet.

Uma das maiores e mais importantes premissas para mim é não estar tão envolvido com isso de ser influencer mas, ao mesmo tempo, usar o Instagram como uma espécie de portfólio para mostrar o meu trabalho.

E o que é o seu trabalho?
É pegar nas coisas em que eu acredito, como objetos aleatórios, brinquedos ou comida, e brincar com a ambiguidade e dualidade das coisas. E isso faz com que eu pense nelas de forma conjunta.

A saudade da família e o momento crítico do Brasil

Está em Portugal há quanto tempo?
Há cerca de dez anos. Saí do Maranhão para o Porto.

Se algum dia me virem a viver em Lisboa é porque já estou ganhando muito dinheiro e consigo pagar uma casa e não dormir debaixo da ponte

E o que encontrou cá que o tenha feito ficar?
O molho da francesinha, o metro, porque no Maranhão, no Brasil, não havia metro, e até mesmo a tranquilidade do País. Poder ir para qualquer lado de metro e chegar em casa ainda cheirosinho, é bom mas não ponha isso [risos]. É que no Maranhão tem um sol grande e faz muito calor lá.

As pessoas são muito abertas e vir para cá foi como nascer de novo. Mesmo agora muitos dos meus seguidores me dizem que eu tenho de me mudar e sair de onde estou e eu digo sempre que já fiz isso. Já saí do Brasil e vim para outro país. Não sei o que vai acontecer a seguir, mas para já estou cá e gosto muito de estar aqui.

Como é estar habituado ao metro do Porto e depois andar no de Lisboa?
É muito diferente, no metro do Porto o pessoal espera que os outros saíam. Em Lisboa não, todos entram junto e eu fico muito stressado quando tenho de andar de metro em Lisboa. Tiveram até de meter cartazes na porta do metro para deixar as pessoas sair primeiro e no Porto não tem nada disso, não. No Porto é só paz e amor.

Apesar de viver no Porto, são várias as vezes em que tem de se deslocar até Lisboa. A mudança de cidade é o passo natural ou não quer mudar?
Não quero nada mudar, até porque não estou conseguindo comprar ou arrendar casa em Lisboa. Uma casa em Lisboa é muito caro e eu estou vivendo numa casa muito boa no Porto com um pessoa em que confio, que é um amigo meu, e é muito importante ter esse laço de amizade e de família no Porto.

Em Lisboa tenho muitos amigos mas para já não está nos planos, até porque é uma cidade um bocado caótica para mim. Se algum dia me virem a viver em Lisboa é porque já estou ganhando muito dinheiro e consigo pagar uma casa e não dormir debaixo da ponte.

Mas gostava?
Sim, claro que sim. Mas para já não dá, mesmo.

Quando as minhas primas gozavam comigo eu pegava fita-cola e fazia uma espécie de barreira para que elas quando chegassem à noite do trabalho ficassem presas à entrada

Até porque o seu último nome é mesmo Lisboa e ainda há quem não acredite.
É mesmo. O meu nome é Wandson Pereira Lisboa e ainda no outro dia estava falando com o meu pai sobre isso. Nasci assim e me lembro que quando era criança dizia que gostava de viver em Portugal, sem nunca pensar estar profetizando alguma coisa.

Acha que estava destinado ou não acredita no destino?
[Depois de um longo silêncio] Nesta parte vai ter de escrever “Wandson faz um longo silêncio para pensar” [risos]. Mas não sei, acho que as coisas acontecem por alguma razão. Não digo que as coisas estão destinadas mas, olhando para trás, acho que não tinha coragem de fazer isto outra vez: deixar o meu país aos 22 anos e começar do zero.

Uma coisa vai puxando a outra, os amigos que vai conhecendo levam a outros amigos e, se for boa pessoa, as coisas vão acontecendo de forma natural.

Mas deixar o Maranhão e vir para o Porto foi uma decisão consciente?
Não, nada do que faço é consciente. Foi mais de coração. Eu tinha feito o curso de Comunicação Social, depois fiz a pós-graduação em Design Gráfico e só pensava que queria mais. Queria mostrar para meus pais que conseguia mais e vim para o Porto nessa altura.

Quando o tema é futebol toda a gente se ama e se abraça, mas na política não há tolerância. Claro que eu não apoio e nunca vou apoiar o Bolsonaro, mas talvez tudo isto seja uma forma de a gente tentar lutar por uma coisa boa que é o nosso país

Quis melhorar a minha vida e dar um outro passo e achava, genuinamente, que São Luís do Maranhão era demasiado pequeno para mim.

As publicações de Wandson são repletas de cor e alegria

Wandson

Sempre foi um miúdo irrequieto e determinado?
Claro que sim, acho que fui a pessoa que mais trabalho deu para todo o mundo lá em casa. Olhando para trás, sou capaz de ter tido um demónio dentro de mim porque eu era o mais chato da família. Quando as minhas primas gozavam comigo eu pegava em fita-cola e fazia uma espécie de barreira para que elas, quando chegassem à noite do trabalho, ficassem presas à entrada.

Fazia armadilhas para as pessoas lá de casa que gozavam comigo e dei muito trabalho aos meus pais, mesmo [risos].

A sua família continua no Brasil?
Sim, estão todos lá.

Como é lidar com a saudade neste momento crítico do seu país?
Ainda não sei, sinceramente. Estamos a falar de política, não é?

Sei que não gosta de falar de política…
Está louco? Eu amo [risos]. Não sei se está crítico, mas sei que está um pouco polarizado. Está tudo muito explosivo e as pessoas estão muito nervosas, mas essa tensão pode ajudar a que as pessoas mais tarde olhem para trás e percebam que o mais importante é se gostarem e serem boas de carácter.

Quando o tema é futebol toda a gente se ama e se abraça, mas na política não há tolerância. Claro que eu não apoio e nunca vou apoiar o Bolsonaro, mas talvez tudo isto seja uma forma de a gente tentar lutar por uma coisa boa que é o nosso país. Nesse sentido talvez possamos falar de um momento crítico e lutar com a saudade no meio de tudo isso. É complicado mas ainda bem que existe o WhatsApp.

Wandson diz ter sido o primeiro a criar um meme viral no Maranhão e lançou a carreira de uma atriz

Samuel Costa/MAGG

É uma distância que se tolera?
Sem dúvida. Quando eu cheguei aqui só tinha o Skype e ninguém mais usa o Skype. Agora temos o FaceTime e estamos sempre em contacto. Também é muito bom saber que o meu pai vê sempre as minhas Stories e quando ele vê e não diz nada é um alívio.

Quando manda mensagem geralmente é para dizer que eu estou brincando demais e para tomar juízo [risos].

Eu sempre gostei de criar muitos memes e posso dizer que fui a primeira pessoa do Maranhão a criar um meme que se tornou viral.

A brincadeira que lançou a carreira de uma atriz

Mesmo estando longe, continua a dar dores de cabeça à sua família?
Sim, mas mantenho contacto constante com eles. Ainda há pouco falei com o meu pai. Mandei o endereço da minha casa e falei assim: “Olá, quando você consegue entrar dentro de um caixa de presente e se entregar para mim?” E ele só se riu mas a gente fala todo o dia e ele vem cá muitas vezes, o que ajuda muito.

Criou a sua conta no dia em que o Instagram nasceu, em 2010, mas como era a sua vida virtual antes disso?
Eu sempre gostei de criar muitos memes e posso dizer que fui a primeira pessoa do Maranhão a criar um meme que se tornou viral. Foi na inauguração de um shopping, chamado Shopping do Rio Anil, em 2009, onde aquilo encheu por completo e foi o caos.

Na altura eu estava no Twitter e comecei a fazer montagens (que ficaram conhecidas como A Louca do Rio Anil) com a imagem de uma miúda [Mariana Vieira] que lá estava super entusiasmada e ela ficou muito famosa, deu muitas entrevistas e hoje já fez dois filmes [“Muleque Té Doido!” e a sequela]. Eu pensei que ela me ia processar mas, na verdade, veio me agradecer por se ter tornado famosa.

A minha relação com a internet foi sempre essa: nunca gozar com a pessoa, mas sim brincar de forma saudável com as situações. O exemplo dela e super fixe e ainda bem que correu bem mas podia ter dado muito errado para os dois lados.

O metro do Porto e o molho da francesinha conquistaram Wandson de imediato

Samuel Costa/MAGG

Lançou a carreira de uma pessoa. Como é que isso o faz sentir?
Na altura houve uma pessoa que me disse que se eu tinha sido capaz de fazer aquilo com alguém, era perfeitamente capaz de fazer o mesmo mas com uma marca e fiquei com isso na cabeça.

O reconhecimento para mim nunca foi pedido porque eu nunca pedi para ser famoso ou para ser reconhecido na rua

Tem muito cuidado com aquilo que expõe? Já se arrependeu de alguma publicação no Instagram?
Nunca me arrependi de uma fotografia ou de uma Story, mas também tem muito a ver com o meu conteúdo. Há muita gente que finge ser quem não, é ou estar a fazer não sei o quê nas Stories, e isso tira a veracidade à tua pessoa. Eu não finjo nada. Quando faço uma Story no Instagram estou a ser eu mesmo e não estou preocupado em criar uma personagem.

Quando me veem na rua perguntam-me sempre porque é que eu estou tão calmo, mas eu sou mesmo assim. Não vou estar sempre sendo doido na rua.

Mas nunca me arrependi de nada que tenha publicado, até porque quando estou com os copos, por exemplo, nunca faço Stories. Não é para esconder nada, mas se é para beber copos aquele é o meu momento de lazer e serve para comemorar com os amigos e brindar à amizade e não para trabalhar.

O Instagram é como se fosse parte do seu trabalho?
Exatamente.

Apesar de ter Lisboa no nome, é no Porto que Wandson vive e diz que, para já, não há planos de se mudar

Wandson

A responsabilidade de somar mais de 75 mil seguidores no Instagram

É nas Insta Stories que está mais ativo. O que é que pretende com elas?
Eu olho para elas como o meu canal de televisão, posso ter a minha programação, chamar os meus convidados, criar os meus genéricos. Mas não quero nada com aquilo, na verdade. O reconhecimento para mim nunca foi pedido porque eu nunca pedi para ser famoso ou para ser reconhecido na rua.

Foi um processo natural e é muito do que eu gosto de fazer, que é brincar com as coisas e fazer sátira com várias coisas, como a televisão. Posso controlar tudo e não preciso de ninguém para fazer aquilo que eu quero. Se, no processo, puder contar uma história com principio, meio e fim, melhor.

Nunca me vou imaginar ir numa festa e mostrar que me estou a vangloriar por isso. Pelo contrário, quando mostro vários famosos nas festas a que vou é naquela ótica de mostrar que eles estão ali.

Já soma mais do que 75 mil seguidores desde que criou a conta. Sente alguma responsabilidade?
O número de acesso às minhas Stories triplicou ou quadruplicou desde há cinco meses e é muito engraçado ver algumas pessoas que chegam depois e não percebem algumas das brincadeiras que eu faço, como escrever palavras erradas como “murri”.

Tenho alguma preocupação em manter essas pessoas contextualizadas e criar até algum filtro de qualidade. Não quer dizer que não apareça em algum sítio e não faça uma merda polémica, mas a ideia nunca é ser polémico, é sempre mostrar o dia a dia de forma normal porque todo o mundo é normal.

Nunca me vou imaginar ir numa festa e mostrar que me estou a vangloriar por isso. Pelo contrário, quando mostro vários famosos nas festas a que vou é naquela ótica de mostrar que eles estão ali. Eu adoro ver os famosos por isso aquele que eu meto naquelas Stories sou eu mesmo — com todo o meu embaraço e o meu entusiasmo.

Tem dificuldade em rever-se no termo influenciador?
Muita. Acho o termo influenciador muito redutor porque não influencio ninguém. Não me sinto, genuinamente, capaz de influenciar ninguém. Sou um designer e um criativo, ponto.

Me repito: o meu Instagram é um portfólio que uso para expor o meu trabalho e acredito muito no meu trabalho. Como é que eu respondo a isto de forma bonita? Não sei. Me sinto mais um criativo do que um influencer porque gosto de pensar na identidade de uma marca, no rebranding. Enfim, gosto de pensar e ir muito mais além do que receber produtos em casa.

Texto de Fábio Martins, fotografia de Samuel Costa.
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