O que inicialmente seria um projeto para uma casa de férias em Estremoz, no Alentejo, transformou-se numa atividade e numa profissão. Foi em junho de 2018 que o Dá Licença — um hotel que também podemos chamar de guesthouse — recebeu os primeiros hóspedes. Os proprietários, Vítor Borges e Franck Laigneau, 49 anos, viviam em Paris, mas deixaram os respetivos empregos e vieram para Portugal em 2017. Quiseram acompanhar de perto todo o projeto desde o início.

Ao contrário de Franck Laigneau, Vítor Borges já tinha uma ligação à região. “A minha mãe é alentejana, nasceu em Marvão e, portanto, em miúdo, durante muitos anos, vínhamos cá. Nasci em Tomar e depois vivi em Lisboa onde estive na universidade, mas fiquei sempre com uma ligação emocional a esta região do Alentejo”, conta Vítor Borges, à MAGG.

Vitor Borges (esquerda) é natural de Tomar e Franck Laigneau (direita) é francês

Isadora Faustino

Vítor Borges esteve emigrado 22 anos. Trabalhou com marcas de luxo, na parte criativa e de gestão. Viveu em países como Espanha, Inglaterra, Itália, Grécia e, por fim, França. Foi na capital francesa que conheceu o companheiro e sócio Franck Laigneau. Nas férias que passavam em Portugal, a região do Alentejo era um dos destinos favoritos. “Ele [Franck] gostou bastante [da região do Alentejo] e houve um dia que achámos que poderíamos ter algo mais do que o objetivo de uma casa de férias em Portugal. Visitámos a Herdade das Freiras, gostámos muito do espaço e do potencial que tinha”.

Com uma localização única, e onde os hóspedes são brindados com uma vista de 360 graus para a floresta da Serra d’Ossa e para os castelos de Evoramonte e Estremoz, o Dá Licença fica situado em plena Herdade das Freiras, que surgiu em 1830. Foi aqui que viveu uma comunidade de freiras, provavelmente as primeiras ocupantes da zona e quem construiu as primeiras casas. Num segundo período existiu uma cooperativa que explorou o olival e em 1904 viria a ser construído aqui um lagar, que produziu azeite até 1990. A partir daí o espaço ficou abandonado.

Desde junho do ano passado que se transformou no Dá Licença, uma guesthouse composta por três quartos e quatro suites, duas delas com piscina privada, e uma galeria de arte com peças únicas no mundo. O espaço fica numa propriedade com 120 hectares e tem duas piscinas exteriores.

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Porquê o nome Dá Licença?

A origem do nome Dá Licença é a cultura equestre. A ideia veio precisamente das aulas de equitação que Vítor Borges e Franck Laigneau começaram a frequentar. Vítor Borges recorda que sempre gostou muito de cavalos, tinha curiosidade, mas o medo sempre falou mais alto até ao dia em que experimentou, em França, com uns amigos que tinham cavalos e até gostou “bastante” da experiência.

“Começámos a ter aulas de equitação em Estremoz e percebemos que a primeira coisa que se diz quando o cavaleiro está preparado para montar o cavalo é precisamente ‘dá licença’. Percebemos que ‘dá licença’ é uma forma de alertar o outro cavaleiro de que alguém vai entrar e é também um modo de cortesia, em que se pede à outra pessoa se se pode partilhar aquele espaço”.

Depois de ter sido elaborada uma lista com vários nomes, a escolha acabou por ser fácil. “Saiu esse nome [Dá Licença] e achámos interessante pelo lado nostálgico, porque queríamos algo português e também porque consideramos que é uma expressão que se está a usar cada vez menos”, explica Vítor.

Um cavalo de madeira terapêutico e uma mesa de jantar que parece um diamante

O projeto arquitetónico do Dá Licença — que respeitou a arquitetura que já existia — ficou a cargo de uma arquiteta local, enquanto que toda a decoração foi pensada e executada pelos sócios. Não é de estranhar, uma vez que Franck era dono de uma galeria de arte em Paris e Vítor é formado em Belas Artes e sempre trabalhou com criativos.

“Este é um projeto muito pessoal, que foi pensado para reunir um pouco da nossa experiência nos últimos anos e da nossa sensibilidade artística. O Franck também teve a sua galeria e pouco a pouco foi reunindo um espólio de obras e de objetos que depois decidimos pôr no contexto”, afirma. “Temos uma coleção bastante vasta. Queríamos que cada espaço fosse único. A seleção das peças foi feita em função da orientação do eixo norte-sul e com a preocupação de mostrar o trabalho artesanal, a envolvência do artesão e do artista na conceção do objeto”.

Galeria de arte. A ideia para o nome do espaço foi inspirado nas aulas de equitação que Vitor Borges e Franck Laigneau começaram a frequentar.

Francisco Nogueira

Para Vítor Borges, há três peças que se destacam. Na casa de banho da suite The Rock há uma tapeçaria em linho, uma peça única e que foi feita pela artista Lieva Boesten, em 1982. É uma peça inspirada nos quimonos japoneses, ou seja, “é como se fosse um quimono aberto”.

Já na casa de jantar “cubismo”, Vítor destaca a mesa de jantar “que parece um diamante e que possui um tom amarelo bastante particular”. No espaço da galeria de arte há também um cavalo de baloiço que chama à atenção. Esta é uma peça de 1940 e, segundo Vítor, é “uma peça muito importante”, pois pensa-se que estaria numa escola para crianças com problemas psicológicos. Este era um cavalo terapêutico, que servia para as acalmar, por exemplo.

Algo que distingue o Dá Licença dos restantes espaços será, certamente, o facto de esta guesthouse possuir uma galeria de arte que se encontra no espaço do antigo lagar. A ideia é que as pessoas possam encontrar uma galeria no espaço rural, tal como acontece no centro de Paris. Já houve hóspedes que compraram peças de arte.

Dá Licença não segue as tendências de alojamento mundial

Foi pelas várias viagens que já fizeram — onde ficavam hospedados em hotéis — que Vítor Borges e Franck Laigneau perceberam que queriam criar algo distinto do que já existia. Concluíram que os hotéis em Xangai, em Nova Iorque ou em Lisboa seguiam as mesmas tendências para interiores. “Achámos que há uma estandardização e não queríamos isso, mas sim um espaço que refletisse um trabalho de longos anos e com uma certa sensibilidade comum que é a nossa. Queríamos que cada espaço tivesse peças únicas e uma configuração atípica também, em que reunimos tradição e modernidade com todo o conforto”.

Para além do alojamento inserido numa paisagem de cortar a respiração, o Dá Licença oferece outras experiências. Em parceria com as adegas de vinho locais, os hóspedes podem visitá-las, como é o caso da Herdade do Freixo. Há também massagens, 120€ por duas horas, que podem ser realizadas nos quartos ou até à beira da piscina. Existe ainda marquesa aquecida. Em preparação está um projeto que engloba percursos e passeios pela extensa área da Herdade das Freiras.

A ideia é que as pessoas possam encontrar uma galeria no espaço rural, tal como acontece no centro de Paris

Carlos Resende

E já só nos falta falar na refeições. No Dá Licença são também preparadas refeições caseiras, confecionadas com produtos sazonais, locais e frescos. Os preços das refeições, por pessoa, variam entre os 40€ (almoço) e 55€ (jantar) e incluem entrada, prato principal e sobremesa.

Para já, são os casais de turistas nacionais que têm procurado em maior número o espaço. O silêncio, os espaços generosos em relação às áreas, as vistas bonitas, a decoração e o serviço e o acompanhamento personalizado — uma vez que Vítor Borges e Franck Laigneau vivem no primeiro andar do Dá Licença —, têm sido os aspetos mais destacados pelos hóspedes.

Para duas pessoas e com pequeno-almoço incluído, os preços variam entre os 270€ (para os quartos) e 500€ (para as suites). A estadia mínima é de duas noites.