Comecemos pelas devidas apresentações: Rachel Hollis tem 35 anos, é mãe de quatro filhos e tem perfeita consciência de que mentiu a si própria durante anos. Como? Acreditando que não era boa o suficiente. Que tinha peso a mais. Que não era digna de ser amada. Que era má mãe, que merecia ser mal tratada e que nunca viria a conquistar nada.

É provável que se identifique com estas mentiras. Em determinada altura das nossas vidas, todos nós acreditamos nisto. Se calhar ainda acreditamos. Só que são tudo ilusões, falsas crenças que nos impedem de ser felizes. Foi a pensar nisso que a fundadora do site de lifestyle TheChicSite.com, e CCO da sua própria companhia de media, lançou um livro.

Com 1,6 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, “Miúda, Deixa-te de Merdas” chega às livrarias portuguesas na próxima terça-feira, 19 de fevereiro. Editado pela Leya, o bestseller internacional reúne 20 capítulos, um para cada uma das mentiras que Rachel Hollis teve e ultrapassar. No final de cada uma delas, resume as técnicas e estratagemas que usou para seguir em frente.

Uma mentira — sobretudo quando contada a si mesma — não pode ficar sem resposta. Apresentamos-lhe de seguida as soluções para 5 mentiras de “Miúda, Deixa-te de Merdas”.

Editado pela Leya, "Miúda, Deixa-te de Merdas" custa 14,90€

Amá-lo é quanto me basta

“Apaixonei-me na primeira vez que o vi.

Isto parece dramático? Provavelmente. Nem tenho a certeza se tive consciência disso na altura, mas recordo a cena muito claramente. Fui ao átrio para chamar a pessoa com quem o meu patrão ia reunir às 11 horas. Só lá estava um homem. De costas para mim, com as mãos enfiadas nos bolsos. Trazia uma sacola velha de couro ao ombro.

A sacola foi aquilo em que reparei primeiro. Lembro-me de ter pensado que era mesmo fixe que aquele tipo estivesse de fato, mas com uma sacola velha de couro em vez de uma pasta de executivo.

«Desculpe», disse eu enquanto atravessava o átrio. «Veio para a reunião com o Kevin?»

Na minha mente, vejo-o a virar-se em câmara lenta. A recordação ilumina-se quando lhe vejo o rosto pela primeira vez. Ele sorri-me e estende a mão para me cumprimentar. O momento prolonga-se por uma eternidade e depois volta para trás num ápice como um elástico. Voltamos ao tempo real.

Acabou de acontecer alguma coisa, lembro-me perfeitamente de ter pensado. Sentia-me ao mesmo tempo empolgada e aterrorizada. Ele era mais velho do que eu e, decididamente, areia a mais para a minha camioneta. Mesmo assim, dei comigo a pensar: Mas talvez…

Esse talvez foi o responsável por tudo. A minha curiosidade recusava-se a desaparecer. Foi o suficiente para me sobressaltar, para me fazer desejar estar vestida com algo mais atraente do que uma saia preta maxi e uma t‐shirt larga a condizer.

Esse não era o primeiro dia em que falei com ele; ele telefonava frequentemente para conversar com o meu patrão. Mas era a primeira vez que falava com ele em pessoa. Não fazia ideia do aspeto que tinha ou, mais especificamente, de como era tão bem-parecido – e o que tinha sido uma relação de trabalho transformou-se rapidamente em algo mais romântico.

É importante deixar bem claro que a minha experiência com homens era zero. Tinha sido contratada como estagiária durante o meu primeiro ano na universidade. Nesse verão ofereceram-me emprego, e eu apressei-me a desistir dos estudos para o aceitar. Acabara de fazer 19 anos. Com essa provecta idade, tinha dado umas beijocas a um par de rapazes no secundário, mas nunca tinha tido uma relação a sério nem tinha saído com rapazes. Embora profissionalmente talvez fosse uma mulher madura antes do tempo, no que dizia respeito a questões românticas tinha a experiência de uma ameba.

A nossa relação foi progredindo por e‐mail e com trocas de olhares em eventos de trabalho. Provavelmente, é justo contar-vos que, como eu tinha o bilhete de identidade da minha irmã mais velha, nesses eventos pedia um copo de vinho como todas as outras pessoas. Tendo em conta o meu emprego, nunca ocorreu àquele homem questionar a minha idade. Quanto a mim, também nunca prestei essa informação voluntariamente.

Vale também a pena referir que ele tinha mais oito anos e muito mais experiência de vida do que eu.

Convidou-me para sair, para aquele que seria o meu primeiro encontro a sério, e eu passei dias e dias a decidir o que vestir. Quando cheguei, fiquei um pouco surpreendida ao vê-lo vestido de modo tão informal. Olhando para trás, era revelador – sobre a preparação dele para este encontro em comparação com a minha – mas só mais tarde cheguei a essa conclusão.

Percorremos a rua até um pequeno restaurante italiano. Eu tentava manter-me calma, embora interiormente estivesse a passar- -me, a pensar que estávamos num encontro! Sentia-me nervosíssima. E preocupada que ele tentasse dar-me a mão, beijar-me ou ambas as coisas! Não fazia ideia de como lidar graciosamente com qualquer uma dessas possibilidades, e rezava a todos os santos para não me ver numa situação em que tivesse de decidir o que fazer.

Sentámo-nos a uma mesa. Mandámos vir uma garrafa de vinho.

«Espero que não sejas uma daquelas raparigas que têm medo de mostrar o apetite num encontro.» Riu-se.

Aquilo irritou-me. O tipo de rapariga que eu era ainda não tinha sido determinado. Não gostei de ser comparada com outras, e também não gostei que me fosse recordado que este não era o primeiro encontro dele.

Reagi comendo mais de metade da piza que mandámos vir. Ele falou sobre si próprio durante duas horas inteirinhas. Eu não me importei. Estava fascinada.

Nessa noite, quando me acompanhou até ao meu carro, pensei que estava capaz de vomitar. Tinha 99 por cento de certeza de que ele ia tentar beijar-me, mas acreditava firmemente que não era o tipo de rapariga que dava beijos no primeiro encontro. Quer dizer, não tinha prática nenhuma desta teoria, mas sentia que era verdade. Por isso, quando atirei com a carteira para o banco da frente e, ao virar-me, o vi inclinado para mim, ergui imediatamente as mãos entre nós – com a graciosidade que se imagina – e berrei: «Não me beijes!»

Ele estacou, qual veado encandeado pelos faróis de um carro, e depois soltou uma risada como um ator sexy a interpretar o papel principal num filme.

«Ia dar-te um abraço», disse. Estendeu a mão e deu-me um aperto de mão firme. «Mas só para jogar pelo seguro.»

Aquilo foi tão encantador que me apeteceu morrer. O meu embaraço foi total. Fui-me embora daquele encontro perplexa e um pouco apaixonada. Tinha a certeza absoluta, sem sombra de dúvidas, de que ia casar com aquele homem.

Depois de uma refeição de piza e vinho tinto barato, éramos oficial- mente namorados… ou, pelo menos, eu achava que sim.

Não sabia que havia regras.

Nem sequer sabia que havia um jogo.

Pouco depois daquele primeiro encontro, ele convidou-me para outro. Dessa vez, para comermos sopa num restaurante da moda que era extremamente popular na altura. Só em Los Angeles se poderia, sem qualquer ironia, convidar alguém para ir a um sítio onde só se come sopa e ninguém achar isso estranho.

Uma semana depois, ele perguntou-me quando tinha acabado o curso – porque, minhas amigas, eu ainda não lhe tinha revelado a minha idade. De certa forma, sabia que a nossa diferença de idades não lhe ia agradar. O e‐mail de resposta que lhe enviei (porque isto foi antes dos SMS, miúdas) começava assim: Bem, isto vai ser interessante…

A resposta dele foi de campeão. Disse-me que eu era como aquele garoto de uma série antiga que é médico, o Doogie Howser, e eu senti‐me de facto como uma espécie de criança-prodígio, porque não só tinha este emprego, mas também estava numa relação real com um homem crescido. Não o sabia na altura, mas, do outro lado daquele e‐mail, o homem crescido não estava nada satisfeito.

O assunto veio à baila no nosso encontro seguinte: eu era demasiado nova. Era demasiado inexperiente em tudo, e ele não queria ser o tipo que me iria magoar.

Acreditam se vos disser que não o ouvi, pura e simplesmente? Quer dizer, os meus ouvidos estavam a funcionar perfeitamente, mas o meu cérebro nem sequer era capaz de processar a ideia. Não parava de pensar: Como é que alguma vez poderias magoar‐me? Nós vamos casar um com o outro e ter filhos, e vai ser o máximo!

Quer dizer… abençoado seja o meu coraçãozinho ignorante.

Ele resistiu, mas eu fui persistente. Achei que era suficientemente madura para lidar com a situação. Passei muito rapidamente de nunca ter tido um encontro a ficar todas as noites no apartamento dele. Para que fique bem claro, permitam-me que esclareça: nessa altura ainda não tínhamos relações, mas, francamente, isso era um pormenor técnico.

Deve-se admitir tudo isto quando se está a escrever um livro para uma editora cristã? Não faço ideia. Mas tenho a certeza de que não sou a única «boa menina cristã» que se apaixonou por um homem e que atirou pela janela todos os ideais em que acreditava, porque para ela não havia nada mais importante do que ser amada por ele.

Quando já andávamos há um mês, fomos a uma festa na casa de uma amiga e, como eu era uma completa inocente, apresentei toda a gente ao meu namorado nessa noite.

«Este é o meu namorado. Já conheceste o meu namorado? Quem é ele? Oh, é só o meu namorado!»

Oh, até estremeço só de recordar aquilo. Também estremeço ao recordar o dia seguinte, quando ele parecia estar claramente aborrecido comigo, mas se recusava a dizer porquê. Continuei a insistir até que, finalmente, ele suspirou de frustração. «Nunca te comportaste de acordo com a tua idade, mas ontem à noite era como se a tivesses escrita na testa.»

Ui.

Por um lado, ele tinha razão em muitos pontos. Eu sempre tinha sido incrivelmente profissional no trabalho e agia como adulta quando passávamos tempo juntos, mas, naquele caso, não conhecia as regras. Não compreendi que não se pode chamar namorado a um tipo sem antes se falar do assunto. Acreditava ingenuamente que se alguém já me tinha visto as mamocas e se jantávamos juntos com frequência, isso queria dizer que éramos um casal. Só para acrescentar um pouco mais de verdade a isto, eu não tinha qualquer sentimento de culpa quanto ao aqui estão as minhas mamocas, porque acreditava que nos íamos casar. Justificava as minhas opções, porque pensava que eram parte de uma história maior sobre nós os dois. Entretanto, este homem nem sequer achava que fôssemos namorados.

Aos 34 anos, em retrospetiva, vejo tudo isto muito claramente. Aos 19, como estava apaixonada e me sentia insegura, arranjava justificações para tudo o que ele dizia ou fazia que me pudesse magoar.

Custa-me escrever tudo isto. Vai custar ao meu marido ler tudo isto. O Dave é tão diferente daquele homem que vai custar-lhe ficar a saber – com pormenores que nunca antes partilhei com ele – o quanto me magoava a maneira como me tratava.

Mas a questão é esta: eu não sou a única mulher que alguma vez deixou que um homem a tratasse mal. É importante contar a minha história, porque acredito que talvez algumas das minhas leitoras se encontrem numa situação similar neste momento. E, tal como eu, talvez se encontrem tão embrenhadas na floresta que não conseguem ver as árvores. Ao contar a minha história, espero poder ajudar algumas delas a fazer escolhas melhores do que aquelas que eu fiz, ou a ver a própria realidade tal como ela é.

Porque a triste verdade é esta: eu era o engate fácil.

A filha do pregador, a que nunca tinha saído com nenhum rapaz, a boa menina conservadora… Eu metia-me no carro e ia para casa daquele homem todas as noites em que ele me convidava, e fingia que não ficava de rastos quando ele não me dizia nada durante o dia.

Quando estávamos juntos, ele era tão querido e tão amoroso que isso bastava para eu aguentar durante os tempos em que não me contactava. Nas raras ocasiões em que me encontrava com ele num bar e os amigos dele me ignoravam – ou pior – se referiam a mim como «a miúda de 19 anos» e ele não dizia nada para os calar, eu arranjava desculpas para o comportamento dele. Era como a rapariga gorda da escola que faz pouco de si mesma antes que os outros façam pouco dela… Agia como se participasse na piada, como se eu fosse a piada – como se não fosse digna de ser defendida. Quando ele namoriscava com outras raparigas à minha frente ou me convidava para alguma coisa e depois me ignorava a noite toda, eu dizia a mim mesma para me manter tranquila. Ele tinha reagido muito mal quando lhe chamei meu namorado, e eu já aprendera o suficiente para saber que se trouxesse o assunto à baila seria vista como uma lapa. Aceitava as migalhas que ele me dava e, o que era ainda pior, sentia-me encantada por as receber.

Estou a chorar enquanto escrevo estas palavras.

Não chorei quando escrevi o capítulo sobre a morte do meu irmão ou os problemas da minha infância – mas isto? Isto dá cabo de mim. Sinto-me tão triste por aquela miúda que não sabia o que merecia. Sinto-me destroçada porque ninguém a preparou para a vida, nem a ensinou a amar-se a si mesma, de modo a que ela não se sentisse tão desesperada por receber qualquer forma de amor de outra pessoa. Sinto-me triste porque ela teve de aprender tudo sozinha. Sinto-me dececionada por lhe ter levado tanto tempo.

Levou-me um ano – um ano inteiro de o que tu quiseres, o que precisares, o que achares que é melhor –, um ano durante o qual tentei tudo em que conseguia pensar, tentei ser tudo o que ele queria. Dar-lhe atenção, mas não ser lapa. Ser bonita sem me esforçar demasiado. Divertida, esperta e calma. Simpática para os amigos dele, mesmo quando me tratavam como lixo. Carinhosa e prestável quando ele queria a minha companhia, mas não o incomodar se não fosse ele a telefonar-me. Perto do fim desse ano, quando a empresa dele o transferiu para outro estado e a nossa já frágil relação ficou ameaçada, a minha virgindade passou de técnica a não-existente. Era o último recurso, a melhor forma de o agarrar em que consegui pensar.

Não resultou.

Dois meses depois de ele se mudar, veio a Los Angeles o tempo suficiente para romper comigo.

Queria acabar de vez, disse. Precisava de ter uma hipótese de realmente criar raízes na sua nova cidade, disse. Gostava de mim, disse. Mas simplesmente não ia resultar, disse. Seríamos sempre amigos, disse.

Vejo perfeitamente esse dia na minha mente, embora não me recorde com frequência dele em pormenor, porque me dilacerou. Na minha cama havia um edredão cor-de-rosa e cor de laranja da Ikea, e, sentada lá no meio, fartei-me de chorar. A recordação faz-me baixar a cabeça e sinto que o coração me cai aos pés. Talvez leiam este capítulo e sintam raiva perante a maneira como aquele homem me tratou ou perante a posição em que eu própria me coloquei – mas eu não via nada disso.

Não tinha amor-próprio.

Deixei-me ficar sentada no meio daquele edredão de cores néon e, em vez de defender a minha posição, supliquei-lhe que não me deixasse.

Mas ele deixou-me na mesma.

Nessa noite chorei até adormecer.

Na manhã seguinte meti-me no carro e fui à minha terra natal para passar o Dia de Ação de Graças com a minha família. Esse dia foi um tormento. Recorram à vossa imaginação para calcular o tipo de conversas que fui forçada a ter com as minhas bem-intencionadas tias lá do Sul, quando tinha acabado de ser deixada.

Deus meu…

Quando me meti no carro nessa noite para voltar para Los Angeles, vi que tinha uma mensagem de voz. Sabia de algum modo que ele me telefonaria nesse dia – era o habitual, ao fim e ao cabo. Ele fazia alguma coisa que me magoava, eu aceitava-a e ficava à espera junto ao telefone.

Resisti a ouvir aquela mensagem durante as duas horas que demorei a chegar ao meu apartamento. Liguei o número do meu correio de voz e fiquei imóvel a ouvir a mensagem dele. Só queria saber de mim, disse ele, queria ter a certeza de que eu estava bem.

Foi um momento divino na minha vida. Nunca antes sentira, nem voltei a sentir desde então, uma total clareza como naquele momento.

Ali de pé, no meu reles apartamento em Hollywood, vi a nossa relação como um mapa perante mim. Ali estava o local onde tínhamos dado o primeiro beijo. O desvio quando não nos falámos durante duas semanas, depois de eu lhe chamar meu namorado. A noite em que ele namoriscou à minha frente com as colegas mais populares do trabalho. Depois, o dia em que ouvi pela primeira vez a frase: «Não estamos juntos, mas não estamos não juntos.» Vi aquela frase e frases feitas do mesmo género espalhadas como cartuchos de morteiros sobre o terreno. Havia a primeira vez em que ele me telefonou e me convidou para ir a casa dele depois de se embebedar num bar para o qual não me tinha convidado.

Durante um ano, eu só tinha olhado para as partes bonitas da nossa relação, mas, pela primeira vez, obriguei-me a ver o que estava realmente ali.

«Quem és tu?» perguntei ao meu quarto vazio.

Mas essa era a pergunta errada. A questão não era eu não saber quem era; o problema era eu não saber em quem é que me tinha deixado transformar.

Talvez as minhas leitoras fiquem surpreendidas ao saber que eu não o culpo por nada do que aconteceu naquele ano. Embora ele fosse um homem crescido, tinha a sua própria bagagem. Era jovem e imaturo à sua maneira. As pessoas tratam-nos com um nível maior ou menor de respeito consoante aquilo que lhes permitimos, e a nossa relação tornou-se disfuncional na primeira vez em que ele me tratou mal e eu o aceitei.

Retribuí a chamada, como já fizera uma centena de vezes. Mas desta vez estava totalmente calma. Não me sentia ansiosa em relação ao que ele pudesse pensar nem empolgada por estar a falar com ele. Quando ele atendeu, lançou-se imediatamente em perguntas sobre como eu me estava a sentir e se me tinha divertido com a minha família – como se fôssemos velhos amigos a pôr a conversa em dia, como se ele não me tivesse virado do avesso no dia anterior.

«Ei», disse eu, a interrompê-lo.

Ele calou-se. Quero acreditar que havia algo no meu tom de voz que o fez calar-se, mas talvez tenha sido simplesmente porque eu nunca o tinha interrompido.

Calmamente e sem dramatismos, disse-lhe: «Estou farta disto. Estou farta de ti. Nunca mais voltes a telefonar-me.»

Não era uma tentativa de chamar a atenção ou de me fazer cara. Estava a ser absolutamente sincera.

«Porquê?», perguntou ele numa voz meio engasgada.

«Porque eu não mereço ser tratada assim. Porque não posso andar para a frente e para trás. Porque não gosto daquilo em que me tornei… mas, principalmente, porque tu disseste que éramos amigos. Durante todo este tempo, independentemente de tudo o mais que tenha acontecido, disseste-me que eu era tua amiga. Não quero ser tua amiga se é assim que tratas alguém de quem gostas.»

Estava a ser sincera com todas as fibras do meu ser. Desliguei a chamada e desliguei o telemóvel. Escovei os dentes e vesti o pijama. Depois fui para a cama, meti-me debaixo daquele edredão cor-de-rosa e adormeci, de olhos secos e em paz pela primeira vez em meses. Recordo essa noite como a primeira vez em que realmente senti que era uma mulher crescida.

Acordei com alguém a bater com força à minha porta.

Esta é a parte maravilhosa da história. Este é o momento que dá a sensação de ser um filme ou um romance cor-de-rosa.

É aqui que vos digo que acordei e encontrei o meu futuro marido à porta da minha casa.

O homem que me tinha tratado mal, que tinha andado a empatar-me e que não se conseguia decidir ficou perdido algures entre a casa dos pais dele e o meu apartamento naquela noite do Dia de Ação de Graças. Sei que parece dramático, mas foi realmente o que aconteceu. Recordo tudo na nossa relação como antes ou depois deste momento: a nossa história de amor a nascer de novo.

E é uma história de amor. A nossa relação é a maior dádiva da minha vida. O Dave é o meu melhor amigo, a primeira pessoa que realmente cuida de mim, e tenho tido a honra de o ver evoluir, do tipo que ele era para um marido, um pai e um amigo maravilhoso.

Mas nem todas as histórias são perfeitas.

Poucos são os caminhos para o amor que são fáceis de percorrer, e o nosso não foi exceção. Mas é importante para mim que as minhas leitoras saibam que, embora a nossa viagem não tenha sido fácil, os 14 anos que passaram desde aquele ano verdadeiramente horrível compensaram totalmente os erros que ambos cometemos. É importante para mim contar esta história, porque é a história de nós os dois. O meu marido revela coragem e humildade ao apoiar-me para que eu a divulgue na esperança de que possa ajudar outras pessoas. É também importante compreender que não acredito que seja assim que as coisas acontecem normalmente.

Abrir a porta naquela noite e dar com o Dave na entrada a implorar-me que lhe concedesse mais uma hipótese parece-me especial, porque foi especial. O que é muito mais provável que aconteça na maior parte dos casos é que, enquanto permitirmos que alguém nos trate mal, essa pessoa continue a fazê-lo. Se não conseguirmos reconhecer o nosso próprio valor, ninguém o fará. Hesitei em contar o fim da história porque não quero que ninguém a use como desculpa para se manter num relacionamento pouco saudável, na esperança de que ele venha a tornar-se saudável. A nossa história teve um final feliz, mas isso não teria acontecido se eu não estivesse disposta a afastar-me de vez. Nessa noite, no meu quarto, atingi o ponto em que não me senti capaz de viver nem mais um dia sem autorrespeito; não podia ficar com um companheiro que não valorizava realmente quem eu era como pessoa. Por vezes, a decisão de nos afastarmos, mesmo que nos dilacere, pode ser o maior ato de autoestima ao nosso alcance.

Rachel Hollis é uma celebridade da televisão americana, oradora motivacional e CCO da companhia que ela própria fundou

Que mais posso dizer? O que posso oferecer como visão ou pérola de sabedoria, o que espero que retirem deste capítulo? Espero que, se conseguirem rever-se nesta história, ela seja uma espécie de espelho. Espero que consigam sair do meio das árvores o tempo suficiente para ver a floresta como ela realmente é. Espero que as leitoras que já passaram por algo similar, e que carregam o fardo do sentimento de culpa muito depois de tudo ter terminado, fiquem a saber que não são as únicas.

Muitas mulheres cometeram erros, fizeram coisas de que se arrependem ou tornaram-se versões de si mesmas com que não se sentem felizes. Tantas outras mulheres sobreviveram e saíram do outro lado a sentirem-se mais fortes. Todos os dias fazemos escolhas sobre quem somos e aquilo que acreditamos sobre nós mesmas, e estabelecemos os padrões das relações na nossa vida. Todos os dias são uma oportunidade para começar de novo.

Coisas que me teriam ajudado

1. Uma caixa de ressonância. Quando passei por aquela situação, não tinha realmente amigas íntimas ou mentoras que me aconselhas‐ sem. Penso que, se tivesse podido falar com uma pessoa mais sábia, poderia ter ganhado mais cedo consciência de como a minha relação não era nada saudável. Tem cuidado sempre que a única voz que te aconselha é a tua. A tua capacidade de julgamento tolda‐se facilmente quando estás apaixonada.

2. Estar preparada. Quando os meus filhos tiverem mais idade, vou contar‐lhes esta história. Sei que não mostra nem o pai nem a mãe nos seus melhores momentos, mas quero que aprendam com ela. Se eu tivesse sido menos ingénua e estivesse mais ciente do que é ter respeito por mim própria, penso que teria reconhecido o que era realmente a nossa relação.

3. Pôr‐me no lugar dos outros. Se contasses a história da tua relação – tanto as partes boas como as más – haveria mais partes boas ou mais partes más? Se uma amiga ou uma estranha ouvisse a história da minha relação e eu lhe explicasse tudo o que me andava a magoar, não consigo imaginar que ela não me quisesse abanar até eu acordar para a vida. Imagina alguém a descrever‐te a ti a tua relação. Essa pessoa diria que ela é saudável? Se a resposta é não, ou se a questionas à partida, suplico‐te que olhes com mais atenção para essa relação na tua vida.

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Não sou boa na cama

Coisas que me ajudaram

1. Redefini mentalmente o sexo. Durante imenso tempo, o sexo simbolizou uma data de coisas – e nem todas eram positivas. Decidi mudar o que achava que o sexo era… Isto poderá não ser aquilo que o sexo é para ti, para as tuas amigas ou para o Espírito Santo e todos os santos; mas, a partir de uma certa altura, decidi que o sexo devia ser uma experiência divertida que seria sempre mais emocionante do que qualquer outra coisa que eu pudesse estar a fazer. Até esse momento, comparava sempre o sexo com outras coisas (ler um livro, ver televisão, etc.) – e considerava‐o secundário. No entanto, se recordasse a mim mesma que o sexo era sempre uma oportunidade fabulosa, então provavelmente ele seria a minha primeira escolha.

2. Descobri como o sexo podia ser uma experiência avassaladora.

Quando te sentes desconfortável, pouco atraente, nervosa, tímida ou o que seja, não vais desfrutar do sexo. Se não tiveres prazer, não estarás a ter bom sexo. Por isso, perguntei a mim mesma: como posso desfrutar mais disto? O que me está a retrair? A resposta? Eu própria. A seguir falei com o Dave sobre todas as coisas que estava a pensar e a sentir. Chocou‐me que, depois de tantos anos a viver‐ mos juntos, ainda pudesse sentir‐me tão embaraçada, mas fui em frente. Precisávamos de estar sintonizados, e a única maneira de o conseguirmos era eu falar com ele sobre o assunto.

3. Li Hebreus 13:4. Parte dos meus complexos estava relacionada com o facto de eu ser uma boa rapariga cristã e de não conseguir conciliar isso com ser uma autêntica fera na cama. E depois li Hebreus 13:4: «O casamento deve ser honrado por todos; o leito conjugal, conservado puro.» Ora bem, à partida, tenho a certeza de que não estou a interpretar isto bem. Tenho a certeza de que alguém que tenha estudado teologia me dirá que esta frase significa na realidade algo muito diferente. Mas o que leio, ou o que depreendo quando leio esta frase, é que as coisas que acontecem na minha cama com o meu marido não podem ser consideradas esquisitas, más ou erradas. Permitam‐ ‐me que modifique um pouco a minha asserção para dizer que há decididamente coisas que um casal comprometido e monógamo pode fazer no sexo que talvez sejam incrivelmente gravosas para ambos. A pornografia, por exemplo, é extremamente prejudicial, tanto para os seus consumidores como para as pessoas que estão a ser usadas como objetos para satisfazer a luxúria de outros. Mas as outras coisas? Lingerie ousada, cabedal, brinquedos sexuais, inventar personagens, tentar todas as posições possíveis, coisar na mesa da cozinha, conversas picantes, seja o que for… Se te excitam e não te ofendem, o que eu digo é: força!

4. Aceitei o meu corpo. Ter uma má opinião relativamente ao próprio corpo é extremamente prejudicial para a capacidade de desfrutar do sexo. Eu costumava preocupar‐me se tinha a barriga lisa ou um rabo jeitoso com uma certas cuecas. Sabes no que é que o Dave estava a pensar quando eu despia a roupa? Maminhas! O teu parceiro sente‐ ‐se encantado por te ver ali, e todas essas coisas que estás a questionar não ajudam ninguém. Eu pratiquei dizer a mim mesma coisas positivas, que o meu rabo parecia mesmo jeitoso, que eu estava muito sexy. Fiz isto tantas vezes que a certa altura comecei mesmo a acreditar.

5. Empenhei‐me em ter orgasmos. OK, só o facto de escrever esta frase já me deixou corada. Estou a imaginar‐me numa qualquer futura sessão de autógrafos em que uma leitora se aproxima da mesa e me diz: «Então… empenhou‐se no seu orgasmo.» Mas isto é importante, e, embora me embarace, quero que o saibas. No início, quando começámos a fazer sexo, um orgasmo para mim era como a cereja no topo do bolo. Mas a verdade, minhas senhoras, é que os orgasmos não são a cereja no topo do bolo. Os orgasmos são o bolo! Um segundo orgasmo é que é a cereja! Lembram‐se de como disse que tive de descobrir como tornar o sexo a melhor coisa de sempre? Lembram‐se de como disse que queria desejá‐lo acima de qualquer outra coisa na minha vida? Sabem como conseguem isso? Com orgasmos! Decidi há anos que nunca mais, e quero mesmo dizer nunca mais, voltaria a fazer sexo em que não houvesse um orgasmo para mim. Quando contei este plano ao Dave, ele concordou que era a melhor ideia que eu já tinha tido na vida. Porque a questão é esta: na maior parte dos casos, os nossos parceiros adoram dar‐nos prazer; e se, à partida, ambos estivermos empenhados em que eu tenha um orgasmo, ele vai acontecer.

6. Tive de descobrir o que me excita sexualmente. Oh, claro, já me tinha sentido excitada muitas vezes na vida, mas nunca tinha pensado na diferença entre o que realmente resulta para mim e o que é só decorrente de uma situação. Saber o que me excita é essencial, porque os meus orgasmos eram o nosso novo objetivo, e não sei ter um sem estar excitada. Por isso, experimentámos até eu ficar a conhecer‐me melhor, a mim mesma e ao meu corpo. (Estás à vontade para voltar ao parágrafo do leito conjugal conservado puro se precisares de umas ideias.)

7. Comprometemo‐nos a fazer sexo todos os dias durante um mês. Há anos, no princípio da mudança da nossa vida sexual, o Dave e eu iniciámos algo a que chamámos Setembro Sexy. Jurámos fazer sexo todos os dias – sem exceção – durante o mês de setembro. Um compromisso intimidante ao princípio, especialmente com empregos a tempo inteiro e dois filhos pequenos. Mas o resultado final foi fantástico! Deu‐me a oportunidade de experimentar e de tentar novas coisas sem qualquer pressão. E também uma revelação chocante: fazer mais sexo dava‐nos vontade de… fazer mais sexo. Aconselho‐te vivamente a escolheres o teu mês sexy e meteres mãos à obra!

Livro. O lado bom e o lado mau de cada signo (segundo a astróloga dos famosos)

Não sou boa mãe

Coisas que me ajudaram

1. Olhei para as provas. Costumava passar imenso tempo obcecada com todas as coisas em que estava a errar como mãe. Mas, sabem que mais? Os meus filhos são maravilhosos! Oh, é claro que me dão cabo do juízo de vez em quando, mas têm ótimas notas e são bondosos e acolhedores para com todas as pessoas que conhecem. É comigo que vêm ter quando se magoam. É a mim que chamam durante a noite quando têm um sonho mau. Os nossos laços são fortes e inquebráveis, o que não se altera só por eu ser uma mãe que trabalha. Olha para as evidências na tua própria vida. Se estás a criar incendiários que são malcriados para com a avó… bem, talvez precises de procurar ajuda. Mas se os teus filhos são basicamente bons meninos durante a maior parte do tempo, não te recrimines.

2. Fiz amizade com as outras mamãs. Sim, aquelas com que os teus filhos te comparam. Sim, aquelas com que tu te comparas. Se forem minimamente humanas, o mais provável é que te possam dizer que também andam preocupadas com a possibilidade de traumatizar os filhos. Sim, a mamã da Samantha, que coseu cem lantejoulas em cem botões no gorro que fez à mão para comemorar o centésimo dia de aulas? Pois é. Também anda preocupada com os seus dotes de mãe. O imperador vai nu, minhas amigas, e, a não ser que procurem a verdade, nunca irão sabê‐lo.

3. Concentrei‐me na qualidade. Quando estou a stressar relativamente às minhas capacidades como mãe, geralmente é porque sinto que me falta passar tempo de qualidade com os meus filhos. Tempo de qualidade significa que não estou ao telefone, perto de um computador ou a falar com outra pessoa adulta. Normalmente é ler, jogar Candy Land, ir ao cinema ou cozinhar com eles. É quando concentro a minha energia neles que me sinto realmente confiante de que estou a desempenhar bem o meu papel.

Sou melhor do que tu

Coisas que me ajudaram

1. Amigas que não fazem juízos de valor. Tornamo‐nos muitas vezes parecidas com as pessoas de quem nos rodeamos. Se as tuas amigas andam sempre com mexericos e comentários maldosos, podes acreditar que também tu vais começar a desenvolver esse hábito. Se procuras uma comunidade de mulheres, tenta encontrar as que querem puxar as outras para cima e não deitá‐las abaixo.

2. Avaliar‐me. Se já temos tendência para criticar (e sejamos honestas, a maior parte das mulheres tem‐na), devemos esforçar‐nos por avaliar os nossos pensamentos. Quando dou comigo a julgar alguém em pensamento, obrigo‐me a parar e a pensar nas qualidades dessa pessoa. Ao fazer isto, estou a aprender a procurar aquilo que é positivo em vez de me virar para o que é negativo.

3. Lidar com a questão. Geralmente, as nossas críticas e mexericos têm a sua origem no poço fundo das nossas próprias inseguranças. Ana‐ lisa em profundidade o que se passa contigo. O que está a levar‐te a atacar os outros? O primeiro passo para te tornares a melhor versão de ti mesma é seres honesta, verdadeiramente honesta, quanto ao que te motiva.

Nunca vou ultrapassar isto

Coisas que me ajudaram

1. Fazer terapia. Sei que já o mencionei, mas, neste caso, vale a pena repetir. Não imagino como poderia ter sobrevivido sem a ajuda de uma psicoterapeuta de confiança. O processo não foi divertido nem fácil, e normalmente detestava sentar‐me num sofá semana após semana a reviver o trauma; contudo, se não tivesse feito esse trabalho, aquilo por que passei continuaria a assombrar‐me.

2. Falar sobre o assunto. Não só com um psicoterapeuta, mas com pelo menos uma outra pessoa em quem confies. Pouco depois de nos casarmos, sentei‐me uma noite com o Dave e contei‐lhe tudo sobre o dia em que o Ryan morreu. Pormenores que estavam fecha‐ dos na minha cabeça há seis anos caíram todos dentro daquele espaço sagrado entre nós. Ele não tentou dar‐me uma resolução, um remédio ou uma nova versão para o que se passara. Escutou‐me e, ao fazê‐lo, dispôs‐se a incorporar a minha dor dentro de si e, dessa maneira, tornar o fardo mais leve para mim.

3. Obrigar‐me a pensar no assunto. Logo depois de o Ryan morrer, debati‐me realmente com pesadelos e imagens obsessivas na minha cabeça. Uma psicoterapeuta extremamente sábia sugeriu que eu cronometrasse um período de cinco minutos todos os dias e que, durante esse tempo, me obrigasse a recordar com todos os pormenores o que se passara. Achei aquela ideia uma loucura. Mas, afinal, havia algo no facto de eu saber que iria pensar no assunto mais tarde, a uma hora marcada, que proporcionava ao meu cérebro a paz de não estar sempre a recordar os acontecimentos. Sinto‐me muito grata por este sábio conselho e já me fartei de o repetir a sobreviventes de traumas que tenho conhecido. Até o escrevi no meu romance Sweet Girl, sob a forma do conselho que Max recebe da sua melhor amiga. É mesmo verdade que só se escreve sobre aquilo que se conhece.”