Stephen Dorff: “Estava numa fase muito negra da minha vida e ‘True Detective’ salvou-me”

O ator dá vida a uma das personagens principais da nova temporada e diz que, depois deste papel, todos os outros guiões parecem "horríveis".

O ator norte-americano esteve na apresentação da HBO em Portugal e falou com a MAGG sobre "True Detective"

Samuel Costa/MAGG

É capaz de o reconhecer de filmes como “Blade” ou “Somewhere”, realizado por Sofia Coppola, onde diz ter “falado mais com o olhar e com o silêncio do que com as palavras”. Mas é o seu mais recente papel em “True Detective” que tem colocado toda a gente a falar de Stephen Dorff — incluindo a crítica internacional, que o encheu de elogios.

A propósito da apresentação da HBO em Portugal, que aconteceu no hotel Palácio do Governador, em Lisboa, na terça-feira, 12 de fevereiro, a MAGG falou com o ator que diz que este foi o papel mais intenso e importante da sua carreira — talvez por ter acontecido numa altura crítica, depois da morte inesperada do irmão.

Andrew Dorff, compositor de música country, tinha 40 anos quando morreu de forma acidental (ainda hoje a família não revela detalhes, embora admita que houve álcool e jacuzzi envolvidos) durante uma festa a 19 de dezembro de 2016. Foi nessa altura que Stephen Dorff passou por uma fase muito complicada de luto, tendo chegado mesmo a ponderar desistir da representação.

“Não estava numa boa altura da minha vida. Aceitei alguns papéis pequenos mas, no geral, não queria representar”. Talvez por isso, o ator norte-americano ainda tenha alguma dificuldade em acreditar na sorte que teve ao ser escolhido para a nova temporada da série de culto da HBO.

“Olho para a série com muito carinho porque, além de ser um projeto muito especial e do qual sempre fui fã, estava numa fase muito negra da minha vida e ‘True Detective’ salvou-me”, revelou.

Caso o papel não tivesse surgido, Dorff garante que o mais certo seria continuar em casa do irmão, perto de tudo aquilo que o fazia recordar a tragédia, e permanecer perdido e sem rumo. “Há alturas em que coisas especiais acontecem nos momentos mais críticos e difíceis, e tenho a certeza que o meu irmão sentiria orgulho por eu ter aceite o desafio”, continuou.

Stephen Dorff não escondeu a emoção ao falar do irmão, que morreu de forma inesperada em 2016

Samuel Costa/MAGG

A notícia de que seria ele a dar vida a vida a Roland, detetive e parceiro de Wayne (Mahershala Ali), chegou através de um telefonema de Nic Pizzolatto, criador da série. Mas tudo o que se seguiu foi muito diferente daquilo a que Stephen Dorff estava habituado.

É que para evitar que parte da história caísse nas mãos erradas e fosse exposta na internet, como já aconteceu com o guião de “A Guerra dos Tronos”, nem ele nem os seus agentes conheciam o final ou a importância que a sua personagem teria na história.

“Foi a primeira vez que aceitei um papel sem ler o guião completo primeiro. Fui lendo partes que me iam enviando e ficava fascinado a cada página. Quando pedi o resto, negaram-mo por uma questão de segurança, e não sabia sequer o que esperar da minha personagem. Assim que fui lendo o resto fui ficando maravilhado e sabia que tinha uma personagem muito importante à qual tinha de dar espaço e tempo para crescer.”

Por ter dedicado cerca de sete meses da sua vida à personagem, Stephen Dorff admite que fazer filmes é muito mais fácil quando comparado com aquilo que fez em “True Detective”. E não esconde ter tido alguma dificuldade em afastar-se da personagem.

“Nunca fui cowboy mas usei botas de cowboy durante meses. Quando chegámos ao fim das gravações e calcei umas sapatilhas, senti-me esquisito. Lembro-me de, no último dia de gravações, ter dito ao Nic [o criador] que não queria ir interpretar outro gajo qualquer. Queria o Roland e agora já não o podia ter”, lamentou.

Ainda assim, Dorff não tem dúvidas de que se este fosse o seu último papel, acabava a carreira feliz por ter tido a oportunidade de trabalhar com Nic e Mahershala Ali (“House of Cards”).

“Enquanto que em ‘Somewhere”, por exemplo, o guião era muito curto e eu falava mais com o olhar e com o silêncio do que com as palavras, em ‘True Detective’ os diálogos eram complexos e fortes. Foi um projeto tão especial que se este fosse o meu último papel, podia reformar-me e vivia feliz. Talvez, quem sabe, me mudasse para Portugal e surfasse umas ondas. Até porque a maior parte dos guiões que tenho recebido são horríveis [risos].”

Mas isso não quer dizer que não tenha existido uma certa pressão. É que embora a primeira temporada da série tenha sido um sucesso, a segunda, que estreou em 2015, deixou a crítica desiludida — levando a uma pausa de quatro anos para repensar o guião da nova história.

Agora, o desafio era outro, e passava por tentar estar à altura de Matthew McCounaghey (“O Clube de Dallas”) e Woody Harrelson (“Larry Flynt”), as estrelas da primeira temporada.

Voltar ao sucesso da primeira temporada foi possível através da química que Dorff manteve com Mahershala Ali

Samuel Costa/MAGG

Contudo, Stephen Dorff revelou à MAGG que sempre desvalorizou essa pressão, embora tivesse noção que ia fazer parte de um franchise muito importante.

“Eu e o Mahershala olhámos para isto como um produto muito diferente. Quando falei sobre isso com o Nic, ele disse-me para não olhar para o que os outros tinham feito. Mas é claro que todos queríamos fazer diferente e voltar em força. Pensámos sempre no sucesso da primeira temporada e na forma de voltar às origens.”

E para Dorff, tudo isso foi possível por ter um parceiro com quem dividir as cenas. “Precisamos sempre de um grande parceiro em câmara e o Ali foi isso e muito mais. Tal como as nossas personagens, também nós somos muito diferentes mas isso não impediu de nos tornarmos irmãos. Ficámos muito próximos e ainda há pouco lhe mandei uma mensagem a dizer que o Óscar ia para ele [nomeado para Melhor Ator Secundário pelo filme “Green Book — Um Guia Para a Vida”].”

“True Detective” está disponível na HBO Portugal e vai no sexto episódio (o sétimo estreia já no domingo, 17 de fevereiro). O ator diz que é a primeira vez que tem acompanhado um projeto seu em televisão. Não só porque é fã da série, mas também porque guarda boas recordações de todo o processo de filmagens.

“A terceira temporada demorou sete meses a ser filmada e nesse tempo é inevitável que formes uma família. Quisemos acabar o projeto mas sabíamos que íamos sentir muitas saudades uns dos outros e é por isso que continuamos em contacto. Nunca tive isso antes e estou pela primeira vez a ver-me na televisão através dos olhos do espectador para ver como montaram as cenas onde não estava presente.”

Texto de Fábio Martins, fotografia de Samuel Costa.
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