Desde 2012 que os doentes hemato-oncológicos (pessoas com cancros do sangue como linfomas e leucemias) internados no Hospital de São João, no Porto, são tratados com terapias reiki para diminuir os efeitos da quimioterapia. Zilda Alarcão é a mentora e coordenadora deste projeto, que resulta de um protocolo entre a Associação Portuguesa de Reiki e a Associação de Apoio aos Doentes com Leucemia e Linfoma.

“O reiki melhora significativamente a qualidade de vida dos doentes e minimiza os efeitos da quimioterapia”, garante a também enfermeira supervisora, aposentada do mesmo centro hospitalar.

É uma iniciativa inédita em Portugal. Entre 2007 e 2009, Zilda Alarcão conduziu uma investigação sobre o impacto das terapias reiki na qualidade de vida dos doentes oncológicos. “Pedi autorização à comissão de ética em 2006, seguiram-se todas as burocracias e trâmites oficiais, e obtive aprovação para avançar”, recorda a enfermeira, que utilizou um documento oficial da Organização Mundial de Saúde para tratar os dados recolhidos durante a investigação.

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“Apliquei as terapias reiki duas vezes por semana, em doentes numa unidade de isolamento que estavam a fazer uma quimioterapia mais agressiva e com prognósticos mais reservados”, salienta Zilda Alarcão.

A especialista obteve a autorização do conselho de administração do Hospital de São João para dar início às terapias em setembro de 2012, depois das conclusões do seu estudo científico, levado a cabo com a ajuda de Jaime Fonseca, professor doutorado na área da investigação quantitativa, terem comprovado “a eficiência, eficácia e segurança da terapia de reiki na qualidade vida dos doentes em estudo, nas vertentes físicas, sociais e ambientais”. Nas mesmas conclusões, pode ainda ler-se que “a qualidade de vida destes doentes é maior quando submetidos à terapia de reiki”.

Zilda Alarcão (à direita na imagem) tem 67 anos e é enfermeira supervisora aposentada do Hospital de São João

Os benefícios do reiki nos doentes oncológicos — e o que diz a medicina tradicional sobre isso

Desde o início deste projeto, 78 doentes foram submetidos às terapias reiki, num total de 764 terapias realizadas — nove pessoas faleceram e 14 tiveram alta. No Hospital de São João, durante o internamento, está estabelecido que os doentes hemato-oncológicos realizam estas terapias uma vez por semana, se assim o quiserem. Cada sessão dura uma hora.

A frequência das terapias pode aumentar se “o caso daquele doente em particular for mais grave e existir necessidade de fazer mais sessões. E se existir disponibilidade da parte do terapeuta, dado que somos todos voluntários”, explica Zilda Alarcão.

A coordenadora deste projeto acrescenta que os doentes em regime de hospital de dia e ambulatório podem continuar a deslocar-se ao hospital para as terapias reiki uma vez por semana, “se assim o desejarem e conseguirem suportar as despesas de deslocação, dado que o Serviço Nacional de Saúde não comparticipa a colocação de uma ambulância a um doente apenas para estas terapias”.

Estas terapias ajudam a diminuir e a controlar a ansiedade, os sentimentos de revolta, incerteza e negatividade, e conduzem a uma maior paz interior e bem-estar.”

Mas afinal, o que pode o reiki fazer por pessoas a sofrer com doenças graves como linfomas e leucemias? “Diminui ou chega a anular todos os efeitos colaterais da quimioterapia, tais como as diarreias, as aftas, os vómitos, para além de melhorar as defesas do organismo e melhorar a qualidade do sono e do repouso”, afirma Zilda Alarcão.

Para além destes benefícios mais “visíveis”, a enfermeira explica também que estas terapias conseguem ter um efeito psicológico muito forte: “Os doentes aceitam mais a sua auto-imagem, principalmente quando falamos da queda do cabelo, e têm uma atitude mais positiva face à gravidade da sua situação. Estas terapias ajudam a diminuir e a controlar a ansiedade, os sentimentos de revolta, incerteza e negatividade, e conduzem a uma maior paz interior e bem-estar, podendo ainda ajudar a morrer com serenidade”.

“Enquanto oncologista, acredito que o uso destas ‘terapêuticas não convencionais’ não farmacológicas, pode ser benéfica para alguns pacientes”, refere à MAGG Daniel Romeira, médico oncologista do Hospital Lusíadas Lisboa.

Quando se lida com prognósticos reservados como aqueles de uma doença como um linfoma ou uma leucemia, há que ter muito cuidado com a forma como se gerem as expectativas — e é exatamente esse cuidado que tem de ser redobrado quando afirmamos que o reiki pode ajudar doentes com cancro.

O oncologista Daniel Romeira acredita que estas terapias podem aumentar a sensação de bem-estar dos doentes oncológicos

O especialista acredita que estas terapias podem “contribuir para uma diminuição do stresse e da tensão dos doentes, aumentando a sensação de bem-estar e, ajudando, indiretamente, o doente a tolerar melhor os tratamentos”.

Mas é fundamental “gerir as expetativas dos pacientes relativamente aos efeitos deste tipo de terapias, que devem ser entendidas numa perspetiva complementar, com algumas vantagens do ponto de vista emocional para alguns doentes — mas não curam o cancro”.

Daniel Romeira faz uma importante ressalva: “É fundamental informar o oncologista assistente do uso destas terapias não convencionais, assim como de alguns suplementos diatéticos, muitas vezes prescritos com este tipo de terapêuticas, e que podem interferir com alguns medicamentos que são utilizados durante os tratamentos”.

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Ainda existem entraves por parte da comunidade médica à prática destas terapias

As terapias de reiki como forma de minimizar os efeitos da quimioterapia ainda não são totalmente aceites por toda a comunidade médica — mesmo no Hospital de São João, onde este projeto já está em prática há cerca de sete anos.

“É um processo que vai aos poucos. Nunca tive nenhum problema aqui no hospital, mas é verdade que ainda existem algumas barreiras à implementação destas terapias”, explica Zilda Alarcão.

A enfermeira continua: “Não é algo que seja dito, não é frontal, mas é expresso por atitudes, como não existir recetividade para alterar os horários da quimioterapia para poderem ser realizados nos dias dos tratamentos de reiki. Dado que os doentes que estão em casa só têm a comparticipação do SNS para a ambulância para realizar os tratamentos de quimioterapia, esta alteração faria com que não tivessem de suportar custos financeiros para fazer reiki — nós só temos os gabinetes disponíveis três dias por semana, portanto estamos mais limitados”.

Este projeto é levado a cabo por voluntários, todos profissionais de saúde, como enfermeiros, psicólogos, médicos de medicina tradicional chinesa e até auxiliares de geriatria. Para além de todos terem de ter, obrigatoriamente, uma formação mínima de segundo nível de reiki, embora Zilda Alarcão saliente que “são quase todos mestres”, há que ter muito amor pelo que fazem.

“Há pessoas que não se adaptam ao local, o Hospital de São João é um sítio complicado. Quando conheço estes voluntários, antes de os aprovar, tenho de perceber se gostam mesmo daquilo que fazem. É muito importante querer ajudar estas pessoas, estes doentes”, salienta a coordenadora do projeto.