20 anos depois, o que é feito do Casal Ventoso?

O antigo hipermercado da droga desintegrou-se. Hoje o consumo é menor, mas continua a existir — fragmentado em vários pontos de Lisboa.

Os bairros de Alcântara que receberam os antigos moradores do Casal Ventoso na década de 90 são pontos de consumo recorrentes em Lisboa

A pele está encardida e amarelada. A cara espelha um cansaço crónico. São cicatrizes que manifestam sinais de abuso de consumo, mas um olhar mais atento deixa ver vestígios de alguma juventude. Não sabemos o nome dele, mas vemos que é mais novo do que parece e que está acelerado. A presença da máquina fotográfica perturba-o e ele proíbe-nos de captar o momento. Tem sangue já seco no pescoço e outras marcas que dão conta de uma vida que seguiu um caminho à margem.

“Quero dez kits de seringas de bico grosso”, pede o homem a Rita Lopes, 30, e Marta Correia, 27, duas técnicas da CRESCER — Associação de Intervenção Comunitária, que a MAGG acompanhou durante a tarde de segunda-feira, 11 de fevereiro. Enquanto elas abrem as mochilas para responder ao pedido, ele coloca num contentor aquelas que usou para se injetar. “Eu só quero uma. Só me estrago de vez em quando”, diz outro, mais velho, cuja aparência corresponde ao que afirma.

Estamos no cimo de umas escadas algures na Quinta do Loureiro, um dos três bairros de Alcântara (os outros são a Quinta do Cabrinha e Ceuta Sul) para onde os mil moradores (248 famílias) do Casal Ventoso foram realojados. O processo foi organizado pela Câmara Municipal de Lisboa, na altura comandada pelo socialista João Soares, e teve início em fevereiro de 1999. Faz agora 20 anos que o Casal Ventoso foi demolido. Só que o Casal Ventoso ainda existe, mesmo que esteja num sítio diferente.

O lugar onde estamos é inóspito e inclinado. Há vegetação rasa e outra que nos chega à cintura. O caminho faz-se por pequenos trilhos de terra. É preciso cuidado a andar, porque há o perigo de pisarmos seringas usadas.

O contentor onde são colocadas as seringas utilizadas pelos consumidores

Sentado no chão com mais dois homens está Pedro. Ao contrário do amigo, que preferiu uma veia do pescoço, ele está a injetar-se no braço, com uma das seringas incluídas nos kits de Rita e Marta.

Tínhamo-lo encontrado há menos de meia hora, na Rua Maria Pia. Tem cerca de 30 anos e, como tantos outros consumidores, já conhece as técnicas da associação, que trabalham na equipa de Redução de Riscos e Minimização de Danos. Recolhem seringas e entregam novo material assético, num conjunto onde, além da ferramenta para injetar, há toalhitas desinfetantes (para limparem a zona onde vão injetar, antes e depois), ácido cítrico (substitui o limão e é utilizado para diluir a droga), duas sopeiras para executar a mistura e um preservativo.

Com um familiar e simpático sorriso, Pedro atravessa a estrada e para para conversar um pouco. Pergunta se o ácido cítrico incluído neste kit se pode estragar, porque alguém se queixou disso. Elas dizem que é difícil, porque, apesar de ter validade, dura muito tempo. Ele pergunta que horas são, conta que está a viver num carro e guarda na mochila o pacote retangular verde onde está tudo o que precisa para cumprir o ritual. Segue caminho, descendo rumo a Alcântara.

Aquele que é um mundo distante para quem vive nos bairros mais tradicionais de Lisboa, é a realidade com que Rita e Marta trabalham diariamente. Entre outras funções na CRESCER, desempenham esta, que passa por fazer visitas diárias às zonas mais complicadas de Lisboa, onde há toxicodependência.

Na Quinta do Loureiro, consumidores reunem-se

A associação, criada em 2001 pelo psicólogo Américo Nave e mais dois amigos (Cláudia Pereira e Hélder Trigo), fica na Quinta do Cabrinha, o primeiro dos três bairros sociais de Alcântara que começou a receber os moradores da colina entre Alcântara e Campo de Ourique.

O trabalho dos membros desta associação — que também opera junto dos sem-abrigo e refugiados — passa por garantir que indivíduos dependentes de drogas possam consumir de forma segura. Conhecem os utentes e ajudam-nos, com uma estratégia que é contra a repressão. Aceitam a toxicodependência e tentam dar-lhe mais condições. Sempre que alguém quer entrar em processo de tratamento, eles estão prontos a agilizar e acompanhar o processo. “Eles respeitam-nos e gostam da presença da equipa”, explica Rita, formada em psicologia criminal e a trabalhar nesta associação há quatro anos.

O kit e todos os seus elementos: as seringas, as embalagens de ácido cítrico, dois pequenos pratos, toalhitas e um preservativo

Ainda no mesmo bairro, mas mais abaixo, já na Avenida de Ceuta, encontramos José, acompanhado pela mulher. Estão nas arcadas de um prédio onde o chão está repleto de lixo de consumo. Assim que veem o carro da CRESCER a aproximar-se, acenam. Já sabem que vem aí material novo, desinfetado e seguro. Paramos e eles aproximam-se. Ela tem as unhas pintadas e bem arranjadas. Ele não. Tudo indica que é nas mãos que se injeta, mas José explica às técnicas que não.

Quando estou flashado [depois de consumir], começo a escarafunchar as mãos”, conta. É frequente. “Um antigo utente, que já morreu, arranhou tanto a cabeça que ficou com uma ferida aberta”, lembra Rita.

As palmas das mãos de José estão pretas de queimar a prata, o que não é bom para as suas feridas, porque a sujidade chama as infeções. Conta que já não tem veias nos braços e que está a tentar consumir, fumando — a opção mais frequente entre os toxicodependentes, segundo as técnicas da associação.

Mas, para José, é difícil. “O efeito não tem nada a ver. É completamente diferente e a dificuldade é essa.” Discretamente, a mulher retira uma série de agulhas usadas da mala e devolve-as. Ele pede seringas de bico grosso. Ela prefere as finas.

A colina está deserta, mas ainda há quem passe por lá

Passados 20 anos do início do processo de realojamento dos moradores do Casal Ventoso, a MAGG quis ver como é que está o antigo hipermercado da droga. A encosta que antes ficava lotada de gente, hoje está deserta. Já não há barracas, já não vemos traficantes, já não se formam filas para a compra de heroína ou de cocaína. Poucas casas estão habitadas, mas ainda vemos um par de linhas com roupa estendida. Há vida, mas pouca.

“Aqui vemos mais seringas do que pessoas”, diz Marta, enquanto, com uma comprida pinça, vai recolhendo aquelas que encontra no chão. Mas, nem de propósito. No segundo seguinte, surge um homem, que não terá muito mais de 40 anos. É o Tiago. “Quero um kit”, diz. Está com um ar aflito. Apoia as mãos nos joelhos e inclina-se. “Estás bem?”, perguntam. “Não, estou de ressaca.” Apressado para matar a agonia, segue caminho.

Uma vez vim da escola e estava farto daquilo. Havia um amigo meu que andava a consumir e eu experimentei. Desde então nunca parei — só quando fui de cana.”

A poucos metros voltamos a encontrá-lo. Está dentro daquilo a que já não podemos considerar uma casa, porque parte das paredes e do teto já estão no chão. Servem de bancos, aqueles em se senta o homem, agora na companhia de mais uma pessoa. Pouco a pouco, vão surgindo mais uns quantos, que atravessam o caminho de terra da mítica colina. Debruçam-se para entrar na estrutura tosca e juntam-se a Tiago, que já tem um tubo de prata enrolado para fumar.

Uma das seringas recolhidas pelas técnicas da CRESCER no Casal Ventoso

Apesar de não ter pessoas, o Casal Ventoso continua a ser um local de consumo. A certeza nasce dos vestígios no chão, coberto de seringas utilizadas e embalagens verdes da CRESCER. Também há preservativos, aqueles que vêm incluídos no kit de material assético fornecido pela associação, mas estes nem sequer foram utilizados, porque o pacote continua fechado. “Este é o famoso muro. Quando a polícia aparecia na Meia Laranja, os consumidores atiravam a droga ali de cima cá para baixo”, aponta Marta.

“O Casal Ventoso era o meu forte. Eu ali era intocável”, diz-nos o Beicinhas. Consome desde os 13 anos e conhecemo-lo no bairro da Quinta do Loureiro. “Uma vez vim da escola e estava farto daquilo. Havia um amigo meu que andava a consumir e eu experimentei. Desde então nunca parei — só quando fui de cana.”

Tem 47 anos e é natural do Restelo. Ao seu lado está uma mulher mais nova. É loira e parece ser principiante, até pela forma envergonhada com que pede prata a Rita e Marta. Elas abrem a embalagem de papel de alumínio e rasgam na quantidade certa, para depois a folha ser dobrada, na horizontal, a melhor forma para dispor a droga e fumá-la.

O consumo fumado é superior ao injetado

“Quando havia as filas para comprar, aquilo já não era o Casal Ventoso. Era outra coisa”, lembra Beicinhas. “Quando comecei a ir para lá era muito mais discreto e organizado. Havia esquemas entre a polícia, os traficantes e consumidores. Eu tinha carta branca para passar por eles, fosse como fosse”.

Nunca traficou, garante-nos — só consumia. Relembra a primeira experiência. “É uma sensação de alívio. Tudo à nossa volta fica mais leve. Os problemas desaparecem. Nunca mais conseguimos uma moca igual.”

Américo Nave descreve como “dantesco” o cenário a que assistiu no final da década de 90 (o vídeo abaixo mostra a realidade, mas contém imagens que podem chocar). Trabalhava na associação Ares do Pinhal, uma das muitas que foram chamadas para o processo de reconversão do Casal Ventoso e aquela que dirigia o programa de metadona, com sede na Avenida de Ceuta.

Cerca de 500 habitantes daquele bairro eram consumidores. Outros cinco mil subiam e desciam até lá para comprar e consumir. “Era um sítio onde havia muito tráfico, muito consumo. Havia alguidares com seringas lá dentro, que as pessoas lavavam com água e limão para voltarem a usar. Eram milhares de pessoas a consumir diariamente”, lembra. “Vi pessoas com larvas dentro das feridas. Quando chegavam ao hospital, com gangrena, a única hipótese que os médicos tinham era amputar os membros.”

O hipermercado da droga não era frequentado exclusivamente pelos habitantes de Lisboa. Vinham de todos os cantos do País, lembra o fundador da CRESCER. “E havia mesmo muitas pessoas jovens, com 18 ou 19 anos.”

Para onde é que foi o Casal Ventoso?

A 4 de fevereiro de 1999, o "Diário de Notícias" falava no processo de reconversão do Casal Ventoso

Terminava em 1999 o processo de realojamento dos moradores do hipermercado da droga. Aquela colina deixou de existir como muitas a conheceram, mas o consumo não desapareceu. O Casal Ventoso continuou a existir, mas fragmentado por diferentes zonas de Lisboa.

“No início dos anos 2000 acho que houve uma dispersão do consumo. Uma das zonas em que isso se tornou mais visível foi o Intendente”, refere Américo Nave. “Começámos a trabalhar nessa zona e encontrávamos 200 pessoas a dormir na rua diariamente. Isso deve-se muito à intervenção no Casal Ventoso.”

O Bairro da Cruz Vermelha e a zona da Picheleira também passaram a constituir outros fragmentos da antiga colina junto a Campo de Ourique. O consumo deslocou-se para outros pontos da cidade e, só alguns anos depois, é que chegou ao local onde as pessoas do antigo bairro passaram a morar.

Hoje é uma realidade presente em Alcântara, onde ficam os bairros da Quinta da Cabrinha, da Quinta do Loureiro e da zona de Ceuta Sul, aqueles que receberam os antigos habitantes do Casal Ventoso. As traseiras do Banco Alimentar Contra a Fome são ponto de encontro entre consumidores e um dos locais de visita dos técnicos da CRESCER. De um lado passam os comboios, do outro há heroína e cocaína, injetada, mas sobretudo fumada.

A zona de Ceuta Sul é um dos locais de consumo em Lisboa

São as salas de consumo de Lisboa, que existem “às dezenas e às dezenas”. Aqui, além de haver “condições deploráveis”, “cria-se mais vulnerabilidade, mais doença e menos integração.” O psicólogo e fundador da CRESCER elogia a despenalização do consumo, medida implementada em 2001, mas considera que ficou trabalho por fazer: espaços próprios e vigiados em que os consumidores, possam, em segurança, alimentar o vício.

“Ao longo dos últimos 20 anos — e mesmo estando previsto na lei de 2001 a possibilidade de abertura de salas de consumo vigiado — a discussão é sempre sobre onde é que não se pode consumir. O foco nunca passou a ser sobre onde é que o consumo poderia ser permitido”, diz.

“Fez com que os consumos dos anos 90 e 2000 fossem hoje feitos em sítios à margem e isolados, fazendo com que as pessoas corram mais risco, que as equipas técnicas tenham mais dificuldade em lá chegar.” A preocupação, garante, gira em torno da comunidade, o que é “legítimo.” Porém, “o que não é legítimo é que não se tenham criado condições para as pessoas consumirem de forma digna, segura e que diminua os ricos para eles e para a saúde pública.”

Quinta do Cabrinha, onde fica sediada a CRESCER

Não se trata de incentivar e de fomentar. “As salas são até uma forma de os consumidores estarem em contacto com os técnicos, que os reencaminham para tratamentos. Na década de 80 e 90 ficou mais do que comprovado que a repressão não faz diminuir o consumo. Ficou provado em Portugal e no resto do mundo”, diz. “Quando, em 2001, se cria a política de redução de riscos, os casos de HIV, hepatite C e o número de consumidores diminuíram.”

Mortes por overdose aumentaram

Na Europa existe quase uma centena de salas de consumo, em países como Espanha, Holanda, Alemanha, Suíça ou Finlândia. “Fomos o primeiro País a descriminalizar o consumo, o que acho excelente. Mas devíamos ter ido mais além. Portugal é uma referência a nível mundial. Mas as soluções que foram criadas há 20 anos mantêm-se as mesmas.”

Atualmente, há quase menos metade dos consumidores que existiam na década de 90 e início dos anos 2000. De 100 mil, o número diminui para 60 mil. Houve muita gente que conseguiu restabelecer a vida e controlar a dependência. Hoje em dia, contrariamente ao que acontecia antes (por desconhecimento), muitos dos dependentes procuram a ajuda de associações para serem submetidas a tratamentos.

Mas a crise económica que se instalou em 2008 foi tendo como consequência várias recaídas. “Pessoas que perderam o emprego e que entraram em rutura financeira, tiveram recaídas”, nota Américo Nave. “Vimos muitas pessoas a chegar aos bairros, quando já não consumiam há dez ou 15 anos.”

Rita Lopes, 30 anos, e Marta Correia, 27

Em comparação há 20 anos, estamos, “sem dúvida, muito melhores.” Mas Américo Nave acredita que ainda podíamos estar melhor, até porque dados do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, divulgados em janeiro, revelaram que em 2017 houve mais mortes causadas pelo consumo de álcool e de drogas. O número total é de 259 óbitos, dos quais 38 foram resultado de overdose (opiáceos, cocaína ou metadona) — em 2016, o número estava nos 27 casos. 

O psicólogo nota diferenças face aos consumos do tempo do Casal Ventoso. Hoje “chega a todos os estratos sociais”, a pessoas mais informadas, que precisam de abordagens diferentes, com maior qualidade, comparativamente às que foram aplicadas nos anos 90.

A Câmara Municipal de Lisboa, refere, avança com projetos inovadores na área das dependências — como é o caso do Lisbon Housing First, incluído nas iniciativas da CRESCER, em que se dá casa a pessoas em situações extremas, em condições crónicas de sem-abrigo, física e psicologicamente vulneráveis e que não aderem a respostas existentes] — mas o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) não. “Continuamos a não ser financiados por eles.”

Texto de Ana Luísa Bernardino, fotografia de joaomartins.
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