“Os miúdos não aprendem sozinhos a estar com um telemóvel à frente, aprendem isso com os pais”

No livro "Respostas simples às perguntas difíceis dos nossos filhos", Bárbara Ramos Dias reúne as maiores questões das crianças e jovens.

Bárbara Ramos Dias é psicóloga clínica há 20 anos, e lança agora o seu primeiro livro

João Martins / MAGG

Mal entramos no gabinete de psicologia de Bárbara Ramos Dias, a autora do novo livro “Respostas simples às perguntas difíceis dos nossos filhos”, editado pela Manuscrito, é fácil perceber o porquê de os pacientes desta especialista, maioritariamente crianças e adolescentes, se sentirem completamente à vontade neste espaço.

Despretensioso, cheio de cor e elementos alegres, onde não faltam bolachas e rebuçados, o consultório não corresponde àquilo que esperamos encontrar num espaço destinado à terapia, mas combina na perfeição com a personalidade da especialista, de sorriso fácil, muito expressiva e que conta à MAGG que quer, acima de tudo, ser um “apoio” e uma pessoa na qual os seus pacientes depositam confiança.

Numa conversa enriquecedora e didática, a psicóloga e mãe de três filhos conta-nos o que a levou a escrever este guia prático para pais e não só, onde aborda todos os temas complexos e as questões complicadas que as crianças e jovens colocam aos adultos.

Da morte às birras, sem faltar uma reflexão sobre a baixa autoestima dos miúdos de hoje em dia, bem como o infeliz recurso à automutilação que aumenta de dia para dia, Bárbara Ramos Dias fala de tudo um pouco, com muito amor e dedicação, numa entrevista que deixa qualquer pai a pensar duas vezes sobre a qualidade da sua relação com os filhos.

Como é que surgiu a ideia deste livro?
Foi a Manuscrito que me desafiou. Baseado na experiência profissional, mas também na pessoal enquanto mãe, enquanto tia. Foi uma ideia que foi crescendo, começámos a pensar sobre o que iria escrever, sobre o tema, e achámos que podia ser associado às perguntas que os miúdos fazem.

Quem são os miúdos que fazem estas questões?
Todas estas perguntas são questões que já me foram colocadas, de diferentes formas: filhos, sobrinhos e, ao longo destes 20 anos de experiência profissional, os miúdos que passam pelo meu consultório e até os próprios pais, que me dizem “o meu filho perguntou-me isto, o que é que achas que posso dizer?”. Então fui juntando essas perguntas todas e fizemos o livro.

É mãe?
Sim, tenho três filhos, de 12, 10 e seis anos. A mais velha é uma rapariga, e depois tenho os dois rapazes mais novos.

Recorda-se das primeiras perguntas difíceis deles?
Sim, várias. Bem, a Francisca começou logo quando eu fiquei grávida do irmão, espreitava pelo meu umbigo para ver o Vasco, tinha pouco menos de dois anos na altura. Foi aí que começou a perguntar como é que o irmão ia nascer, perguntas essas que voltaram a acontecer quando fiquei grávida do meu filho mais novo — só que dessa vez tinha duas crianças a quererem saber como é que o irmão tinha ido parar à minha barriga, como é que o médico tinha posto o bebé lá dentro.

Para mim, a mais difícil de todas, e que me deixou mais desconfortável, foi quando o meu marido ia ser operado à coluna (tinha uma hérnia), e o Vicente, o mais novo, estava muito preocupado. Perguntou-me: “O pai vai morrer na operação?”. Essa pergunta faz parte do livro e foi das que mais mexeram comigo.

Não lhe queria mentir e também não queria desvalorizar o sucedido. É óbvio que desejamos sempre que corra tudo bem, mas podem acontecer coisas menos boas.

Como é que deu a volta à questão?
Falei como falo sempre, com o coração. Disse-lhe que ia correr tudo bem, que o pai ia ser operado, e que daí a umas horas já estávamos todos juntos outra vez.

Na infância, pré-adolescência e adolescência, as crianças e os jovens têm tendência para focar temas, e consequentemente questões, diferentes?
Sim. Os mais pequeninos focam-se muito na história dos bebés, dos limites, do porque é que não podem fazer isto e aquilo — isto por volta dos três, quatro anos.

A seguir, em idade escolar, por volta dos 11 anos, as questões andam muito à volta da escola. “Porque é que tenho de estudar”, “porque é que tenho de ir à escola?”, “porque é que tenho de estudar matemática se quero ser bailarina?”.

Depois começam as outras, sobre bebida, comida, isto falando dos adolescentes. Mas atenção que há perguntas e temas transversais a todas as idades: falo do divórcio, da morte. Por exemplo, eu perdi os meus avós há pouco tempo, e foi curioso ver a forma como os meus filhos lidaram com a informação. Enquanto o pequenino ainda acredita que os avós são estrelinhas no céu, os mais velhos questionam-se mais. Perguntaram-me se eu e o pai vamos morrer, como é que as coisas se iam passar.

Bárbara Ramos Dias é psicóloga, especialista em adolescência e parentalidade, e é mãe de três filhos

João Martins / MAGG

O que é que lhes respondeu?
O que eu explico, nas diferentes idades, é que o importante é guardarmos as pessoas no coração. Fazemos as nossas cartas de despedida, ou rituais de despedida, como um desenho para a avó, por exemplo, mas sempre desdramatizando e explicando.

Digo muitas vezes que nós somos como as plantas, que nascem, vivem, morrem, e depois chegam outras no seu lugar. O importante é, enquanto estamos cá, darmos valor à nossa vida e vermos as coisas do lado positivo.

Essas cartas de despedida que mencionou é uma forma de os miúdos processarem o que aconteceu?
É uma forma de fazerem o luto. Uma carta a dizer que gostavam dos avós, que vão ter saudades. Outra coisa que costumo fazer, com uma caixa de areia que tenho aqui e com uns bonecos, é brincar ao faz de conta e fazer uma dramatização com estas ferramentas.

A caixa de areia pode ser usada para processar o luto dos mais pequenos

João Martins / MAGG

Isto é psicodrama, e podemos pôr os bonecos a falarem uns com os outros. Podemos pôr a criança a falar com a avó e com o avô, para trabalhar o luto, e até verbalizar algumas coisas que ficaram por dizer. Acho que é importante para os miúdos sentirem estas vivências e conseguirem fazer uma despedida à maneira deles.

Acho que temos de usar mesmo a palavra morte, explicar que é uma etapa natural da vida, que tal como os animais e as plantas, também morremos.”

Escreve no livro que dizer aos miúdos que alguém foi viajar para esconder uma morte pode ser traumatizante.
Sim. Aliás, quando a minha sogra viajou — os meus cunhados vivem no Dubai e ela passou lá uma temporada de três meses —, o meu filho mais novo estava-nos sempre a perguntar se a avó tinha morrido. Só descansou quando ela voltou.

Acho que temos de usar mesmo a palavra morte, explicar que é uma etapa natural da vida, que tal como os animais e as plantas, também morremos. É também importante passar a ideia que temos de dizer às pessoas o que sentimos enquanto as temos connosco, e explicar as coisas com clareza.

Há uma fórmula perfeita para abordar temas mais complexos, como a morte ou a sexualidade?
Clareza, amor, honestidade. Costumo dizer aos pais: “Falem com o coração, e tudo está certo”. A maior parte dos miúdos só precisa de um diálogo olhos nos olhos, um abraço, que os pais estejam presentes para eles.

E as crianças verbalizam essa necessidade de precisarem de passar mais tempo com os pais?
Sim. Hoje em dia, noto que os miúdos querem muito fazer coisas com os pais. E por isso transmito muito aos adultos que o fazer é mais importante que o ter.

Por exemplo, quando se portam bem, quando têm boas notas, digo sempre aos pais para não darem prémios de “ter”, mas sim de “fazer”. Ou seja, se atingiram qualquer objetivo, recompensem as crianças com um passeio em família no paredão ou um piquenique na praia, por exemplo.

Isso é que é importante, as crianças saberem que se se portarem bem, se tiverem boas notas, vão conseguir fazer coisas com os pais. Claro que depois há famílias com diferentes possibilidades e que conseguem recompensar um período lectivo só com notas excelentes com uma viagem, por exemplo. No entanto, seja uma viagem ou um passeio à praia de Carcavelos, os miúdos vão ter sempre na memória os momentos que passaram com os pais, com as atividades. As coisas materiais acabam por passar.

No seu livro, fala muito da influência positiva.
Eu sou muito pela positiva, e pelo valorizar o comportamento positivo, desvalorizando o negativo. Se a criança está a fazer uma birra, que a faça à vontade. Mas quando a mesma criança faz a cama, levanta o prato da mesa, prefiro valorizar esse comportamento e elogiar. Porque aí os miúdos aprendem que têm atenção pelo comportamento bom, e não pelo mau.

Os miúdos, quanto mais se portam mal, mais precisam de atenção e de amor.”

Muitas vezes, eles só têm a atenção pelo mau, logo vão chamar a atenção exatamente assim, através do mau comportamento. Escrevi muitas vezes no livro a frase “quanto mais mal te portas, mais precisas”. Os miúdos, quanto mais se portam mal, mais precisam de atenção e de amor. E é fácil de percebermos isto com um paralelismo simples: quando estamos no trânsito, quem é que buzina, quem é que grita mais? Não é uma pessoa feliz que o faz, pois não? Quem refila são os que estão de mal com a vida, que estão frustrados, que vão gritar com toda a gente à volta.

E com as crianças é a mesma coisa?
Sim. Aqueles que batem, que gritam, que fazem disparates, são aqueles que precisam de alguma coisa, de atenção, de colo. É uma chamada de atenção. Mas há pais que não conseguem desvalorizar e ignorar uma birra, nomeadamente em locais públicos.

O livro "Respostas simples às perguntas difíceis dos nossos filhos" é editado pela Manuscrito e tem um preço recomendado de 14,90€

João Martins / MAGG

Sempre ignorei as dos meus filhos, mesmo no meio de um supermercado. Eu não conheço ninguém, não me importo. Sempre segui uma política de “estás a fazer birra? Então fica aí”. E a partir do minuto em que me vou embora, eles vêm atrás. Se eu ficar ali a valorizar, a gritar para eles se levantarem, é tudo o que eles querem, é chamar a atenção, e vamos alimentar as birras. Há que responsabilizar as crianças e fazê-las perceber que não ganham nada com estes comportamentos.

É preciso falar honestamente com os miúdos

É importante que os pais sejam honestos com os filhos, e lhes transmitam o que sentem? Se estão tristes, devem comunicar isso às crianças?
Sim. Existe muito a tentação de os adultos desculparem um estado de tristeza com cansaço, mas os miúdos sabem a diferença entre as duas coisas. Tenho muitos pacientes que me dizem: “A minha mãe diz-me que está cansada, mas eu sei que está triste, ela é que não me quer dizer o que é que se passa”. Eles têm o meu What’s App e enviam-me muitas mensagens do género.

Acaba por ser um grande apoio para os seus pacientes, um porto seguro?
Sou um grande apoio, gosto que tenham em mim uma pessoa em quem eles confiam. Até porque na adolescência — e os pais têm muito a tendência de achar que esta história da automutilação é moda —, há momentos de grande sofrimento.

E falando da automutilação, se eles tiverem a preocupação de me enviarem uma mensagem a dizer que estão tristes e que estão com vontade de se cortar, basta receberem uma resposta minha, de apoio, para se sentirem seguros, confortáveis e não precisem de se cortar para se sentirem bem.

Acha que esta questão da automutilação existe mais nos dias de hoje?
Sempre existiu, mas agora, de facto, existe muito mais. Tenho muitos miúdos que os pais não tinham ideia que eles se cortavam.

São miúdos com baixa autoestima, que se sentem desvalorizados, e a maneira que encontram para colmatar o seu vazio interno é através da automutilação.”

É uma forma de chamar a atenção dos pais?
Não, os pais acham que sim, mas não é. O que me transmitem é que o fazem para se sentirem vivos, para sentirem a dor. Sentem-se perdidos, não sabem o que estão cá a fazer, e a única forma de se sentirem vivos é através da dor física. São miúdos com baixa autoestima, que se sentem desvalorizados, e a maneira que encontram para colmatar o seu vazio interno é através da automutilação, porque a dor física os faz esquecer a dor emocional.

Há que ajudar estes miúdos a perceber que esse comportamento que estão a ter não é mais do que uma dor, e dar-lhes ferramentas para transformar isso em algo positivo.

Acredita que os filhos são o espelho dos pais?
Acredito, sem dúvida. Eu noto que nos dias em que estou irritada, e que grito, os meus filhos também estão a gritar.

Isso acaba por valer um bocadinho para tudo, não? Muitos pais queixam-se do vícios dos miúdos com a tecnologia, mas às vezes os adultos são os primeiros a não largar os ecrãs.
Mais grave do que isso: quantos adultos colocam um tablet à frente de uma criança de dois e três anos para ela comer? Os miúdos não aprendem sozinhos a estar com um telemóvel à frente, aprendem isso com os pais.

Somos nós, adultos, que temos de incentivar os miúdos a irem para a rua, temos de ir com eles para a praia, para o paredão, o que for. Há que não criticar o tempo que os nossos filhos passam ao telemóvel, mas dar-lhes alternativas que eles não conhecem ou a que não estão habituados. Eles têm de aprender a ter estes escapes, se não não sabem o que fazer. Os pais tiram-lhes a consola e eles ficam perdidos.

A entrevista decorreu no gabinete da especialista, em Carcavelos

João Martins / MAGG

Falando de tecnologia, numa era com tanta informação, como é que conseguimos que os miúdos recorram a nós, pais, para lhes respondermos às questões difíceis, e não à internet?
Dando abertura. Os pais queixam-se de que os filhos não falam com eles, mas os adultos também não o fazem. Se os pais partilharem coisas do seu quotidiano com os filhos, mesmo que seja um episódio no trabalho, dão abertura a que os miúdos também partilhem as suas coisas.

Eles aprendem que quando se chateiam com os amigos, podem desabafar com os pais. Se eles tiverem confiança em nós, conseguem falar connosco sobre tudo. Caso contrário, vão perguntar na internet, aos amigos, e não têm as melhores respostas.

Quão importante é a comunicação entre pais e filhos?
É regra de ouro, é a chave do sucesso. Ouvirmos o que eles têm para dizer, e não impingirmos aquilo que nós achamos. Temos de os deixar ter opinião, ao mesmo tempo que traçamos limites. No meu trabalho, vejo que os miúdos que têm regras, com amor, são muito mais seguros do que aqueles que podem fazer tudo o que querem. As crianças precisam de ouvir um “não”, e os pais têm de ser firmes nesse mesmo “não”.

Nenhuma pergunta deve ficar sem resposta?
Eu acho que sim, que lhes devemos responder a tudo. Talvez nem sempre no timing que eles querem, até porque às vezes não sabemos ou pode não ser um momento certo.

Não há assuntos tabus entre pais e filhos?
Não, até porque se os pais não lhes responderem, os miúdos arranjam forma de conseguirem a informação através de outras pessoas, na internet, o que for.

Se tivesse de escolher três conselhos chave para os pais, quais seriam?
Regras, amor e partilha — são os três elementos chave para tudo.

Texto de Catarina da Eira Ballestero, fotografia de joaomartins.
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