Da estratosfera para a Terra. O engenheiro da Google que deu o maior salto em queda livre

A história vem relatada num documentário da Netflix. Com 57 anos, Alan Eustace saltou de uma distância de 40 quilómetros de altura.

O engenheiro subiu tão alto que conseguia ver a curvatura da Terra

Foi em 2014 que se estabeleceu um novo recorde mundial para o maior salto dado em queda livre. Alan Eustace, 58 anos, engenheiro da Google (que também passou pela HP e Compaq) libertou-se de um balão a gás onde vinha suspenso, que voava a 40 quilómetros de altitude do chão — na estratosfera, portanto já na área que separa o espaço do planeta. Estava tão alto que conseguia ver um pouco da curvatura da Terra.

Equipado com um capacete, um fato espacial e um paraquedas salva vidas (aberto no momento em que atingiu os três metros do chão), Eustace ultrapassou o salto de 2012 do australiano Felix Baumgartner, não tendo, no entanto, atingindo a mesma velocidade: no primeiro recorde, o máximo atingido foi de 1.340 quilómetros por hora e no novo foi de 1.319.

“Gostei da ideia de um velho e ancião engenheiro bater um recorde em queda livre”, disse Alan Eustace ao “Business Insider“.

14 Minutes From Heart”, produzido pela Atomic Entertainment, e realizado por Trey Nelson e Jerry Kolber, é o nome do documentário que estreou na Netflix (ainda não está disponível na versão portuguesa) e que conta a história do gigantesco salto. Revela como é que Eustace transformou esta ação num projeto de engenharia, tendo desenvolvido o próprio fato, reunido a equipa de produtores de balões e ainda realizado vários testes.

“Para mim, os audazes são aqueles que tentam fazer coisas malucas, onde há muitas variáveis ​​desconhecidas e onde as hipóteses de serem feridos ou mortos são muito altas”, disse o engenheiro à mesma revista.

Durante o salto, relata, sentiu-se calmo, ainda que o coração batesse mais rápido a cada segundo. “Eu estava a ser salvo por uma tecnologia incrível que eu e a minha equipa desenhámos“, disse. “Não é 100% seguro, mas é o mais seguro que um humano pode alcançar.”

O engenheiro, que se reformou aos 58 depois de ter desempenhado a função de vice-presidente do departamento de “conhecimento” da Google, diz que, por vezes, fica “obcecado” com problemas. “Sinto que quero saber tudo o que há para saber sobre um problema, ou a solução, ou quero testar diferentes soluções e ver qual é que é a melhor para o problema.”

Os aviões não atingem aquela altura

Foi isto que o levou a montar o projeto do salto — e posteriormente a bater o recorde. Eustace saltou de uma altura que os aviões não conseguem atingir, porque o ar na estratosfera é demasiado fino para aguentá-los. Não quis subir a esta altura num balão de ar banal ou sequer numa cápsula pressurizada e oxigenada, como aquela em que Baumgartner viajou. Foi muito mais criativo: fê-lo agarrando-se a um balão movido a gás maior do que um campo de futebol, que demorou duas horas até atingir a altura certa. No percurso, o engenheiro ia a baloiçar, por baixo.

Para conseguir respirar nesta altura, Alan precisou de usar um fato espacial, porque, de outra forma, não teria oxigénio. Foi desenhado pelo próprio, com a ajuda da ILC DOVER, a mesma empresa que desenhou os fatos utilizados pela tripulação do Apollo, na ida à lua. Foi, segundo o próprio relatou ao “Business Insider”, o fato com maior pressão alguma vez fabricado nos Estados Unidos.

Alan Eustace fez duas experiências antes do derradeiro salto: uma a 14 quilómetros e outra a 32 do chão

Atomic Entertainment

“Tem mais 25% de pressão do que em qualquer outro fato”, disse. Em simultâneo, teve de garantir que o equipamento aguentava tanto o calor intenso do deserto do Novo México, o ponto de partida da aventura, como o “frio extremo” do local a partir de onde saltou, que podia atingir os menos 51 graus. “É o primeiro fato que pode ser arrefecido e aquecido”, refere.

Caiu a uma velocidade superior à do som

Mais de uma hora antes de subir, o engenheiro precisou de inalar oxigénio puro, limpando o sangue de nitrogénio, porque, quando o corpo sobe à estratosfera, a diferença de pressão pode levar à formação de bolhas deste elemento químico no sangue.

Antes de bater o recorde, Eustace fez dois testes: primeiro saltou de 17 quilómetros e, depois, de 32. No primeiro estava mais nervoso. No derradeiro já foi diferente. “Sabia que o terceiro era o último salto que ia dar. Tentei relaxar ao máximo, dentro do possível, porque [a calma] mantém a frequência cardíaca e respiração mais baixas.”

O “Business Insider” diz que o salto atingiu uma velocidade superior àquela a que o som viaja. Durou cerca de 14 minutos — quatro minutos e 27 segundos sem paraquedas e dez minutos com paraquedas.

O engenheiro não vai voltar a saltar. “Não tenho um fato espacial, a minha mulher ia divorciar-se de mim e a minha equipa já está a trabalhar noutras coisas.”

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