Retiros de silêncio. Histórias de quem esteve calado durante 4, 5 ou 10 dias

Tomás, Igor e Pureza explicam que estar em silêncio é um meio para "regressar a casa", ao nosso "interior" e fugir dos estímulos tóxicos.

Tomás Mello Breyner foi uma das três pessoas que relataram à MAGG o que é estar num retiro de silêncio, as motivações e as consequências

Tentar explicar a alguém a sensação do sabor doce é difícil. A descrição nunca vai ser absolutamente fiel à realidade, porque a sensibilidade não tem cor, forma ou qualquer outra particularidade física, que seja palpável ou sequer visível. Com um retiro de silêncio é igual ou mais difícil, explica à MAGG Tomás Mello Breyner, 30 anos, natural de Azeitão. “É como se alguém nunca tivesse provado alguma coisa com açúcar e lhe quisesses explicar a que é que sabe. Se não tiveres provado, nunca vais saber o que é. É muito difícil explicar por palavras aquilo que se sente”, diz.

A sua relação com a meditação começou depois de ter descoberto que sofria da síndrome de Ménière, uma doença, que afeta o ouvido internamente. O impacto na vida é grande, porque a audição fica reduzida, mas há um zumbido permanente que passa a acompanhar-nos. A isto juntam-se tonturas e desequilíbrios. A medicina, em todas as suas vertentes, não lhe estava a dar as soluções de que precisava. “Comecei uma busca interior porque cá fora não tinha respostas”, conta à MAGG.

Em 2012, dois anos depois de lhe ser diagnosticado o problema, Tomás — que é fundador de O Pequeno Buda, o projeto que leva a meditação às escolas e que recentemente chegou à Casa Pia — mudou-se para Nova Iorque, nos Estados Unidos, a propósito de um estágio numa empresa de gestão de marketing. Pela altura tinha 24 anos. Já tinha iniciado o percurso “num caminho interior muito forte”, onde entravam as práticas do ioga e da meditação. Mas houve uma experiência que intensificou tudo. Uma amiga desafiou-o a fazer um retiro de silêncio — o primeiro de vários — no México. “Foi, no meu percurso, aquele que me fez abrir os olhos para o que é a meditação, o silêncio, a interiorização. Foi um despertar.”

Este retiro durou cinco dias, era para iniciados e seguia a meditação hridaya, que significa o coração espiritual. “É feita com foco no centro do peito”, conta. Durante esta estadia, frente a uma praia paradisíaca, em Mazunte, falar não era permitido. “Se quiseres falar, só se for urgente e tem de ser por escrito”, explica.

Mas também não ficava de castigo, em frente a uma parede. Os dias seguiam com várias sessões de meditação (a começar às seis da manhã), uma prática de ioga, palestras, sempre em torno dos ensinamentos desta filosofia, e refeições. Tomás já fez quatro retiros de silêncio: três hridaya e um vipassana (que se traduz como “insight meditation” ou “meditação analítica”). Este último dura dez dias e “é muito mais duro.”

Numa sociedade cada vez mais rápida, virada para os bens materiais, para formas de alienação, que nascem de estímulos permanentes, esta viagem ao interior é, segundo Tomás, essencial para o nosso bem-estar, auto-conhecimento, capacidade de reflexão. É, aliás, a forma de solucionarmos aquilo que nos atormenta, interna e, consequentemente, externamente.

Tomás Mello Breyner junto do horário praticado no retiro de silêncio em Kanpur

Apesar de, como os sabores e dos cheiros, ser difícil de descrever, Tomás esforça-se e diz-nos que é como se tratasse de uma espécie de retorno. “É como voltares a casa. É como voltares a um sítio que conheces, onde não ias há muito tempo, mas onde te sentes bem, onde sentes um calor interior. É mesmo voltarmos à nossa essência”, explica. “Nós vivemos numa sociedade exterior, de estímulos, onde perdemos esta conexão com interior.”

Mas é preciso ponderar antes de ir. Nem todas as pessoas estão preparadas para uma viagem tão intensa. “Tem de haver um chamamento. Temos de sentir que estamos preparados. Que queremos ir”, diz. “Se não sentirmos, vem muita coisa, por resolver, ao de cima.” A descarga pode ser tão forte, que é comum verem-se pessoas a chorar, a gritar, em êxtase. “Estamos a tirar coisas cá de dentro. É por isso que se chama viagem espiritual. Vais mesmo ao teu espírito”

“Todos os sítios onde tinha procurado a felicidade na verdade revelaram-se uma desilusão”

Os retiros hridaya — que também podem durar dez dias — são diferentes dos vipassana, que seguem os ensinamentos de Buda. Enquanto no primeiro, mais suave e gradual, o ponto em que a meditação se foca é no peito e no coração, no outro é no corpo todo. É, segundo Tomás, mais duro, mais rígido. “É mesmo à séria”. Dura dez dias, a hora de despertar é às quatro da manhã, para meia hora depois começarem a primeira sessão de meditação, a primeira de cinco, que duram cerca de duas horas e que acontecem sentados no chão.

“Dizem que é uma cirurgia cerebral para tirar todas as impurezas da nossa mente. No final adorei, mas é preciso estar minimamente preparado”, diz o fundador de O Pequeno Buda. Aconteceu em Kanpur, na Índia, num local vedado por muros que davam pistas da dureza da experiência, apesar dos tetos dourados em bico e dos jardins interiores. O retiro não tinha nenhum valor associado, sendo que cada pessoa contribui com aquilo que quer. No entanto, a satisfação de quem passa por lá é evidente — de apenas um centro, há já milhares espalhados no mundo.

Habituar-se à comida (a última refeição era servida às 17 horas), lembra, foi difícil. Era muito picante. “Ao sétimo dia [porque os efeitos não se sentem do dia para a noite] já tinha aceite tudo: a comida, os quartos um pouco sujos e básicos, o chão.”

Tomás explica que as meditações nos retiros vipassana pretendem deixar “ver a realidade tal como ela é”. Fala-se na lei da impermanência, que diz que tudo o que existe na vida não é eterno, porque tudo está sempre a mudar, a transformar-se. “A única coisa que não muda é o espírito. É como se fossemos o espectador a ver tudo à nossa volta a transformar-se”, explica. “Eles fazem-nos perceber essa verdade através do corpo. Através das sensações no corpo, porque primeiro sentimos num sítio, depois noutro. Está sempre a mudar. As meditações são focadas nisso. Estamos sentados e é como se fizéssemos um scan de nós próprios.”

Quando reduzimos o fluxo de estímulos exteriores — e quando essa redução é drástica — não temos outra hipótese senão olhar para aquilo que são os nossos medos e expectativas mais profundos”

Igor Chiu Soares, 33, natural de Ovar, fez o primeiro retiro em silêncio absoluto em 2015, em Espanha. Também seguiu a meditação vipassana, embora numa versão específica, ensinada por um professor budista birmanês chamado S.N. Goenka.

“Esta técnica de meditação tem como objetivo cultivar a mente para que ela funcione mais de acordo com a realidade e se torne menos vulnerável a projeções, pensamentos e emoções que muitas vezes surgem sem controlo e que, normalmente, geram mal estar e ansiedade”, diz Igor, que, em conjunto com a mulher, é fundador de uma agência de viagens, a Macro Viagens.

Na altura em que se isolou silenciosamente do mundo exterior estava a passar uma fase má. Não encontrava sentido para a vida. A existência era pesada, porque, ironicamente, a sentia vazia. “Todos os sítios onde tinha procurado a felicidade, na verdade, revelaram-se uma desilusão. Tivessem sido eles relações amorosas, emprego, relações de amizade, todo o tipo de distrações incluindo objetos que o dinheiro pudesse comprar — apesar de não ser particularmente abastado, aquilo que adquiria não me satisfazia.

A expectativa que colocava nas coisas saia sempre “defraudada” e “havia um profundo sentimento de falta de significado generalizado”. Apesar de a circunstância ser distinta da de Tomás de Mello Breyner, a lógica que os fez chegar a este sítio foi a mesma. “Então pensei: ‘Se não encontro o que procuro fora, vou tentar encontrar dentro’”, conta.

Igor Chiu Soares vai fazendo vários retiros. Não consegue quantificar, mas adianta que a cadência não é regular — é quando sente que precisa

Igor não teve problemas em manter-se em silêncio. Este não é, aliás, o maior desafio. É, sim, um meio para se atingir um fim. “No início a nossa mente é como uma pequena chama, em que, à mínima brisa, perde o equilíbrio. Portanto é necessário criar um ambiente que funciona como um invólucro que a proteja, enquanto ela se fortalece. É como quando adoecemos: devemos ficar resguardados para facilitar a cura”, explica, numa alusão ao silêncio.

O grande objetivo desta experiência — onde se eliminam todos os elementos que fomentam a alienação, incluindo aparelhos eletrónicos, livros, música e a própria voz — passa por focar a atenção no interior.

“Quando reduzimos o fluxo de estímulos exteriores — e quando essa redução é drástica — não temos outra hipótese senão olhar para aquilo que são os nossos medos e expectativas mais profundas”, refere Igor. “A atenção fica necessariamente voltada para o nosso fluxo mental e para as nossas emoções. Portanto é expectável que a dado momento haja uma experiência algo dolorosa. Essa experiência não é mais do que uma reação do nosso organismo a curar algo como um hábito”, acrescenta, dando como exemplo de quem está dependente do álcool ou tabaco.

Podiam fazer caminhadas na natureza, mas “o tempo era passado, na esmagadora maioria, em meditação.” Além disso, só havia espaço para “dormir, comer ou lavar roupa.” É também para manter longe as distrações que, regra geral, estes retiros não são mistos.

Não é preciso sair do país para se fazer um retiro de silêncio

Pureza Fleming, 37 anos, entrou no universo do ioga há 14. Nunca fez um retiro como o de Tomás ou de Igor, mas já passou por várias experiências detox, em que uma das regras era estar em silêncio durante quatro dias.

Não precisou de ir ao México, à Índia ou a Espanha. Estas experiências aconteceram em Portugal, sempre através dos retiros que o seu professor de ioga — do Centro Português do Yoga — organizava em Mafra, na Quatro Ventos, uma casa no meio do campo.

“São retiros com prática de ioga integrada”, diz à MAGG. São quatro dias, com duas sessões diárias — a primeira pelas seis da manhã —, complementadas com meditação. Antes mesmo da viagem, é preciso fazer uma preparação. A alimentação reduz-se a papas de arroz com maçã ou pera. “Temos de ir preparando o organismo para a limpeza.”

Também é possível falar através do olhar, dos sorrisos e aqui a ideia é mesmo não comunicar, não ter contado com as pessoas. Temos de estar só connosco. Só o professor é que pode falar.”

Este ioga não é para qualquer um. “São práticas puxadas, para turmas de avançados”, conta. “Estamos em silêncio, comemos pouco [tudo à base de arroz integral] e, no final, o que se sente — o que é estranhíssimo, porque achamos que vamos ficar muito fracos — é que estamos cheios de força, energia, com uma clareza de pensamento brutais.”

Não há telemóveis ou computadores, mas ao contrário do retiro que Tomás fez na Índia, aqui não é necessário entregar os bens a ninguém da organização. “Confia-se no bom senso”, explica Pureza. “No primeiro dia e no último era capaz de ligar ou mandar uma mensagem ao meu filho.”

Pureza Fleming também já fez retiros na Índia, mas que não eram de silêncio absoluto

A jornalista, natural de Lisboa, dava caminhadas pelo campo, lia, apanhava sol. Mais difícil do que estar em silêncio, era não poder olhar nos olhos das pessoas. “Também é possível falar através do olhar e dos sorrisos, e aqui a ideia é mesmo não comunicar, não ter contacto com as pessoas. Temos de estar só connosco. Só o professor é que pode falar.”

Quando volta à vida normal, depois destes retiros, Pureza sente-se descansada, mais lúcida, mais conectada consigo própria. “Uma coisa engraçada é que a cara relaxa. Acabo os retiros sempre com uma pele fantástica.”

A limpeza interior é figurativa e literal. Num dos dias, os alunos destes retiros não podem comer, sendo que só podem beber várias malgas de água quente com sal. Entre cada copo, fazem exercícios específicos para ativarem os órgãos do sistema digestivo. “De repente, começas a ir à casa de banho e limpas tudo, ao ponto de só te sair água.” Nesse dia vão descansar cedo, porque se sentem fracos. No dia a seguir, sentem-se “fantásticos.”

Sobre voltar a falar, Igor explica que fica com a “sensação de que habitualmente falamos demais.” Ou seja, “que grande parte das conversas que temos não acrescentam grande coisa ou são mesmo desnecessárias.” Soma a isto, a noção ainda mais clara da quantidade de estímulos que “diariamente” nos bombardeiam e que “em nada contribuem para a nossa sanidade — bem pelo contrário.”

Igor Chiu Soares chama a atenção para “técnicas de meditação testadas e com credibilidade”, uma vez que “hoje em dia há muita oferta cuja autenticidade é muito duvidosa.” O dono da agência de viagens sugere que ninguém se inscreva sem primeiro investigar quem organiza os retiros, tendo a certeza que as motivações “são completamente altruístas.” Aponta aqueles que são organizados por Paulo Borges (com quem Igor está a organizar uma peregrinação budista aos Himalaias) do Círculo-do-Entre-Ser e os de Tsering Paldron, do Centro Budista do Porto.

Deixa também a mesma dica de Tomás: “Devemos começar gradualmente. Um retiro de dez dias em total silêncio pode ser perturbador para algumas pessoas se não houver primeiro uma introdução.”

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