Acessórios de homem e mulher? Para Eduardo “a roupa não tem género”, mas a professora não concordou

A professora não foi flexível e ameaçou-o com uma falta disciplinar. "Vou bater-me por uma sociedade igualitária", diz o aluno do 11.º ano.

Eduardo Couto nas eleições para a Associação de Estudantes

Às 10h20 de quarta-feira, 6 de fevereiro, Eduardo Couto encontrava-se na aula de Inglês, disciplina do 11.º ano do curso profissional Técnico Comercial que frequenta, na Escola Secundária de Santa Maria da Feira. Era dia de a docente entregar um teste que os alunos tinham feito há cerca de duas semanas.

Um dos exercícios desta prova era referente a acessórios, que tinham de ser correspondidos a um género (masculino ou feminino), havendo também a possibilidade de pertencerem aos dois. A lista continha: mala de mão, gravata, boné, collants, colar, cachecol e cinto. Para todos os itens, Eduardo deu a mesma resposta: ambos. A professora discordou e marcou como errados os objetos gravata, boné e collants.

O acontecimento mereceu uma publicação no Facebook por parte do jovem de 16 anos. “A minha professora parou no ano 1743”, escreveu. “Da saga meninos vestem azul e meninas rosa: (fui ameaçado de falta disciplinar por contestar a correção)”.

A imagem foi republicada por centenas de pessoas, sobretudo depois de o jornalista e crítico de cinema Miguel Somsen ter dado conta do mesmo: “Pergunta-se a um aluno de inglês do 11.º ano quais dos seguintes acessórios são para homens e quais são para senhoras. O aluno diz que todos são para ambos. A professora contesta, alegando que gravata, boné e collants não são para ambos. O aluno contesta o critério de correção da professora. A professora retribui com a ameaça de falta disciplinar ao aluno. O aluno é Eduardo Couto, reconhecido como o mais novo delegado a discursar no palco de uma convenção do Bloco de Esquerda, em novembro passado.”

Na opinião de Eduardo Couto, natural de Fiães, praticamente toda a turma concordava com a ideia de que todos aqueles acessórios podiam ser usados por ambos os sexos. No entanto, a professora não considerou o tema pertinente, nem permitiu que houvesse um debate sobre o assunto.

“Questionei a professora e expus o meu ponto de vista. Apesar de ela não se demonstrar recetiva à minha opinião, tentei explicar com exemplos práticos”, conta à MAGG. “A professora manteve até ao fim a sua posição e visão do assunto, considerando que aqueles tipos de roupa não são de ambos os géneros. Após eu insistir, de forma educada, a professora disse que se eu continuasse a tentar explicar-me iria ter uma falta disciplinar. Ou seja, iria para a rua”, acrescenta. Sobre os argumentos utilizados pela professora, Eduardo adianta que esta não contra-argumentou. “Apenas disse que já estava corrigido e que aquela era a correção.”

Sinto que é triste quando no sistema de ensino — que devia ser livre e fazer-nos pensar fora dos moldes da sociedade — nos gostam de colocar em caixas, e, mais uma vez, associar o feminino e o masculino como algo que tem de estar intrinsecamente ligado ao sexo biológico.”

O jovem, o mais novo delegado na convenção do Bloco de Esquerda em 2018, relembra os argumentos que utilizou nesta espécie de debate unilateral com a professora. “Disse que era perfeitamente normal existirem mulheres com gravata e bonés ou então homens com collants, até porque os papéis de género não são mais do que construções impostas na sociedade”, relata. “Sinto que é triste quando o sistema de ensino, que devia ser livre e fazer-nos pensar fora dos moldes da sociedade, gosta de nos colocar em caixas, e, mais uma vez, associar o feminino e o masculino como algo que tem de estar intrinsecamente ligado ao sexo biológico.”

Eduardo discorda em absoluto da ideia de que há objetos limitados a um género. “Não acho que esteja correto. Podemos todos vestir-nos e expressar-nos como quisermos e a sociedade precisa de parar de impor regras que não fazem sentido nenhum.”

A voz de Eduardo não foi a única que se fez ouvir naquela turma — tanto que não foi o único a responder ao teste daquela forma. “Cerca de cinco ou seis alunos falaram, mas o bruto da turma concordou connosco”, diz. “A minha turma é bastante defensora da igualdade de género.”

Noutra disciplina, que envolve computadores, um professor com uma ideologia de extrema-direita afirmou que o lugar das mulheres era na cozinha, depois uma aluna questionar algo sobre o trabalho”

Para o jovem, é ponto assente: “A roupa não tem género”. Ver rapazes com roupas ditas de rapariga e vice-versa é uma não questão. “Acho que super normal um rapaz usar collants ou uma rapariga usar gravata. Aliás, hoje vou ter educação física e no mínimo dois alunos da minha turma vão usar collants.”

“Um professor com uma ideologia de extrema-direita afirmou que o lugar das mulheres era na cozinha”

A defesa a favor da queda de estereótipos começou mais cedo do que seria expectável, tendo em conta a sua idade. Mas bastou-lhe um olhar atento sobre a forma como a sociedade se estrutura. O despertar para estas questões deu-se quando era mais novo. “Descobri que a minha mãe recebia menos do que o pai para realizar exatamente a mesma função. A minha inocência não conseguia compreender o porquê de tal descriminação tão grave.”

Não foi a primeira vez que Eduardo confrontou um docente em aula. “Noutra disciplina, que envolve computadores, um professor com uma ideologia de extrema-direita afirmou que o lugar das mulheres era na cozinha, depois uma aluna questionar algo sobre o trabalho”, recorda. Não se lembra ao certo do que respondeu — vários alunos interferiram —, mas a ideia ficou-lhe na memória. “Sei que disse que todas as mulheres são tão ou mais capazes do que qualquer homem. Não é o género que nos torna aptos para exercer qualquer função.” Os alunos fizeram uma denuncia à direção da escola e aquele professor não voltou a lecionar naquela turma, conta.

Estas visões díspares são fruto de vários fatores. Na opinião do aluno, há que destacar a questão geracional — a professora de Inglês teria entre 50 a 60 anos —, que poderá contribuir para ideias diferentes. Ainda assim, ressalva Eduardo, conhece “bastantes adultos que concordam” com aquilo que defende. O estudante sente que a sua geração é mais inclusiva do que as anteriores, mas considera que há muito terreno para desbravar. “Ainda há muito que lutar.”

Sou e quero continuar a ser um cidadão ativo e interventivo. Vou bater-me por uma sociedade igualitária e mais justa. Estou na política para melhorar a sociedade portuguesa, não para ter uma carreira.”

O meio em que se está inserido também pode ter influência. “Em meios pequenos, as ideias tendem a ser mais conservadoras sim, tanto no âmbito político como social”, diz. “Eu mesmo notei essa diferença quando me mudei para a minha atual escola, que se localiza no centro do concelho. Sinto que é muito mais progressista, em questões de igualdade de género, racismo e homofobia — apesar de, infelizmente, este tipo de mentalidades não deixar de existir em cidades mais movimentadas.”

O próprio ensino, considera, por vezes não ajuda. “Tenta formatar-nos, sem nos fomentar a produzir pensamento. Mas depende muito do meio onde estamos inseridos.”

A resposta da direção da escola à polémica

Lucinda Ferreira, diretora da escola, diz que a direção não tem conhecimento da situação. Mas admite que, “sendo verdade”, o assunto deveria ter “proporcionado um bom momento de debate”, destacando que é fundamental conversar com os alunos “sempre que surge um assunto diferente, porque é aí que os miúdos mais aprendem”, obrigando-os a “pensar e a ter espírito crítico.” É, ressalva, “esse o papel da escola.”

A diretora da escola garante que a escola que dirige há 30 anos é inclusiva, e que só “interfere em comportamentos” que em nada se relacionam com o sexo ou género. Ainda assim, diz que são milhares de alunos e centenas de professores, tornando-se portanto impossível controlar tudo o que se passa em aula. Mas, ressalva, está totalmente disponível para ouvir os professores, os alunos ou os pais.

Lucinda Ferreira assume ainda que as discrepâncias geracionais poderão dificultar este tipo de debate na escola, sublinhando que “os mais velhos têm de estar sistematicamente abertos a mudar de pensamento”, porque estão sempre a lidar com as gerações mais novas.

Eduardo Couto quer lutar por um mundo mais justo

Eduardo Couto é aderente do Bloco de Esquerda desde os 14 anos. Foi o mais jovem delegado na convenção do partido, apenas com 15 anos. Está eleito na Comissão Coordenadora Concelhia de Santa Maria Maria da Feira e na Comissão Coordenadora Distrital de Aveiro.

“O que me levou a envolver no universo político foi quando, no governo PSD/CDS-PP, verifiquei que havia bastantes coisas que estavam — e algumas ainda estão — mal na sociedade. Desde o racismo, machismo, homofobia à falta de investimento público e distribuição da riqueza”, diz.

Em 2018 foi eleito para uma sessão nacional do parlamento de jovens, cujo tema era a igualdade de género. “Senti que o melhor que podia fazer era lutar por um mundo mais justo, onde ninguém é julgado pelo seu género, onde não há exploração nem assédio no trabalho, onde não haja homofobia, racismo ou qualquer tipo de preconceito.”

Ainda sem certezas quanto ao futuro profissional, Eduardo acredita que mais importante do que as responsabilidades políticas são as ações do dia a dia, como cidadão, como pessoa. “Penso que o mais importante é o meu ativismo enquanto humano, e não as responsabilidades que tenho ou deixo de ter perante o partido”, diz. “Sou e quero continuar a ser um cidadão ativo e interventivo. Vou bater-me por uma sociedade igualitária e mais justa. Estou na política para melhorar a sociedade portuguesa, não para ter uma carreira.”

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