“Uniraid: um raid onde ganhar é o menos importante.” Foi esta frase que despertou a curiosidade de João Costa, quando leu a citação na página de notícias da Universidade do Porto. Abrindo o link, o interesse surgiu automaticamente, e não tardou a que se inscrevesse com o irmão, Márcio, nesta aventura — o Uniraid.

João, 22, estuda Engenharia Eletrotécnica e de Computadores na FEUP e Márcio, 19, é estudante de Mecânica. Apesar de os dois irmãos, naturais de Oliveira de Azeméis, se dedicarem a áreas completamente diferentes no dia a dia, a ideia de partir nesta aventura não causou dúvidas.

Márcio e João Costa

O Uniraid é um rali, não de velocidade, mas de aventura e solidariedade. Durante nove dias, cerca de 100 equipas de várias partes do mundo, todos estudantes, vão viajar num carro restaurado (por cada equipa) e entregar, no mínimo, 40 quilos de material solidário pelas escolas e crianças, espalhadas pelas aldeias desertas de Marrocos. A 8.ª edição realiza-se de 23 de fevereiro a 3 de março, e João e Márcio vão estar lá com um Peugeot que pertencia ao avô.

No rali, pensado para estudantes entre os 18 e os 28 anos, os participantes terão de completar sete etapas, cruzando Marrocos de norte a sul. Existe ainda uma classe secundária aberto a toda a gente que queira ajudar e participar na aventura. João Costa explica que os valores do Uniraid passam por ser “trabalhar em equipa, gerir recursos e superar as adversidades, de maneira a conseguir superar os objetivos.”

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No regulamento do raid é dito aos participantes que, para a preparação desta aventura, é preciso que as equipas consigam patrocínios, o seu principal financiamento, e que recuperem um carro que tenha, no mínimo, 20 anos.

Nesta aventura, João e Márcio vão levar o carro do avô

Tem de ter no mínimo 20 anos, um máximo de 1.300 de cilindrada e não pode ter tração às quatro rodas. São estes os critérios que fazem parte do regulamento do Uniraid. “Tem de ser um carro simples e que possa ser arranjado facilmente”, explica João à MAGG. A escolha recaiu sobre o Peugeot do avô, de 1988.

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“Foi comprado há 30 anos [30 de dezembro de 1988], entretanto foi vendido entre pessoas da nossa família e acabou num terreno de um tio nosso, onde estava enterrado há nove anos”, diz Márcio. Os dois foram buscar o Peugeot em dezembro do ano passado e, desde então, dedicam-se à sua reconstrução.

Material obrigatório no Uniraid

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Os participantes têm de levar também um extintor, um mapa, tendas, e uma prancha de areia, caso seja preciso desenterrar o carro da areia.

O objetivo dos dois irmãos é não precisar de usar dinheiro próprio nesta aventura. João conta que os pneus foram oferecidos (Fedima e SdanPneus), tal como as tintas (A&F — Comércio de Tintas e Drogaria LDA), a pintura do carro (João Carlos Almeida Oliveira) e o material obrigatório a levar (vários). Quanto ao material solidário, tem sido disponibilizado por várias pessoas que querem ajudar.

Inicialmente não tiveram o apoio de ninguém. Eram acusados de serem “tolos” e toda a gente lhes dizia que o carro não ia pegar. Mas isso só deu mais vontade aos dois irmãos de mostrarem do que eram capazes.

“Fazemos parte de uma geração em que somos conhecidos por preferir o mundo virtual ao mundo real, por estarmos sempre na nossa zona de conforto”, diz João. “Portanto, quando dizes a alguém que vais fazer uma coisa deste género, ninguém acredita.” E isso só os fez ter mais motivação: participar no Uniraid foi “mostrar que somos uma geração que sabe, que tem valores e que consegue ultrapassar adversidades.”

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Apesar de no início ter sido complicado arranjar patrocínios, os irmãos explicam que, depois de terem organizado o dossier de patrocínio, fornecido e explicado pela organização do Uniraid, tudo ficou mais fácil. Com a página de Facebook e Instagram e com o merchandising próprio (camisolas e T-shirts) os dois começaram a ver facilitada a missão de arranjar patrocínios a tempo de partir nesta aventura.

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A duas semanas da viagem, os irmãos dizem que, para já, não têm muitos medos. Confiam na organização, que está encarregada de assegurar a estadia, alimentação e até a polícia marroquina está avisada e tem os dados dos carros e dos participantes. Chegar a Marrocos não assusta João nem Márcio, embora o irmão mais velho confesse que “quando chegar a altura, o estômago vai começar a apertar.”

Toda a gente pode contribuir — e ajudar os irmãos a ajudar

O facto de ser um rali solidário faz com que os irmãos se sintam motivados a conhecer o mundo e a descobrir como vivem outras pessoas — neste caso específico, as crianças marroquinas. “Queremos ver o que se passa no mundo, para aprendermos a dar valor às outras coisas.”

Os irmãos dizem ainda que são apenas “uma plataforma para as pessoas ajudarem”, pois, apesar de investirem “tempo e trabalho”, são as pessoas que doam os materiais. O objetivo “é incentivar” quem os segue, e ajuda, “a ajudar também.”

Assim, todos podem contribuir, adquirindo o merchandising disponível nas páginas dos dois irmãos, doando roupa, brinquedos e materiais escolares, bem como monetariamente.

Se quiser acompanhar a aventura dos dois irmãos, a aplicação Frotasoft, criada pela Novatronica CV (empresa de gestão de frotas e tracking de carros e motas, patrocinador principal de João e Márcio), vai permitir seguir os irmãos em tempo real, através de um GPS que os dois participantes vão levar consigo.