Ainda se lembra de sair de casa para brincar com os seus amigos e só voltar quando o sol se punha? Apesar de não ter passado propriamente um século desde que era criança, a verdade é que o paradigma do que eram os relacionamentos entre os miúdos está muito diferente.

Há 20 anos jogava-se à apanhada no jardim do bairro, hoje as crianças só se juntam para jogar “Fornite” — online. Costumávamos chegar a casa e contar aos nossos pais com que amigos brincámos à hora de almoço, hoje vemos os nossos filhos a contar os gostos na mais recente publicação no Instagram.

Podíamos ficar aqui horas a dar mais exemplos, mas a verdade é só uma: o mundo mudou. E, com ele, também a maneira como os mais pequenos interagem com terceiros. Hoje em dia, as crianças isolam-se diante a um ecrã de computador ou de telemóvel, e a sua capacidade de interagir com outras crianças que não conhecem é cada vez mais diminuta.

Poderíamos até ir mais longe e dizer que, em comparação com gerações anteriores, os nossos filhos são crianças mais introvertidas, tímidas, fechadas — quiçá até totós. Mas como é que isto aconteceu?

“De certa forma, é verdade que, hoje em dia, as crianças são mais fechadas. Mas tudo isto depende do tipo de pais, que não são todos iguais”, afirma à MAGG Sílvia Botelho, psicóloga na Academia da Psicologia. A especialista, que realça também que a “evolução da tecnologia” é um fator para esta situação, alerta que as crianças “aprendem por modelagem” e a “grande influência são, quase sempre, os pais”.

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Durante a infância, as crianças seguem muito o exemplo dos pais: se crescem numa casa com muitas discussões, é provável que sejam miúdos mais conflituosos na escola; se estão habituados a ver os pais a dialogarem durante a refeição e nunca existe uma televisão ligada nestes momentos, talvez sejam crianças que não precisem desse estímulo para comer.

E passa-se o mesmo em relação à interação que os seus filhos vão ter no futuro com outras crianças. “Os pais têm de aprender uma regra, que para mim é numero um: não é o que dizemos que é importante, é o que fazemos”, afirma Sílvia Botelho, que explica que, antes de questionarem as atitudes dos filhos, os adultos devem olhar primeiro para os seus próprios hábitos.

A psicóloga Sílvia Botelho acredita que, atualmente, existe uma tendência de hiperproteção da parte dos pais

“Se os próprios adultos são os primeiros a chegar a casa e a irem para o computador, para as redes sociais, se a seguir ao jantar pegam logo no telemóvel para fazer scroll no Instagram e só falam com os amigos através de aplicações, os filhos vão seguir esse exemplo”, alerta a especialista. Além disso, reforça, se os pais não dão primazia ao contacto físico e à convivência com os amigos, os filhos, “por norma, também não vão ter essas rotinas”.

Sílvia Botelho explica que, para que as crianças sejam mais extrovertidas e se libertem mais de atividades solitárias, os pais devem mostrar-lhes que são pessoas que também têm atividades diferentes. “Caso os adultos convivam bastante com os amigos, os convidem para atividades em casa, ao ar livre, é esse o exemplo que os filhos vão ter. De seguida, os pais podem promover encontros com amigos com crianças, e estimular momentos de convívio entre os mais pequenos, seja com jogos de tabuleiro, ir ao parque, etc.”, salienta Sílvia Botelho.

No entanto, a psicóloga explica que estes momentos de convivência com outros miúdos, atividades ao ar livre ou em grupo, devem ser alternadas com a tecnologia. “É claro que estas atividades no exterior ou na companhia de outras crianças têm muitas vantagens e proporcionam momentos de alegria, mas não nos podemos esquecer que a tecnologia vai fazer sempre parte desta geração, quase que já nasceram com isto”, diz. As tecnologias não devem ser completamente proibidas, mas sim bem balanceadas com outras atividades.

“Há coisas que os pais nunca vão conseguir controlar”

Atualmente, existe uma grande tendência para os pais serem hiperprotetores. Quem o diz é Sílvia Botelho, que acredita que tal tem a ver com a evolução natural da televisão e dos meios de comunicação social, que divulgam informação constantemente.

“Há 25 anos atrás, víamos notícias uma vez por dia, às 20 horas. Hoje, há informação a toda a hora, com notícias de raptos, violações, crimes, muita criminalidade, etc.. Esses casos são exceções mas as pessoas generalizam e tornam-se ainda mais protetoras”, afirma a especialista.

Para a psicóloga, muitos pais querem controlar o incontrolável: “Nunca vamos conseguir seguir todos os movimentos dos nossos filhos, há coisas que os pais nunca vão conseguir controlar. Eles são pessoas, são seres humanos, e temos de confiar nas ferramentas que lhes damos e naquilo que lhes passamos”.

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Se quer que os seus filhos sejam miúdos mais abertos a novas experiências, sejam elas brincar no parque com as crianças do bairro ou ter a iniciativa de preferir dar uma volta de bicicleta a jogar consola, o truque é falar com eles.

“Tem de existir um momento de diálogo, sem julgamentos. Os pais devem refletir sobre as situações do dia a dia com os miúdos, puxar por eles e estimulá-los a refletir sobre as vantagens de atividades que saiam da sua zona de conforto”, salienta Sílvia Botelho.

A psicóloga alerta que, no início, e para crianças mais habituadas a isolarem-se, estes novos hábitos “custam a entranhar, eles estão muito habituados a estar ao computador ou agarrados à televisão”. No entanto, e mesmo que os pais encontrem alguma resistência inicial por parte dos filhos, devem insistir, sem ser castradores.

“Mesmo que a primeira reação seja negativa, que eles digam coisas como ‘isso é uma seca’, os pais devem explicar as vantagens de determinadas atividades e desafiá-los a experimentarem coisas novas antes de as descartarem”, conclui Sílvia Botelho.