Lisboa, sexta-feira, fim da tarde, ponte 25 de Abril. Um fim de semana que se queria de sonho, começou com um hora e meia de trânsito até conseguir ver pela primeira vez alguma indicação a dizer Alentejo. Mas ela lá chegou, assim como a de Grândola, Odemira, S. Teotónio e, finalmente, Craveiral.

Duzentos e vinte e dois quilómetros depois cheguei a um céu que, de tão estrelado, quase que nem justifica a mini lanterna que nos dão para a mão assim que chegamos a este que já foi em tempos um campo de cravos.

João Canilho, Pedro Franca Pinto e Luís Capinha, os fundadores do Craveiral

Ana Paula Carvalho

Ainda sem pousar as malas, chamam-me para jantar, até porque — que me perdoe a Marie Kondo — há coisas mais importantes do que arrumar a roupa nas gavetas.

O edifício onde se faz o check-in serve de receção, de sala de estar e também de jantar, assim que ao vinho alentejano que servem de boas-vindas se juntam pratos de ervilhas com ovos escalfados, carapauzinhos com açorda, porco preto e bacalhau com broa.

A ideia do farm-to-table desta cozinha é ainda um exclusivo dos hóspedes, que para já servem até de cobaias aos pratos que passam brevemente a ser servidos a todos os que queiram fazer um desvio até este turismo de natureza.

A chef Maria João Leite sai da cozinha e, ainda a medo, pergunta se estava tudo bom. Respira de alívio quando nos apanha a rapar a taça até àquele momento constrangedor em que a colher faz barulho no prato. Desta vez peço perdão aos reis da etiqueta à mesa — Paula Bobone ainda mexe? — mas estamos a falar de uma mousse de queijo, abóbora e caramelo, ok?

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Com o trânsito já a parecer história de outro século, chega-nos o aconchego final em forma de duas garrafas, uma de melosa (mistura de medronho com mel) e outra de medronho puro. “Começámos no doce e acabámos no amargo”, explicam-nos, enquanto nos enchem dois mini copo. “Como tudo na vida”, há quem suspire. Mas não no Craveiral onde, em três dias, tudo soube a mel.

Uma aposta no nacional e no sustentável

Tendo ainda bem presente a viagem que fiz a Bali em novembro pensei que, a partir dali, só na Ásia ia conseguir voltar àquela sensação de que tudo corre bem se deixarmos as coisas fluir.

No Alentejo não há balineses a acreditar no karma, a agradecer aos deuses e a viver debaixo de 30 graus que parecem 40 por causa da humidade. Mas temos uns bons 22 graus em pleno janeiro e três pessoas com as quais basta falar apenas 30 minutos para ver descer os níveis de stresse até aos mínimos budistas.

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Pedro Franca Pinto é advogado, Luís Capinha é designer gráfico e João Canilho trabalha na área das telecomunicações. Mas a partir do momento em que põem os pés no Craveiral, despem as gravatas e as formalidades e vestem o papel de três amigos que, tão simplesmente, gostam de receber.

Pedro é uma espécie de cabecilha do grupo, porque foi dele que partiu a ideia de fazer algo mais com aqueles nove hectares de vazio. E, na verdade, João e Luís juntaram-se numa noite que tinha tudo para correr mal.

Na descontração de mais um copo de vinho à volta de uma mesa cheia, Pedro conta que Luís e João chegaram-lhe enquanto clientes do seu escritório de advogados e daí a coisa avançou para uma amizade. Ali por volta de 2016 marcaram um jantar a quatro no Loco, mas como a plus one de Pedro cancelou, foram os três chorar as mágoas ao Alma, uns com o coração partido, outros fartos de dramas burocráticos com a exploração imobiliária que já faziam em Lisboa. É que Luís e João gerem a Casa Amora, uma guesthouse perto das Amoreiras, onde já estavam habituados a juntar o bom gosto à hospitalidade.

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“Então e se vocês se juntassem a mim?”, desafiou Pedro, que não queria ir para casa sem uma boa notícia naquele dia. “E nós dissemos que sim”, conta Luís, entusiasmado de poder pôr em prática toda a sua experiência com decoração e a escolha minuciosa de materiais.

Os três concordaram que, sempre que possível, tudo nas 38 casas do Craveiral teria que ser de origem portuguesa. As peças de mobiliário são da DAM, de São João da Madeira ou da Wewood, com sede no Porto. Até os eletrodomésticos são Meireles, que se orgulha de ter sido a primeira marca portuguesa a fabricar um fogão elétrico. E lá está ele, em cima de um forno com dimensões de fazer inveja a muitas cozinhas profissionais.

Todas as casas, que podem ir de estúdios a T2, estão equipadas com cozinha ou kitchenette e uma sala onde a televisão está estrategicamente camuflada com uma manta alentejana até porque não há Netflix que equipare os programas que se podem ver — e fazer — por aqui.

Há uma piscina exterior e uma interior onde, além de jacuzzi, sauna e banho turco, há também uma lareira. Sim, é verdade, uma lareira na piscina. Também há um ginásio, bicicletas para serem usadas pelos hóspedes, um cavalo chamado Quinoa para dar uns passeios e muitos animais a pedir umas festas. A cabra chama-se Canela, os burros são o Cravo, a Ferradura e o Cravinho, os porcos são a Melosa e o Medronho, o galo chama-se Rosmaninho e os gatos que por lá se passeiam são a Pimenta e a Malagueta.

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Não podemos esquecer que o Craveiral é um projeto de conservação da natureza e é por isso que, além de animais, também por cá há plantas que se sentem em casa. A horta já vai dando sinais de vida e estão agora à espera que cresçam os três mil pés de medronhos plantados pela propriedade.

A sustentabilidade era ponto assente desde o início, mesmo antes de Pedro ver essa palavra ser usada como bandeira por muitos. O papel higiénico e guardanapos são de papel reciclado, os cotonetes de bambu e por aqui não há daqueles frasquinhos que todos os hóspedes adoram levar de recuerdo. Há apenas um frasco de champô, um de gel de banho e um de creme hidratante. No futuro, vão até ser trocados por champô e sabonetes sólidos, sem embalagem, criados pela Uniibio em exclusivo para o Craveiral.

A descontração do bem receber

Sabem aquele apaparicar constante, de quem não quer que falte nada e que tudo corra bem. Pois bem, isso não acontece no Craveiral, mas o mais impressionantes é que não faltou realmente nada e correu tudo bem.

À noite há o silêncio que se pede para descansar e de dia são muitas as atividades para aproveitar o tempo que no Alentejo parece que se prolonga além das 24 horas.

Com sorte ainda apanha um dia de forno aceso aprende a fazer pizzas e pão quente com Jessy Valor, um francês apaixonado pelo Alentejo e que no Craveiral é pau para toda a obra. Ajuda com os cavalos, faz o pão de forma artesanal, já domina a técnica das pizzas em forno de lenha e, quando os grupos são grandes, ainda dá uma mão a Maria João, também ela a justificar aquilo que dizemos sobre o Craveiral fluir de forma orgânica e, no final, tudo corre bem.

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Trabalhava como designer com o Capinha que, assim que o Craveiral ficou pronto, a convidou a passar uns dias por lá. “Vim e, claro, apaixonei-me por este sitio”, conta. Principalmente pela cozinha. “Eu sempre gostei de cozinhar e pedi ao Capinha para me deixar experimentar cozinhar aqui”. O que não estava à espera é que Capinha não só dissesse que sim imediatamente, mas que a desafiasse a preparar a refeição para o grupo de dez pessoas que iam receber para jantar.

Acabou por correr bem e, durante uns meses, Maria João ainda vinha todas as sextas-feiras de Lisboa para passar o fim de semana a cozinhar no Craveiral. Em dezembro, despediu-se e agora está a tempo inteiro a servir aquilo que a imaginação e a horta lhe fazem chegar. Sorte a nossa que o tempo é das abóboras e o caramelo, tal como a criatividade desta chef não tem hora marcada. Já falamos aqui da mousse de abóbora e caramelo, não já?

*A MAGG esteva alojada a convite do Craveiral