Chegar até Daniel, 36 anos, um hacker não ético (ou “black hat hacker”, termo que detesta e que defende ser mal compreendido), foi mais fácil do que o previsto. Foi preciso conhecer as pessoas certas e, também, o meio por onde se movimentam. Mas Daniel — que apesar de conhecer Portugal, e ter um nome português, é natural da Califórnia, nos Estados Unidos —, era tudo menos a figura obscura e inatingível que se fazia adivinhar.

É que apesar das várias ilegalidades que cometeu ao longo da sua vida, deu a cara desde o primeiro instante e pediu que não usássemos um nome falso. Ao contrário de outros, que fazem aquilo que ele faz, Daniel prefere “esconder-se à vista de todos”.

“Irritam-me aquelas pessoas que trabalham nesta área e que pretendem ser anónimas mas que, ao mesmo tempo, vão deixando migalhas de informação espalhadas pela internet.”

A área é a da segurança informática e do hacking, por que se apaixonou quando, com os amigos, começou a fazer uso dos conhecimentos que tinha para causar “estragos”. Que tipo de “estragos”? Fazer encomendas no eBay com dinheiro que não lhe pertencia ou encher o histórico do pai com vários sites de pornografia. Daniel fez de tudo um pouco, mas tudo mudou quando, aos 23 anos, foi pai pela primeira vez.

A partir desse momento, Daniel dedicou parte do seu tempo a perseguir, investigar, denunciar e desmantelar redes de pedofilia e de tráfico humano que operavam na Califórnia. Não foi inspirado em “Mr. Robot” — até porque na altura a série não existia —, mas antes num desejo de fazer as pazes com o passado.

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Segundo revelou à MAGG, continua, foi uma espécie de catarse. O que começou como um ato de vingança, hoje é um trabalho remunerado que assume com naturalidade e ao qual se dedica para fazer o bem através dos seus conhecimentos — a julgar pelas várias equipas que tem espalhadas pelo mundo, e que monitoriza diariamente.

A sua última vítima de hacking fui eu. Daniel vasculhou toda a minha vida e tentou traçar o meu perfil sem nunca me ter conhecido. O objetivo? Segundo explicou, estimular uma reação, tentar perceber que previsões tinha acertado para, mais tarde, poder usar tudo comigo.

Grande parte da minha vida foi dedicada a fazer o mal e tudo começou desde muito cedo. Tinha cerca de 16 anos quando, em conjunto com uma amiga da minha irmã, usámos os conhecimentos que tínhamos para ganhar controlo do movimento do rato das pessoas que decidimos atacar

Como começou o interesse pela tecnologia e informática em geral?
Como em qualquer outra coisa na vida, através de hábitos naturais e de muita curiosidade. Tinha um paixão natural pela AOL, a provedora de internet mais reconhecida nos Estados Unidos em meados dos anos 90. Adorava os sons de marcação de chamada ou a célebre notificação “you’ve got mail”. Era o equivalente ao som de uma mensagem de texto que hoje deixa toda a gente excitada assim que se levantam da cama.

E como é que se tornou num hacker não ético ou num “black hat hacker”?
Não me tornei num black hat hacker. Esse termo é muito utilizado, pouco compreendido e demasiado glorificado. Enquanto para uns significa usar conhecimentos técnicos e habilidades específicas com uma intenção claramente maliciosa, para outros é diferente.

Há quem use os conhecimentos que tem para ser uma espécie de Robin Hood e fazer coisas boas, mesmo que para isso não olhe a meios para atingir os fins — o que, por vezes, implica tirar partido da confiança que lhes é depositada.

“Grande parte da minha vida foi dedicada a fazer o mal”

E em que categoria é que se inseria?
Grande parte da minha vida foi dedicada a fazer o mal e tudo começou desde muito cedo. Tinha cerca de 16 anos quando, em conjunto com uma amiga da minha irmã, usámos os conhecimentos que tínhamos para ganhar controlo do movimento do rato das pessoas que decidíamos atacar, falsificar contas de utilizador da AOL, comprar coisas no eBay com fundos que não nos pertenciam e até adicionar pornografia ao histórico do traste do meu pai.

Lembrei-me de todas as vezes em que fui humilhado e maltratado por vários membros da minha família e achei que a única maneira de me reconciliar com tudo o que me tinha acontecido passava por fazer alguma coisa em relação a isso

Daniel sofre de bipolaridade e esquizofrenia e passou por muito na sua adolescência — da qual guarda vários traumas

Daniel

É que, na altura, o tema da segurança informática não era sequer popular e toda a gente achava que podia confiar nos outros. Por isso encontrávamos uma maneira de criar um bocadinho de confusão e de caos em troca da inconveniência de uma ou mais pessoas.

Então roubava informação bancária?
Não necessariamente. O que fazíamos era “pedir emprestada” informação pessoal que ficaria na nossa posse durante apenas uns dias. Depois disso, fazíamos várias encomendas no eBay e endereçávamos os artigos às casas dos nossos vizinhos até que, passados poucos dias, pedíamos um reembolso e fechávamos a conta. Eram várias as vezes em que o detentor do cartão de crédito não fazia ideia de que a sua conta estava a ser movimentada para comprar e enviar produtos do eBay para casa de outras pessoas. Maldoso, eu sei.

Assim que fiz 18 anos, desisti de fazer isto e alistei-me na tropa. Pouco tempo depois decidi aventurar-me noutro tipo de atividade criminal que acabou por me relançar na área.

O que mudou?
Desta vez não tinha nada a ver com dinheiro. Aos 23 anos fui pai pela primeira vez, e foi como se algo tivesse despertado dentro de mim que me mudou por completo.

O que fui incapaz de perceber foi a forma como estava a colocar em risco as pessoas que estavam à minha volta

Lembrei-me de todas as vezes em que fui humilhado e maltratado por vários membros da minha família, e achei que a única maneira de me reconciliar com tudo o que me tinha acontecido passava por fazer alguma coisa em relação a isso.

O que é Síndrome de Super-Homem?

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As pessoas afetadas por este distúrbio têm, geralmente, dificuldade em recusar aquilo que lhes é pedido. Assumem a responsabilidade de resolver um, ou vários problemas (muitas vezes ao mesmo tempo) a custo da sua saúde física e mental.

Na mente de uma pessoa que sofra deste síndrome, não há limites ao que pode ser conquistado e torna-se numa espécie de obsessão a que têm de corresponder.

Durante um tempo, investiguei, persegui e denunciei pedófilos que estivessem ou não registados na base de dados do estado de Califórnia. A minha psicóloga desconfiava que sofria de Síndrome de Super-Homem, na medida em que, na minha mente, não havia limites àquilo que eu achava que podia fazer.

Não demorou muito até começar a causar problemas à rede de tráfico humano que operava no centro da cidade. O problema é que eu não percebia os riscos que estava a correr.

E alguma vez esteve verdadeiramente em risco?
Sim, cheguei mesmo a correr perigo de vida. Mas preferia não dizer quando ou em que situações.

Mas não entendia a noção de perigo?
Era-me indiferente, até porque as coisas que tinha feito na tropa tinham sido muito mais perigosas. Isto era como comer uma fatia de bolo com uma venda nos olhos. O que fui incapaz de perceber foi a forma como estava a colocar em risco as pessoas que estavam à minha volta.

Curiosamente, agora sou pago para isso. Quem diria?

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Mas porquê?
É um estilo de vida que assumo para mim mesmo e onde sempre tive as melhores intenções. Além disso, mantém-me são e funciona como uma espécie de terapia. É que quando era miúdo não tinha ninguém que me ensinasse o que era certo e o que era errado, por isso tive sempre de seguir os meus instintos.

Faço isto há cerca de 15 anos e não sei mesmo fazer outra coisa. Além disso, é o que me permite pagar as contas.

No que toca aos perfis das redes sociais, nunca os roubamos. O que podemos fazer, se assim o cliente o pedir e isso estiver incluído no contrato, é copiar toda a informação

Em que é que consiste o seu dia a dia?
Fundei uma empresa em dezembro de 2016 mas só no ano passado é que decidi apostar tudo nela. Em horário de expediente faço a gestão dos programas de segurança dos nossos clientes.

Depois disso faço uma sesta, medito com a aplicação Headspace, tomo uma refeição, consumo Modafili [um psicotrópico para a regulação do sono] e disponibilizo-me até de madrugada para a minha equipa espalhada pela Índia, Canadá, Washington, Florida e Pensilvânia.

Que tipo de sistemas já invadiu?
Vários. Depende sempre dos pedidos dos nossos clientes, dos objetivos e de tudo o que esse processo pode envolver. Mas quando falamos em sistemas, é importante que se pense neles como um conjunto de vários elementos que podem ser segmentados em pessoas, perfis sociais, protocolos e limites legais, empresas, credo religioso e hábitos de navegação online.

No que toca aos perfis das redes sociais, nunca os roubamos. O que podemos fazer, se assim o cliente o pedir e isso estiver incluído no contrato, é copiar toda a informação.

A minha vítima mais recente foi você. Mas não se preocupe: além de ter sido com o seu consentimento, não invadi a sua privacidade nem transgredi qualquer lei

Alguma vez fez uso dos seus conhecimentos para espiar alguém da sua família ou do seu grupo de amigos?
Não, isso seria doentio.

Alguma vez foi acusado e condenado por um crime? 
Sim.

O que aconteceu?
Próxima pergunta.

O último hack, as maneiras mais fáceis de aceder a informação e de que forma é utilizada

Quais são as formas mais simples de aceder a informação privada?
Através da engenharia social e do conhecimento de informação, disponibilizada publicamente, para abusar de um canal de comunicação de confiança entre a pessoa e a empresa alvo que desejamos atacar.

A minha vítima mais recente foi você. Mas não se preocupe: além de ter sido com o seu consentimento [seguimo-nos mutuamente no Instagram], não invadi a sua privacidade nem transgredi qualquer lei.

E o que é que descobriu?
Somos parecidos e temos interesses em comum. O Fábio procura um olhar simétrico nas suas fotografias, adora gatos porque eles refletem uma parte de si que preza muito na sua identidade. E isso, meu amigo, é a ideia de liberdade. Dê-me só um momento, tenho um jovem prodígio que precisa de ajuda em validar um hack antes de o reportar…

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[Depois de uma breve pausa, em que a conversa deu lugar ao ruído estático e desconcertante na ligação entre Lisboa e Califórnia, Daniel regressa apesar de continuar a monitorizar as equipas que tem espalhadas pelo mundo]

O miúdo não é capaz, não tem o que é preciso para singrar nesta área. Mas é muito aplicado e admiro a sua persistência. Onde é que íamos?

Na parte em que traçava o meu perfil e vasculhava a minha vida.
Ah, sim. Às vezes perde-se na ideia de saber como é viver, ainda que de forma temporária, uma vida através das palavras dos outros. É como se se relacionasse com certas personagens ou figuras porque, também elas, refletem uma parte de si. A ideia de entrar na mente das pessoas que fazem coisas que o Fábio só pensa em fazer, mas nunca age sobre esse impulso, é a sua fuga temporária. É um pouco como ver um filme através dos olhos de outras pessoas, porque elas relembram-lhe personagens que admira.

Tudo começa por tentar perceber aquilo que o torna mais vulnerável. Pode ser o seu ego, o seu gosto por animais (neste caso, gatos) ou pela fotografia, ou até mesmo a sua namorada

A certa altura, num qualquer momento crítico do seu curso na faculdade, convenceu-se de que trabalhar na área do jornalismo era importante e chegou mesmo a ter uma crise de identidade subtil. O Fábio é inteligente mas a sua falta de confiança levou-o a viver uma vida ordinária e mundana, tal como 80% do resto da população. Desistiu. Que se foda o que as pessoas pensam. Não há problema em olhar de frente para a vida e arriscar — se não o fizer agora, vai arrepender-se mais tarde.

Seja mais como o seu irmão. Talvez não seja verdade, mas é possível que haja uma tensão entre vocês os dois. O que aconteceu? E porque deixou o seu trabalho anterior? Sentiu que não era importante o suficiente? Compreendo. O seu trabalho é também a sua identidade e provavelmente fartou-se de responder às pessoas a quem tinha de reportar, e de sentir que o que fazia antes não tinha valor.

Aposto que chegar à MAGG foi como uma espécie de presente de aniversário ou uma medalha. Ouça mais Metallica e acabe o dia com Drake, sem parar, enquanto faz uma pizza do zero. Cozinhar a partir do zero é terapêutico. Adoro. Por falar nisso, alguma vez comeu n’A Tasca do Chico? As mulheres vestidas de preto continuam a cantar fado aí? Tenho muitas saudades do fado e das vossas sopas.

O hacker passou grande parte da sua vida a denunciar e desmantelar redes de pedofilia na Califórnia

Daniel

Sim…
O mais certo é o trânsito continuar um caos a esta altura do dia. O seu local de trabalho fica a quê, 45 minutos de distância de sua casa? Algures ao pé de [rua muito perto de minha casa, que Daniel também conseguiu descobrir]?

Isto não é uma consulta de tarot. Não lhe vou dizer se acertou em alguma coisa ou não.
Todas as suposições que fiz, com base em informação pública e rastos que foi deixando um pouco por toda a internet, tiveram como objetivo despoletar uma reação da sua parte. Fiz um perfil seu e é o procedimento normal durante as nossas abordagens a possíveis alvos.

E como é que toda essa informação é usada?
Tudo começa por tentar perceber aquilo que o torna mais vulnerável. Pode ser o seu ego, o seu gosto por animais (neste caso, gatos) ou pela fotografia, ou até mesmo a sua namorada. Depois disso, é uma questão de explorar todo o seu perfil até chegarmos ao objetivo principal.

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O alvo do ataque pode ser o sítio onde trabalha, a universidade que frequentou ou a empresa dos seus amigos mais próximos. Se isso não resultar, passamos ao seguinte passo.

Que é?
O uso da engenharia social [que dita que o elemento mais vulnerável de qualquer sistema de segurança é o ser humano] para tirar partido dos seus interesses pessoais para lhe roubar informação. No pior dos casos, exploramos um canal de comunicação da sua confiança para despoletar respostas e reações emocionais.

Sempre que alguém tiver um dispositivo ligado à internet, não tenha dúvidas de que estão a ser deixadas migalhas de informação espalhadas pelos vários cantos do mundo. O pior é que estão disponíveis para qualquer pessoa com o mínimo de conhecimentos ver

Geralmente, alvos com algum reconhecimento são comprometidos através do elo mais fraco nas suas relações interpessoais, através de pessoas que lhe sejam mais próximas. Procuramos sempre o caminho que ofereça menos resistência, através das vulnerabilidades do alvo a atacar.

Há aplicações ou serviços que devem ser evitados?
Sim, todos aqueles que sejam gratuitos. Nesse tipo de serviços há sempre troca e partilha de informação, e por muito que uma empresa diga que não partilha os seus dados, há sempre uma entidade disposta a pagar.

Quão segura está a informação armazenada na nuvem?
Simplesmente não está. Sempre que houver um humano envolvido na proteção dos seus dados, haverá sempre alguém capaz de penetrar no sistema e ter acesso. Mas não há por que ficar paranoico: sejam antes pragmáticos e mantenham todos os vossos segredos mais obscuros escondidos fora da internet.

Alguma vez recebeu uma mensagem da Google a informar que pode perder toda a sua informação se a sua conta principal não for usada durante um tempo? É mentira. Há pouco tempo consegui aceder a uma conta que não era utilizada e acedida desde 2015.

Os escândalos mais recentes com o Facebook dão a ideia de que ninguém está a salvo na internet. É uma forma realista de ver as coisas?
Sem dúvida. A internet é já uma parte fundamental das nossas vidas, ao ponto de passarmos a depender dela de forma quase constante. Sempre que alguém tiver um dispositivo ligado à internet, não tenha dúvidas de que estão a ser deixadas migalhas de informação espalhadas pelos vários cantos do mundo. O pior é que estão disponíveis para qualquer pessoa com o mínimo de conhecimentos ver.

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A isso chamamos metadados, que são utilizados para conhecer mais sobre si, sobre a sua família e os seus amigos. Servem também para sabotar casamentos, estragar a imagem pública de alguém, contar uma história falsa, adulterar provas numa investigação ou, mais importante ainda, para salvar vidas.

Na vida há sempre escolhas a fazer e, no meu caso, o que mais me interessa é a forma como os metadados podem ser utilizados para fazer o bem.

Pessoas como nós têm duas possibilidades: ou nos tornamos em génios e inventamos coisas magníficas, ou acabamos a quebrar a lei, a criar uma espécie de culto ou a cometer crimes que nos fazem crescer e melhorar — caso contrário, acabamos em instituições

Já viu a série “You” da Netflix, onde um homem persegue uma mulher e a manipula a apaixonar-se por ele? Quão realista é a série?
Os métodos da personagem principal, as técnicas de engenharia social e a sua intenção principal são muito realistas e retratam uma parte daquilo que é o nosso processo de espionagem corporativa. Apesar de a série ter um guião e ser muito romantizada apenas pelo fator dramático, é uma reflexão clara de como é viver numa sociedade em que queremos e desejamos a vida dos outros.

Sente algum prazer em atacar infraestruturas ou em roubar informação?
Não lhe chamaria prazer mas entusiasma-me, sim. Tal como um jogador profissional que treina durante meses para aquele golo espetacular e, quando tem a oportunidade, o executa com brilhantismo. No meu caso é igual: temos uma oportunidade.

Relembra-me o momento em que, quando fazia parte das forças militares, percorri o deserto do Kuwait totalmente às escuras. Os meus óculos de visão noturna estavam a 10% de bateria, tinha o equipamento MOPP [usado em casos de ataques químicos ou nucleares] posto e só tínhamos uma única chance de recuperar um veículo totalmente danificado antes do nascer do sol. Tudo isto, claro, quando uma bala inimiga podia vir de qualquer lado.

Tenho mais sucesso quando estou sob pressão e adoro isso. Sinto-me importante, o suficiente para fazer a diferença, por mais pequena que seja, no mundo.

Atualmente, tem uma empresa e várias equipas espalhadas pelo mundo que tem de monitorizar diariamente

Daniel

Faz o que faz para provar alguma coisa?
Não, faço-o para satisfazer uma outra parte de mim. Aquela que permanece adormecida mas que precisa de ser alimentada de tempo a tempo. Conhece alguém dos Açores?

Os casos de esquizofrenia e bipolaridade são mais comuns nos Açores?

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Segundo dados divulgados pela Direção Geral de Saúde, em 2014 e 2015, a taxa de suicídio na região dos Açores atingiu os 20%.

Segundo uma entrevista realizada pelo “Diário dos Açores”, em 2018, a Joana Cabral, doutorada em Psicologia Clínica, há na região uma maior dificuldade em compreender e lidar com doenças do foro mental. Isso traduz-se numa dificuldade generalizada dos doentes em gerir as crises, e que advém da falta de acesso regular a serviços de psiquiatria e de acompanhamento.

Sim.
Então saberá, certamente, que casos de esquizofrenia e bipolaridade são muito comuns naquela região. Sofro do mesmo também, por isso simpatizo com a forma como eles vivem. Pessoas como nós têm duas possibilidades: ou nos tornamos em génios e inventamos coisas magníficas, ou acabamos a quebrar a lei, a criar uma espécie de culto ou a cometer crimes que nos fazem crescer e melhorar — caso contrário, acabamos em instituições.

É como um gene que permanece adormecido no nosso ADN e que é ativado depois de uma experiência traumática. Não podemos ignorá-lo sob pena de nos deixarmos consumir por ele. Ao longo dos anos fui aprendendo a geri-lo e a abraçá-lo ao ponto em que agora funciona como uma espécie de interruptor. Quando preciso dele, ligo-o e deixo que me conduza.

Alguém da sua família sabe aquilo que faz?
Todos sabem, até porque não faço por esconder isso. Mas percebo onde quer chegar. Quer saber qual foi a reação das pessoas mais próximas quando ficaram a saber todas as merdas perturbadoras e doentias em que me meti.

O meu objetivo principal é contribuir para a economia de países de terceiro mundo. Particularmente, naqueles que são geridos, controlados e manipulados por governos e organizações que abusam e tomam partido da inteligência das pessoas

Exato, teve de haver uma qualquer reação. Positiva ou negativa, influenciou-o.
Pois, mas não vou entrar por aí. Naquela altura, a minha vida estava muito negra e num estado que não faço questão de recordar ou reproduzir por palavras.

Descarreguei todo o histórico do meu Facebook. E descobri que ele sabe mais de mim do que eu

O que acontece agora é que as pessoas, quando se apercebem do que faço, me pedem conselhos para verificar se aquilo que lhes é dito pelas suas fontes de confiança corresponde ou não à verdade. Coisas como “acho que o meu companheiro me está a trair, podes verificar?” ou “preciso que investigues este número que não para de me ligar e enviar mensagens ameaçadoras”.

Também houve quem me acusasse de atacar as torres de comunicação que permitem que os nossos telemóveis tenham rede ou de elaborar planos mesquinhos de manipulação para destruir vidas.

Fê-lo? Seria capaz disso?
Se seria capaz? Sim, mas nunca fujo ao meu código ético.

E que código é esse?
Atualmente passa por investir na minha empresa, em que o meu objetivo principal é contribuir para a economia de países de terceiro mundo. Particularmente, naqueles que são geridos, controlados e manipulados por governos e organizações que abusam e tomam partido da inteligência das pessoas.